Entrevistas
DEERHOOF
Contusões e beijos
Vêm de São Franciso e já vão no quinto disco, de seu nome “Apple O”. Fazem música rock. Música rock perturbante como a imagem de um corte na pele, maravilhosa como a fantasia mais bela que alguma vez tivemos. Da conversa com baterista Greg Saunier e com a vocalista Satomi Matsuzakie obtivemos algumas respostas inesperadas. Nada de estranho, se pensarmos que os Deerhoof são uma banda que vive num universo muito pouco ortodoxo.

Ao contrário dos escritores e artistas plásticos – mesmo os mais subversivos –, os músicos parecem ter uma noção mais flexível do que deve ser uma carreira. Ou então, não têm noção nenhuma. Limitam-se a fazer música que pode ser reproduzida ‘ad infinitum’ e não almejam a prémios institucionais. Os Deerhoof integram-se exactamente nessa segunda categoria. Ou seja, não fazem questão de nos contar a sua história. Surgidos em 1994, foram companheiros de estrada dos Caroliner Rainbow, banda lendária do underground norte-americano, através da qual vieram a conhecer a actual vocalista, Satomi Matsuzakie. Esta, entusiasmada com as prestações do grupo em Tóquio, deixou o Japão a caminho de São Francisco, onde viria a conhecer o baterista Greg Saunier. Aos dois – depois de várias alterações no line-up – juntar-se-iam John Dietrich (ex-Colossamite), na guitarra, e Chris Cohen, nos teclados. Com cinco discos editados até agora, os Deerhoof são autores de um noise-rock bravio, que é também terno e cândido. A contradição parece imensa e facilmente ficamos confusos, ainda que fascinados. Ora, as palavras que se seguem – a maioria arrancadas a ferros – procuram desvelar um pouco do mundo deste grupo acarinhado por revistas como a Artforum e músicos como os Matmos.

Um dos aspectos que encontramos na música dos Deerhoof é o modo como uma certa sensibilidade pop convive pacificamente no interior de um estrutura rock muito particular... como conseguem isso?
Greg Saunier – Na verdade, não procurámos criar nenhum tipo de estrutura rock particular. Limitámo-nos a começar do nada e, nesse sentido, a imaginação foi o nosso guia. Também não penso que devamos falar de uma sensibilidade especificamente pop, mas da sensibilidade apenas. Da sensibilidade de cada um quando toca um instrumento. É ela que, em última análise, está por detrás de uma canção.

Podemos falar da presença simultânea, na vossa música, de duas dimensões? Uma a mais conotada com as forças de Eros, e outra com as forças de Thanatos? Como um beijo e uma cicatriz, se quiser?
GS – Fico feliz por encontrar essas duas dimensões na nossa música, pois tentamos introduzir ambas. Contudo, também procuramos investir aquilo que fazemos com algo que as ultrapasse. Eros e Thanatos são espíritos humanos, mas na nossa música também existem espíritos animais e vindos da natureza.
Satomi Matsuzakie – Não penso que tenhamos um espírito mau. Não somos violentos e não batemos em nada, à excepção do Greg na bateria. Quanto à nossa faceta mais noise também não julgo que seja violenta. Muitas pessoas têm a tendência de associar a distorção ou o barulho à violência, mas, normalmente, ligo-os ao conforto. Ouvimos no nosso quotidiano inúmeros sons e ruídos e, não raras vezes, quando o barulho surge, tende a aplacar a nossa ansiedade, a suprimir a nossa tensão. A nossa abordagem mais noise é, se quiser, tão violenta quanto alegre, e, algo ironicamente, pode provocar alguma tensão, pois a intensidade da nossa música varia de tema para tema. Quanto ao beijo e à cicatriz, quando beijamos uma ferida ela desaparece. A nossa pessoa amada corta-se e nós beijamos o corte até ele deixar de existir. Em suma, gostamos de ser vistos como uma banda que faz curas mágicas. Uma Magic-Band-Aid!!

Qual é a vossa formação musical e até que ponto influenciou a vossa música?
GS – Sempre estudei música na escola e cheguei a ter aulas de piano. Olhando retrospectivamente, sinto-me muito feliz por tal ter acontecido, porque agora é isso que faço e gosto muito. Mas qualquer um pode fazer música, mesmo que na escola lhe digam o contrário. A Satomi nunca havia tocado numa banda antes de se juntar aos Deerhoof. No Japão, o único instrumento que havia experimentado tinha sido a harmónica e na sua turma foi considerada uma das piores alunas. Curiosamente – ou talvez não – o primeiro instrumento que experimentou nos Deerhoof foi a harmónica.

