Entrevistas
DELTA 72
FUNK SOUL BROTHERS
Em 2000 os Delta 72 começaram por editar “000”, um disco inflamado que deve tanto a James Brown como aos Rolling Stones da era “Exile On Main Street”, ou à fúria dos MC5. Depois foi a vez de incendiarem o palco do festival Arcos de Valdevez, conquistando um público na sua maioria desconhecedor da sua música. Este ano regressaram para mais dois concertos. Gregg Foreman falou à Mondo Bizarre.

Que bandas ou estilos vos influenciaram a formar a banda?
Eu vivia em Washington D.C., e se conheceres um pouco da cena alternativa daquela altura, as pessoas estavam muito interessadas nas bandas da Dischord. Eu, por outro lado, estava mais virado para coisas como James Brown, bandas com orgãos tipo Hammond, e o Jon Spencer tinha acabado de editar o “Extra Width”, que foi a primeira coisa que ouvi deles, mas ninguém lhe estava a dar muita importância. Também me interessava pelos Rolling Stones, e por um lado foi como que uma revolta contra essa sonoridade instituída pela Dischord. Estranhamente, o nosso primeiro single foi editado a meias pela Dischord e pela Kill Rock Stars, mas apesar de tudo sempre respeitei essa sonoridade. Na altura estava a tocar com alguns dos músicos que vieram a formar os Make Up, e fui influenciado pela banda deles, os Nation Of Ulysses, Stooges, MC5. Eles influenciaram a música e a moda. Como, musicalmente, não nos demos muito bem, eu segui o meu caminho a fazer uma coisa mais virada para os Stones e para o blues-punk, mas a ideia foi sempre ter muito groove, como a soul?

Quais as principais diferenças entre o vosso primeiro disco e o “Soul Of A New Machine”?
Tínhamos mais vozes femininas, um pouco dos The X, Jon Spencer Blues Explosion, mas acima de tudo uma forte influência de Booker T. & The MG’s, que desde essa altura será a única influência que se mantém.

Curiosamente, hoje em dia vê-se cada vez mais bandas com esse tipo de influências, como os BellRays, Makers, Flaming Sideburns, etc. Como é que vêm isso?
É simples, eles sabem onde encontrar boa música. Haverá sempre algumas pessoas que gostam de música e que vaão atrás ouvir coisas que são intemporais.

Mas acha que algumas dessas pessoas vão procurar essas bandas porque os Delta 72 ou outros, os citam como influência?
Eu espero que sim. Quando uma banda fala das suas referências acaba por levar alguns dos seus admiradores a procurar saber mais do que fez com que soassem assim, e acabam por ir comprar alguns dos discos que mais gostamos e que ajudaram a moldar o nosso som.

Onde é que acham que se inserem na cena rock actual, ou será que não se inserem?
Mas não há uma cena rock. Dão-nos porcarias como os Limp Bizkit e dizem que é música.... É absurdo, são apenas miúdos brancos do subúrbio a rappar sobre maus temas de metal. Qual foi a última grande banda rock que não era independente? Eu e o resto da banda gostamos muito dos Black Crowes, mas é só isso. Muita gente que realmente gosta de música decide fazer as coisas por elas próprias e quando olha para trás pergunta porque é que as coisas pararam em 1975. O disco sound matou o rock, mas não matou a soul.

A vossa interacção com o público foi notória no festival de Arcos de Valdevez, mesmo para uma audiência que provavelmente não vos conhecia. Conseguem sempre essa empatia nos vossos concertos?
Nem sempre. Por exemplo, na última digressão que fizemos pela Europa houveram públicos que deram o suficiente, mas nalguns locais ficaram quietos a ouvir, como se tivessem grandes expectativas. Tivemos situações em que as pessoas ficavam completamente loucas como na Suécia ou em Itália, e situações em que estavam 400 pessoas estáticas a ver-nos, como na Alemanha. Em Londres o concerto estava cheio, e foi muito bom para nós porque também apareceram músicos de outras bandas, como os Blur ou Primal Scream. A revista Mojo, que é a minha publicação favorita de sempre, disse que nós éramos a banda que os Black Crowes deviam ser e que fazemos aquilo que o Rod Stewart mais gostaria de fazer.

