Entrevistas
DEREK HESS
O CARTAZ COMO OBRA DE ARTE
Derek Hess não é, tal como Frank Kozik, Coop ou Alan Forbes, um dos desenhadores de cartazes de concertos dos mais conhecidos do mundo. A sua arte começou a difundir-se e a ser divulgada quando foi responsável pelas capas dos discos que marcaram o renascimento do bluesman R. L. Burnside, mas a história é bem mais longa.

Tal como Kozik, a ligação de Derek Hess ao mundo dos concertos de rock vem de longe. Era ele que contratava as bandas que actuavam na Euclid Tavern, um lugarejo em Cleveland, aproveitando para desenhar os panfletos e cartazes que anunciavam esses eventos. Apesar dessa ligação – ténue – com o mundo dos autores de cartazes da Costa Oeste, o estilo de Derek Hess encontra-se bem longe. Por assentar numa técnica de desenho que exclui quase radicalmente a pilhagem de imagens e onde os seus estudos de anatomia são explorados; por não se inspirar tanto no cartaz de «natureza publicitária» com o faz com a pintura; enfim, por não ser tão pop quanto os outros.

O seu percurso é, porém, semelhante: depois dos cartazes para concertos, seguem-se as capas de discos (e para lá dos álbuns de RL Burnside, há ainda a assinalar a colectânea de homenagem aos Motorhead, e uma meia dúzia de bandas que não passam de ilustres desconhecidas), e, mais tarde, as exposições. Nesse sentido, a grande vitória de Derek Hess, até agora, terá sido o convite por parte dos curadores do Museu do Louvre para que algumas das suas obras fizessem parte da colecção de cartazes daquela instituição parisiense.

Uma retrospectiva, não exaustiva mas bastante completa, de todo o seu trabalho pode encontrar-se no sítio na Internet que Derek Hess mantém há já algum tempo. A não perder, sob pena de se julgar que catazes de concertos são sempre umas coisas coloridas com bonecos de desenhos animados…

É frequente encontrarmos uma relação muito próxima entre a subcultura dos comics e a arte de desenhar cartazes – o que aliás acontece frequentemente a partir do advento da Pop Art. Contudo, no seu trabalho, somos guiados até algures muito perto dos lugares frequentados pelos grandes pintores. É um dos seus intuitos oferecer seriedade à tradição da arte de desenhar cartazes?
Sim. Esse foi sempre um dos meus objectivos desde que enveredei por este tipo de actividade. Toda a minha escolaridade foi no sentido de me educar como alguém que sabe fazer reproducções de obras de arte. Por isso, é muito natural que tenha utilizado essa bagagem quando me encontrei ligado a este desafio dos cartazes de concertos.

Existe alguma contradição entre a arte clássica e a Pop Art? Então, qual o lugar dos cartazes nesta questão?
Não estou bem certo sobre o que quer dizer a pergunta. Não me considero um "artista pop". Na verdade, não me interesso por pop arte. É uma pantominice, uma forma fácil de chamar a atenção.

Assume o método “Faça Você Mesmo”, tal como preconizado pelo punk rock, como fazendo parte da sua ética? Como é que acha que os computadores vieram a alterar isso? Trabalha com computador?
Tudo o que fiz foi, fundamentalmente, à minha maneira. Se algum obstáculo me levasse a comprometer a minha integridade, encontraria maneira de o contornar e passar à frente. Agendei concertos à minha maneira o que, por sua vez, me permitiu produzir cartazes à minha maneira, o que fazia de mim o director artístico. Promovi-me à minha maneira, tal como se estivesse a promover um concerto de rock. Nunca como se estivesse no circuito das galerias de arte. (Tenho um problema tão grande com o establishment das belas artes quanto aquele que mantenho com os artistas pop parvinhos de Los Angeles). Só uso o computador para criar tipos. Não scano as minhas imagens: imprimo os tipos à parte e junto-os por cima, à maneira antiga. Raios e coriscos, ângulos e articulações.

Como escolhe os trabalhos que quer fazer? Recusa encomendas de bandas ou revistas de que não goste? E aceita um preço mais baixo se for fã da banda?
Sim, trabalho com o que gosto. Tenho uma escala deslizante para aquilo que cobro. Se for uma banda de que eu gosto mesmo e se as minhas imagens podem ajudar a chamar a atenção, geralmente, cobro aquilo que eles podem pagar. Estou sempre a recusar trabalho. Sentiria que estava a mentir, se fizesse qualquer coisa para alguém em quem não acreditava.

Como artista, é importante fazer parte da colecção de cartazes do Louvre?
É uma ENORME honra fazer parte da colecção do Louvre. Legitima o cartaz de concerto como uma forma de arte. Agora, se as galerias de arte de todo o mundo recebessem essa mensagem…

Na sua biografia cita os Kiss e Aerosmith como as principais influências da sua adolescência. Que música costuma ouvir nos dias que correm? Que tipo de bandas agendava para a Euclid Tavern?
Já não contrato bandas. Porém, continuo a ir a muitos espectáculos e gosto de muitos CDs editados recentemente. O novo álbum dos Boy Sets Fire, "After The Eulogy", é das coisas mais fortes que ouvi desde há muito tempo. Gosto dos novos de Snapcase, Grade, Alabama Thunder Pussy, Pantera, Botch, Barbaro, e qualquer um dos Coalesce.

Conhece algumas bandas portuguesas?
Não estou familiarizado com nenhuma das vossas bandas mas não tenho dúvida que existe aí algum talento.

Que vai fazer proximamente? Tem exposições planeadas? Está a trabalhar em novas direcções?
Tenho estado a trabalhar numa série de nus. É uma série de "Tan Lines". Algumas dessas "Tan Lines" são tradicionais, outras não são tão tradicionais. Duas delas estão no meu sítio na web, na galeria, muitas outras estão prontas para entrar, e outras mais estão ainda na impressora. É muito bom ter voltado a trabalhar com modelos. Não desenhava tanto a partir de nodelos desde os tempos em que estive na escola. Voltei a interessar-me por fazer impressões de belas artes. Agora que já conquistei um público, julgo que posso reintroduzir um tipo de reproduções que não sejam unicamente de natureza publicitária. Continuo a expor em várias cidades dos EUA. A minha próxima paragem é em Detroit, no C-Pop.

Existe algum autor contemporâneo de cartazes de que goste e que, de uma forma ou outra, encontre alguma ligação?
Não. A verdadeira arte de cartazes que me entusiasma são os cartazes de guerra, os cartazes da I e da II Guerra Mundial. Os bons e os maus, eram óptimos!

Miguel Cadete
(Mondo Bizarre # 3)