As vossas letras parecem falar de um estranho mundo algures entre a infância e a idade adulta...
GS – Fico satisfeito por interpretar as nossas letras desse modo. As pessoas têm por hábito dizer que o nosso lado literário é sofrível e, às vezes, sinto-me tentado a pensar desse modo...

A propósito de letras, que história se esconde por trás da maravilhosa canção que é “Blue Cash Song”. Quem é Sophie?
GS – A Sophie é a cadela do Rob Fisk, que foi quem fundou os Deerhoof. Ele costuma estar presente na maioria das nossas canções, mesmas naquelas dos álbuns anteriores. O Rob já não está connosco mas foi ele quem fez a capa do “Apple O'”. Entretanto, quando estava a trabalhar no tema, lembrei-me do "Orfeo", a ópera de Claudio Monteverdi, e de "Orpheus," o ballet da autoria de Igor Stravinsky. Penso que a música em causa rouba algo dessas duas obras… e a história agradava-me especialmente porque, logo após à morte de Orpheus, Apollo surgia no fim para tocar a sua harpa.

”Apple O'“ parece, no seu todo, um disco atravessado por uma maior felicidade, em comparação com aqueles que o precederam... concorda?
GS – Sim, mas não se deixe enganar. As pessoas por vezes sorriem quando querem chorar. Ou fazem uso de humor e de sarcasmo para esconder a fúria interior.

Referiu o sarcasmo. Podemos falar também de um certo lado naïf relativamente à música dos Deerhoof? Na linha de umas The Shaggs, por exemplo?
GS – Tenho algumas dúvidas. Não acho que a nossa música deseje ser ingénua. Todos nós apreciamos imenso as The Shaggs – chegámos a fazer uma versão de “My Pal Foot Foot” –, mas aquilo que elas fizeram não era naïf. Era assustador e extremamente honesto.
SM – Posso dar um exemplo. Escrevi uma canção, intitulada “Panda Panda Panda”, que, se numa primeira impressão parece infantil, na verdade refere-se a um urso verdadeiro. Ou seja, o que interessa é que o significado seja universal, para que todos o compreendam. Na digressão que fizemos recentemente na Europa, no fim dos concertos ouvia-se com insistência, entre o público, a palavra Panda. Daquela confusão de termos que não conhecia, o nome ressaltava com uma espécie de luz, indicando assim a sua imediatez e força. E isso interessa-nos.

“Sealed With a Kiss”, de “Apple O’”, é feito a partir de samples dos Dilute e dos Old Time Relijun. Porquê?
GS - Grande parte das faixas de “Apple O’” soam como que nuas. Gravámo-las ao vivo, sem overdubs ou outro tipo de arranjos. Mas com "Sealed With a Kiss, «descobrimos» uma nova e tentadora maneira de gravar: usando o computador. Assim podemos recriar a própria edição e controlá-la da maneira que quisermos como se estivéssemos a concretizar uma colagem. Limitámo-nos então a convocar excertos de canções de que gostamos especialmente, como “Apple” dos Dilute, “Johnny Appleseed” e até um tema dos Silver Apples.

Como correu a vossa primeira digressão europeia? Querem contar alguns episódios particulares?
SM – Foi fantástica. Passeámos muito e visitámos inúmeras cidades. Em Antuérpia demos com um estranho parque de diversões repleto de criaturas marinhas, como polvos enormes, lulas e conchas de várias cores. Infelizmente, nesse dia em particular o céu estava muito cinzento. Mas uma das coisas que mais me fascinou foram os edifícios, construídos de forma muito simétrica. Eu adoro a beleza dos objectos simétricos e, por isso, fiquei muito entusiasmada.
GS – Se fôssemos tratados pelos europeus do mesmo modo como eles foram tratados pelos media norte-americanos, podíamos ter passado um mau bocado. Mas as pessoas foram de tal modo simpáticas que nem queríamos acreditar. A princípio chegámos a pensar que as salas iam ficar vazias pois nunca antes havíamos tocado no Velho Continente. Felizmente acabou por aparecer muita gente e julgo que a maior parte do público acabou por ter uma boa experiência. Para nós, de qualquer maneira, foi uma surpresa inesquecível.

José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 15)