DEATH BY STEREO
O DIA DOS MORTOS
"Day of the Death", o segundo album dos californianos Death By Stereo, editado no início de 2001, passou relativamente despercebido por estas bandas. No entanto a banda teve a oportunidade de compensar esse erro com um excelente concerto na primeira parte dos Good Riddance, deixando a maior parte dos presentes de rastos com a sua mistura explosiva de punk, hardcore e metal. Após o concerto, e ainda com a adrenalina em alta, o vocalista Efrem Schulz e o guitarrista Jim Miner falaram à Mondo Bizarre.
Não é muito normal encontrarmos bandas hardcore a incorporarem riffs de heavy-metal. Aquilo que fazem resulta da mistura de todas as vossas influências?
Jim Miner - Todos gostamos de punk, metal e hardcore e de maneira nenhuma nos inibimos de incorporar esses três elementos na nossa música. Como gostamos de metal, utilizamos solos de guitarra.
Quais foram as bandas que vos inspiraram a formar uma banda?
J.M. - Eu diria que foram os Bad Religion e os Clash.
Efrem Schulz - As primeiras bandas que ouvi e que fizeram com que tivesse vontade de fazer alguma coisa foram os Bad Religion, Toy Dolls e Black Flag. Estas foram as primeiras bandas punk que ouvi e que me serviram de inspiração, mas aquela que mais me inspirou ao longo dos tempos foram os Bad Brains. Eles foram uma das bandas mais fenomenais que ouvi até hoje.
A primeira coisa que me chamou á atenção na banda foi o vosso nome, Death By Stereo, de onde veio?
E.S. -Tirámos o nome de um filme de vampiros dos anos 80 chamado "The Lost Boys". É um filme fantástico. Há uma cena em que um tipo tem um arco de flechas e dispara contra um vampiro. Este voa para trás, atinge a aparelhagem (stereo), explode e o tipo diz: Death By Stereo.
Depois de terem andado em digressão pelos Estados Unidos com os Good Riddance, sei que estiveram quase para não vir tocar à Europa.
J.M. - A nossa digressão europeia só esteve em dúvida durante dois ou três dias devido aos acontecimentos de Nova Iorque. Os Good Riddance puseram a hipótese de adiar para o princípio do próximo ano, mas dois dias antes de partirmos eles decidiram levar os concertos para a frente.
E.S. - O problema é que é muito difícil conseguir voos e muitas bandas tiveram que cancelar as digressões, como os Guttermouth, os Bad Religion, etc. Durante o tempo em que as coisas estiveram em dúvida, eu sempre pensei que no final as coisas iam acontecer, porque esta é a altura mais segura para voar, porque estão muito atentos ao que se está a passar.
J.M. - E se a América for bombardeada, nós estamos na Europa...
Normalmente, quando uma banda passa de uma editora pequena para uma editora grande, há sempre uma história engraçada pelo meio. Qual é a vossa versão?
E.S. - O Kevin, que era um dos nossos melhores amigos, vivia com o dono da Indecision Records, que editou o nosso primeiro disco. Esse tipo é um génio dos computadores e conseguiu um emprego na Epitaph como webmaster. Ele punha o nosso CD a tocar todos os dias no escritório da Epitaph, andava com as nossas T-shirts... Um dia, o Greg Graffin ouviu finalmente o CD e perguntou-lhe quem era a banda. Ele disse-lhe que éramos amigos dele e acabou por nos ligar. Veio ver um dos nossos concertos, e apesar de estarmos a tocar no máximo para 15 pessoas, ele não se importou com isso. Disse-nos que gostava da música e que isso era a única coisa que interessava.
Depois da gravação de "Day of The Death" tiveram que atrasar a edição do disco porque não estavam satisfeitos com as misturas finais. O que se passou?
E.S. - Só tivemos uma semana para misturar o disco antes de partirmos em digressão de Verão, e então apressamos as coisas. Durante a digressão ouvimos as misturas várias vezes e chegamos à conclusão que soavam mal. Por isso quando voltamos pedimos à Epitaph para nos deixar remisturar os temas. Nessa altura dedicamos mais tempo às misturas e o resultado final é muito melhor. Ainda bem que adiámos a edição do disco pois só beneficiámos com isso.
Os títulos dos vossos temas também são muito estranhos e compridos...