Os moralistas têm passado os últimos 50 anos a pregar que o rock é “perigoso”. Esse “perigo” existe ou alguma vez existiu?
Isso é tudo uma ilusão. Também diziam que os ritmos negros eram perigosos para os miúdos brancos, que o hip hop era tão perigoso como os Stooges. As pessoas hoje em dia têm mais controlo sobre as coisas e sabem usar essa energia. Os Slipknot são acusados de serem perigosos por não se saberem quem são, mas o Daft Punk já tinham feito a mesma coisa antes, não é?

E as drogas são perigosas?
Eu sou a pessoa errada para responder a essa pergunta... Eu sei que muitas vezes se diz que há bandas que fizeram os seus melhores discos depois de tomarem drogas, mas aquilo que te posso dizer é que no nosso último disco não foram utilizadas nenhumas drogas.

Como é que o Neil Hagerty e a Jennifer Herrema, sob o pseudónimo Adam & Eve, aparecem a produzir o vosso novo disco?
Nós somos amigos há algum tempo. Temos alguns interesses em comum, como os Rolling Stones, os Faces, e outra boa música. Nós já tínhamos tocado com eles. Sabem perfeitamente de onde vimos e fizeram com que não soássemos exactamente como os Stones, apesar de ao mesmo tempo fazerem com que soássemos como eles. (risos)

Quais as modificações que eles operaram nos corpo dos vossos temas?
Nós gravámos um DAT com todos os temas que tínhamos e eles gostaram imenso desse material, mas disseram-nos que se saísse assim seria um bom disco dos Faces, por isso quiseram brincar um pouco com os temas. Trouxeram para as gravações uma série de sintetizadores Moog, instrumentos de percussão, diferentes abordagem de vozes, arranjos estranhos e acima de tudo foram os nossos guias durante as sessões, indicando sempre o melhor caminho a seguir de uma forma relaxada. Chegámos a utilizar duas baterias ao mesmo tempo.

Mas sempre no sentido de complementar a vossa música ou alterá-la radicalmente?
Eles complementaram-na, mas ao mesmo tempo conseguiram fazer com que chegássemos a um patamar mais elevado naquilo que estávamos a fazer.

Com estas mudanças como foram para vocês as reacções?
Em termos de crítica, este disco foi o que recolheu os melhores elogios, e chegou a ser considerado um dos melhores discos do ano nalgumas publicações, mas em termos de vendas não superou as do disco anterior, porque algumas das pessoas que gostavam de nós pelos dois primeiros discos acharam o “000” difícil de engolir. Provavelmente acham que soamos demasiado aos Rolling Stones e estão-se a lixar para nós. Para mim é o primeiro disco de que me orgulho o suficiente para o continuar a ouvir e afirmar: “eu fiz isto!”.

É fácil viver da música na América? Vocês vivem da música?
Eu vivo, mas alguns trabalham porque é habitual e porque alguns têm grandes encargos. Eu vivo num quarto que é meu e para além disso arranjo algum dinheiro extra passando soul dos anos sessenta num clube duas vezes por mês, o que acaba por me dar mais dinheiro que a banda.

Já que estamos em termos de balanços, quais foram os cinco melhores discos de 2000?
É um pouco difícil de responder, mas gostei bastante da banda sonora do filme “Virgin Suicides”, dos Air, do último disco dos Beechwood Sparks, dos The Go...

Esse não conta, é de 99.
A sério?... Então posso escolher o “Exterminator” dos Primal Scream. Eu não gosto particularmente da música, mas é um disco que tem muita força. O “People Get Ready” dos Mooney Suzuki. Acho que o Tim Kerr fez um excelente trabalho de produção. E também escolhia o álbum dos Delta 72, não por ser um disco nosso mas porque deve ser tomado em consideração.

E o “Pound for Pound” dos Royal Trux?
Esse é o principal! Nem acredito que me estava a esquecer dele. Esse disco encheu-me completamente as medidas.

Quando é que podemos esperar um novo disco dos Delta 72?
Queremos editar ainda este ano. Provavelmente devemos ter o disco gravado em Abril. Acreditem ou não, vamos gravar no mesmo estúdio onde foram gravados discos como o “Exile On Main Street” dos Rolling Stones, o “Purple Rain” do Prince, e um dos discos da Janis Joplin. Não sei ainda muito bem o que se pode esperar deste disco, a não ser que vamos explorar mais a escrita das canções. Mas talvez siga um pouco a linha do “Are You Ready?”, que foi um dos temas mais bem recebidos do “000”. Uma coisa é certa, vamos trabalhar outra vez com o Neil Hagerty e a Jennifer Herrema.

Rui Quintela
(Mondo Bizarre # 6)