DA WEASEL
MITOS URBANOS
Numa amena tarde de final de Inverno e tendo o Tejo como pano de fundo do outro lado da janela, Quaresma, Pacman e Virgul falaram à Mondo Bizarre em nome de uma doninha que insiste em não se esconder.
Agora que volta a ser "cool" ouvir rock, os Da Weasel editam um álbum com uma maior presença de guitarras. Foi um modo de actualização do vosso som ou apenas uma forma de torná-lo mais acessível a outros públicos?
Quaresma - Isso é uma coisa que a gente já andava a fazer. Se calhar as pessoas agora ouvem mais coisas de fusão e coisas mais rock.
Pacman - Tivemos um single com uma onda mais pesada mas não é nada de novo.
Se no passado apelidar os Da Weasel de projecto de hip-hop era já redutor, agora chega a ser incorrecto. Como é que se definem?
Q - Acho que não há uma definição concreta do que é o som dos Da Weasel. É mais uma necessidade de rotular, mas tem a ver com aquilo que nós ouvimos e com as nossas influências.
De que forma a saída do Armando Teixeira, responsável pelos teclados e samplers, moldou o vosso som?
Q - A essência continua lá. O facto dele sair... Somos menos mas somos mais.
P - Less is more. Em concreto, não mudou grande coisa porque nós já tínhamos algumas ideias para o que queríamos fazer.
Quanto àquela polémica que, às vezes, se gera em torno das bandas que, sendo portuguesas, cantam em inglês... Vocês começaram em 93 a cantar em inglês, depois, com o álbum "Dou-lhe com a Alma", passaram para o português. O que pensam acerca de uma banda exprimir-se numa língua que não é a sua? É uma opção artística e deve ser interpretada como tal?
P - Pode ser uma opção artística e pode ser legítimo desde que a pessoa veja as coisas dessa maneira. Nós vivemos em português e falamos em português, portanto é natural que façamos as coisas dessa forma. Agora, compreendo também que, para muitas bandas, cantar na língua materna seria complicado. Mas, para nós, só faz sentido, ou faz 95% de sentido, escrever em português.
Então por que começaram em inglês?
P - Porque na altura ouvia muitas cenas em inglês e era o mais fácil: copiava rimas e fazia as coisas pelos modelos que tinha. Eu julgava que sim, que era mais fácil escrever em inglês mas é muito mais difícil. Porque se tu estás mesmo ciente daquilo que estás a fazer e, até certo ponto, és exigente com o teu trabalho, é muito mais fácil em português. Se eu for apresentar uma letra em inglês a um gajo inglês ou americano, ele vai olhar e dizer que aquilo não faz sentido. Se calhar, não faz sentido em termos de construção de frases... Portanto, é muito mais fácil em português. Pode haver para aí gajos a dizer que é muito mais fácil escrever em inglês, mas é um inglês muito básico.
Q - A menos que seja um nível bastante avançado de inglês.
Como é que surge o Mário Barreiros a produzir "Podes Fugir mas não te Podes Esconder"?
Q - O Mário era uma pessoa com quem já tínhamos pensado trabalhar. E juntou-se o útil ao agradável em relação a este disco, porque era um disco que nós decidimos ser mais orgânico. Fizemos uma coisa que nunca tínhamos feito: irmos para uma sala de ensaios e desbundar e fazer a construção dos temas. Como o Mário domina essa parte melhor que ninguém foi bom e o Mário é uma pessoa formidável. É uma referência na produção de música em Portugal pela qualidade e pelo bom gosto musical que tem.
O vídeo de "Tás na Boa" é tido como a maior produção de sempre realizada com uma formação portuguesa. Querem comentar?
P - É um vídeo que nos deu muito gozo fazer, tivemos condições um pouco fora do normal em Portugal, mas pessoalmente não gosto de ver o vídeo dessa forma, como "a maior produção". Gosto de ver como um vídeo fixe e em que tivemos a oportunidade de fazer uma coisa diferente.
