DESTROYER
DESTRUIR PARA RECONSTRUIR
Daniel Bejar apresenta-se como Destroyer em duas salas Portuguesas a meio do mês de Fevereiro. Nada garante que “Your Blues” seja o prato forte dessas noites. Nada é garantido perante o estranho mundo do homem de Vancouver. A conversa com Daniel Bejar.
Nada como entrar no mundo de Daniel Bejar para sentir o verdadeiro poder de fogo da sua música. Aqui a arma afina-se e dispara para os preconceitos e para as normas estabelecidas. Não há regras nem códigos na sua música e isso já se percebia nos New Pornographers, grupo de que é também membro. Como Destroyer assinou o magnífico “This Night” há um par de anos e em 2004 o belo e inesperado “You Blues”, banda sonora imaginária de um conto de fadas envenenado, que requer atenção e puxa a imaginação para o lado do delírio. Dia 17 de Fevereiro na Galeria Zé dos Bois em Lisboa e dia 18 em Leiria, Dan Bejar não promete um concerto centrado no seu último disco, promete mais do que isso: um set decidido durante o jantar. A não perder.
O nome Destroyer pode, para os que não estão familiarizados com a sua música derivar para diferentes orientações. Concretamente, o que é que pretende destruir com a sua música?
O nome já é antigo, como tal seria preciso muito tempo para recordar o que é deve ser destruído. Neste momento não é algo a que dê demasiada importância. Como a maior parte dos jovens eu gravitei para palavras violentas, termos de guerra... agora sinto-me um pouco melhor.
Referiu numa entrevista recente que o seu lugar na cena musical dos Estados Unidos era num canto de uma sala, de frente para a parede. O que é que quis dizer exactamente com essa afirmação?
Quis dizer que não gosto verdadeiramente deles, como penso que eles também não devem gostam da minha pessoa.
Fale-nos um pouco da concepção de “Your Blues”. Decidiu trabalhar com produtores com quem já trabalhara anteriormente, mas o disco derivou para um resultado final significativamente diferente.
A concepção nasceu na ideia de compor um álbum de canções fora da tradição do rock‘n’roll. Os produtores com que sempre trabalhei foram a escolha perfeita para este trabalho porque se divertem com situações ridículas como algumas que encontramos no novo disco. Pensei também que a possibilidade de usar todo o desastroso potencial da tecnologia MIDI seria para eles um verdadeiro factor de excitação. Para além destes aspectos, são pessoas com um sentido de melodia e drama muito apurado.
Como é que têm sido as reacções dos seus fãs a “Your Blues” onde existem diferenças substanciais em relação aos seus discos anteriores?
Alguns adoram, outros detestam, outros pensam que é uma piada bizarra, ou pura e simplesmente uma espécie de sabotagem da canção. Tive reacções idênticas em “This Night”.
Este disco mais recente aproxima-se quase de uma matriz Ópera Rock e revela algum dramatismo. Dir-se-ia que é um belíssimo disco, mas quase desumano pela forma como está concebido. Esse processo foi intencional ou apenas consequência das inúmeras hipóteses oferecidas pela tecnologia de estúdio?
O Midi pode dar a qualquer coisa um ar humano. Pessoalmente não gosto de Ópera, mas quando se usam 101 violinos, falsificados ou não, pode criar-se essa ilusão.
A sua escrita é considerada muito forte e carismática. De qualquer forma, por vezes, a sua música parece deslocada do contexto dos textos, como se ouvíssemos a banda sonora de “Paris, Texas” num filme de Charlot. Tem a noção de que por vezes as suas palavras são suavizadas pelas estruturas musicais?
Desligadas, penso eu. As palavras surgem sempre depois da música, como tal, as canções não fazem muito sentido como pequenos trechos de música. Penso que essas considerações não serão para eu julgar ou comentar... apenas algo que ouvi dizer. “Paris, Texas” é um filme cool e Harry Dean Stanton faria um grande Charlie Chaplin.
Music Lovers", uma das mais bonitas canções de “Your Blues” foi escrita em Espanha. Tem o hábito de escrever pelos locais onde passa? Pensa que esses locais condicionam a maneira como se exprime, ou a sua cabeça está sempre focalizada nas mesmas coisas que o inspiram?
Eu passei dois meses em Espanha e escrevi algumas canções enquanto lá estive. Não tenho a certeza de que a paisagem espanhola tenha tido um efeito directo na minha escrita, ficaria contente se assim fosse. Vaguear o dia inteiro em locais desconhecidos ajuda definitivamente o processo de escrita. Vancouver tem provavelmente uma maior marca nas coisas que escrevo, embora de uma forma inconsciente. É natural que assim seja, uma vez que nasci nessa cidade e passei lá grande parte da minha vida. Sonhar em sair para algum lugar novo e diferente pode ser muito produtivo.
Quando procuramos na Internet notícias sobre Daniel Bejar ou Destroyer, são raras as vezes em que não surgem referências a “Music For A New Society” de John Cale ou a David Bowie. Essas referências fazem sentido para si?
“Music For A New Society” é um disco único como o são muitos outros discos de John Cale. Penso que não tenho mais nada a dizer sobre Bowie... excelente cantor que se veste bem. Julgo que as pessoas lêem demasiadas notas de imprensa acerca de outros artistas.
Como é que reage ao facto de muitas pessoas o considerarem um dos mais inteligentes e intrigantes escritores de canções. Isso é importante para si?
Não… eu só quero fazer coisas com alguma ressonância emocional... ressonância poética também é importante. Mas... tem a certeza que as pessoas dizem essas coisas acerca de Destroyer?...
O que é que “Your Blues" pode indiciar para o futuro, uma Ópera Rock com centenas de personagens e uma orquestra verdadeira?
Nunca mais farei nada como “Your Blues”... isso prometo!
Em Lisboa vai actuar numa sala pequena que já tem um grande culto e é uma referência cultural da cidade. Pensa que esse tipo de locais é o ideal para apresentar a música de “Your Blues”?
Estou tão excitado por ir a Lisboa que não me interessa o local onde vou tocar. A oportunidade em si é a situação ideal.
De qualquer forma o que é podemos esperar dos concertos em Lisboa e Leiria?
Ruído, excitação… irrelevantes para o álbum “Your Blues”. Penso que muitas das canções dos concertos serão sugeridas durante o jantar.
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Paulo Coelho
(Fevereiro de 2005)
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