E.S. - As letras são escritas por mim e pelo Jim e os títulos são como que uma brincadeira. Eu costumava escrever títulos de canções muito compridos para o nosso primeiro disco, e o nosso baixista, Paul, que é também o nosso gráfico fartou de se queixar por ter de encaixar esses títulos tão grandes na contracapa de um pequeno CD. Eu continuei a escrever títulos enormes só para o chatear. Por isso, quando o segundo disco saiu continha títulos ainda maiores. (risos) De qualquer maneira também resulta engraçado porque a maioria dos títulos das canções não demonstram o que podemos esperar desse tema. No nosso caso qualquer um pode ler os nossos títulos que fica a saber de que se trata.
Vocês têm feito essencialmente de banda suporte. Para quando uma digressão como cabeças de cartaz?
E.S. - Na Primavera do próximo ano. Quando chegarmos a casa depois desta digressão, vamos começar a escrever e a gravar o próximo disco e quando estiver tudo pronto queremos fazer a nossa própria digressão porque já conseguimos alguma notoriedade e alguns fãs ao abrimos para todas as bandas possíveis. Chegou a vez de sermos a última banda da noite.
Apesar de estarem na Epitaph, na grande maioria dos casos as bandas com quem têm feito digressões não são da vossa editora. Normalmente as bandas da mesma editora costumam ser mais coesas e partilhar digressões.
J.M. - Os nossos agentes não têm muito a haver com a Epitaph. Eles simplesmente arranjam-nos as digressões que conseguem. Os tipos da Eiptaph, às vezes também se queixam, mas nós tocamos com as bandas que nos convidam e até agora não tem havido muitas bandas da Epitaph a convidar-nos. Eu sei que é estranho, mas tem sido assim.
E.S. - E depois também acontecem uma série de coincidências, como a vez que fomos convidados para integrar um pacote da editora, mas nessa altura já nos tínhamos comprometido com os Snapcase.
Que também não são da Epitaph...
J.M. - Pois... (Risos) É uma questão de mau timing. As coisas acabarão por acontecer...
O título do vosso último disco, "Day of The Death", é uma brincadeira com "day of the dead" (dia dos mortos)?
E.S. - É uma pequena brincadeira de palavras. Pensei que seria uma ideia interessante. Mas tem um duplo significado. Para além de soar como "day of the dead", quando assinámos pela Epitaph, vimos que tínhamos a hipótese de sermos ouvidos pelo mundo inteiro, por isso o dia em que este disco saiu, foi o nosso dia. Por isso decidimos chamar-lhe "Day of the Death".
No entanto muitas bandas americanas têm medo de voar. Como é que estão as coisas por lá?
E.S. - O nacionalismo está um pouco fora do controle. As pessoas estão tão aterrorizadas que se escondem atrás da nossa bandeira. Agora, mais do que nunca, acenam as bandeiras e gritam "América, América".
J.M. -Todas as pessoas que antes não se importava com nada, agora imploram ao governo para os ajudar. Pessoas que nunca se falaram, de repente passaram a ter um grande sentido de unidade
E.S. - Mas de certeza que quando as coisas acalmarem essas pessoas vão deixar de se falar outra vez.
Durante a vossa digressão europeia, como vêm as reacções das pessoas em relação aos americanos?
E.S. - Em Portugal tivemos uma experiência muito boa. As pessoas têm sido fantásticas connosco, apoiando-nos, sendo amistosas. As pessoas que são abertas o suficiente para virem a um concerto punk, que procuram algo mais, conseguem ver para além disso, conseguem ver que lá porque a América faz uma coisa, não quer dizer que todos os americanos tomem o mesmo partido.
E.S. - Normalmente as pessoas perguntam-nos o que achamos de toda esta situação. Nalguns sítios vimos grafittis com slogans tipo "Fuck the USA". Eu não sou o George Bush, eu não sou o governo, eu odeio o George Bush. Nós não concordamos com o que ele está a fazer.
Curiosoamente a primeira vez que vi o nome "Death By Stereo" foi nas T-shirts que os BoySetsFire traziam quando tocaram em Portugal.
J.M. - Isso é fantástico. Nós andámos em digressão com eles duas vezes e eles são nossos amigos.
E.S. - Fantásticas. Não fazíamos ideia do que podíamos esperar. Foi como hoje durante o concerto, alguns miúdos cantavam as nossas letras. Foi fantástico.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 9)
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