Do último álbum destaca-se ainda a participação dos cubanos Orishas em "Sigue, Sigue!" Como é a relação dos Da Weasel com outras bandas?
Q - O mais importante são as pessoas em si, o que tocam ou deixam de tocar não é importante. Portanto, sim, damo-nos com elementos de outras bandas. A questão musical já é outra história.
P - Cada um respeita o trabalho do outro e, a partir daí, damo-nos com toda a gente.
Q - Quanto aos Orishas, antes deles virem cá pela primeira vez, nós já gostávamos do trabalho deles, de música cubana. Nós vimos um showcase que eles deram e ficámos logo com vontade de convidá-los e depois, por acaso, tocámos juntos em Leiria e, na altura, convidámo-los. A coisa ficou em aberto e foi uma questão da editora entrar em contacto com eles.
A edição do vosso último disco foi precedida da colagem de cartazes com o título do álbum, mas que não remetiam directamente para os Da Weasel. Qual foi o propósito?
Q - O propósito era precisamente a abertura do nosso site. E esses teasers...
P - Era um teaser, basicamente. A função é mesmo espicaçar a curiosidade das pessoas e, então, quando ias àquela morada, clicavas numa cena que tinha a ver com os Da Weasel e com o "Podes Fugir mas não te Podes Esconder". Era tentar chegar ao máximo de pessoas de uma forma diferente. E preparar o terreno - como o Quaresma estava a dizer - para a abertura do site.
"Raízes.com" é um tema que gira à volta da temática do ciberespaço. Como e para que fins utilizam a Internet?
P - Como um veículo para chegar às pessoas e elas até nós - que é incomparável hoje em dia.
Q - Como complemento de informação, de pesquisa utilizo bastante a Internet.
A pergunta inevitável: e o Napster?
Q - O Napster... É uma pena que já tenha ido. Era um veículo óptimo para a divulgação. Pelo menos, a minha utilização era essa: conhecer coisas quando não me apetecia ir chatear os gajos às lojas ou estar na bicha da Fnac. Então, fazia downloads mas a seguir ia comprar os discos.
Relativamente aos Gorillaz, é sabido que vocês se tinham antecipado à criação de alter-egos e, depois, eles chegaram-se à frente porque tinham dinheiro para isso. Como é que se sentem? Sentem-se ultrajados?
P - Não. E são conceitos diferentes: Da Weasel utilizou aquilo como um complemento, os Gorillaz vivem mesmo disso, são uma banda virtual e é uma cena diferente.
Querem explicar os vossos alter-egos?
Q - Eles são um pouco nós próprios mas exagerados ao cubo. No meu caso, eu sou uma personagem ligada à Natureza, calma, mas com poderes aplicados ao meio ambiente, à Terra e aquelas coisas meio freaks.
P - O meu é a exploração de uma personagem de ficção, com algumas coisas positivas e outras negativas, uma cena exagerada, uma personagem que toma muitas substâncias para as coisas serem mais agradáveis.
Virgul - O meu é o Golias, um gajo cheio de força, no meio de muitas mulheres, muito pacífico, muito calmo. Uma estrela de filme porno.
(Pacman) Como foi a experiência de proferir as "Estórias Maradas" em Almada no final de 2000, no âmbito do programa "VIA: Cidade. Subúrbio. Capital"?
P - Foi fixe. Enfim, se fosse fazer hoje, faria de uma maneira diferente. Mas foi porreiro poder trabalhar com o Adolfo Luxúria Canibal - que lia textos meus. Foi muito fixe porque aquilo [os textos] é uma cena muito pesada e foi um bom feeling ter o Adolfo a ler aqueles textos. Fui convidado pelo pessoal do VIA. Se fizesse hoje, fazia, então, de um modo diferente, mas estamos sempre a aprender.
Helder Gomes
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