DETROIT ROCK CITY
No passado, e após o pico da vaga soul da Motown, bandas como MC5, Stooges, Kiss, Sonic’s Rendezvous Band, Question Mark and The Mysterians ou Alice Cooper escreveram algumas páginas da história do rock e re-colocaram Detroit no mapa. Hoje, com a atenção dos media virada para os White Stripes, volta a falar-se numa cidade que nunca esteve adormecida em termos criativos, mas sobre a qual voltam a virar-se, merecidamente, as atenções.
Se Iggy Pop conseguiu ter uma carreira pós-Stooges, se Wayne Kramer tem editado com regularidade, se Scott Morgan reencarnou nos Hydromatics, se os Kiss e os Question Mark and The Mysterians voltaram, outras bandas, como os Gories de Mick Collins, apareceram, deram que falar e desapareceram. O futuro é agora. E tal como no passado, a cidade fervilha com novas bandas a emergirem e outras a confirmarem as expectativas nelas depositadas nos últimos anos. Um dos polos de concentração de muitas dessas bandas é o estúdio Ghetto Recorders.
Criado por Jim Diamond em finais de 1996 simplesmente porque “tinha 30 anos e estava a trabalhar noutros estúdios” em que “odiava a música que era obrigado a gravar”. Jim teve como primeiro trabalho no Ghetto Recorders a gravação do álbum “Deal Me In” dos Bantam Rooster. Afinal eles foram “a primeira banda que consegui convencer a gravar lá”. Isto depois de ter, finalmente, “conseguido juntar todo o material necessário”. Quase todo o material usado para a captação e gravação é vintage. Mesas de mistura e gravadores analógicos, dos anos 70, que contribuem para um som característico que a maioria das bandas pretende alcançar. Esta opção é ainda justificada por “mais fácil de trabalhar e por preferir o som que produzem, em detrimento dos computadores”. E claro, porque é esse tipo de equipamento que as bandas com que Jim quer trabalhar preferem. Jim Diamond tem gravado várias bandas locais e não só, para além de ter produzido, juntamente com Jack White, a compilação “Sympathetic Sounds of Detroit”, que Jim vê como uma “amostra do que se passa actualmente em Detroit” ainda que “existam mais bandas boas que não estão no disco”. No geral, a compilação é descritica como “minimamente representativa”. Esta antologia surgiu sensivelmente na mesma altura em que os White Stripes ofucavam a imprensa britânica, algo que o produtor vê com bons olhos: “o sucesso dos White Stripes é bom para todos”, pois “acaba por chamar a atenção para outras bandas da cidade”. Curiosamente das outras bandas de Detroit a mais bafejada com tal atenção foram os Dirtbombs, a banda de soul punk liderada por Mick Collins (ex-Gories, King Sound Quartet, The Skrews), e da qual Jim Diamond também faz parte. Apesar do novo álbum “Ultraglide in Black” ter recebido excelentes críticas e a digressão europeia ter corrido bem, o baixista dos Dirtbombs é cauteloso, “não sei se alguma vez seremos tão grandes como os White Stripes” afirma. E de bom humor acrescenta “somos mais velhos e não somos tão bonitos”.
De todas as bandas que gravou, os Dirtbombs são uma das daquelas com que Jim mais gosta de gravar. Trabalhar com os Dirtbombs é “sempre muito divertido”. Mas há mais quem tenha ganho apredileção de Jim. “Gosto muito de gravar os Bantam Roster porque consigo embebedar o Tom Potter sempre que gravamos as vozes”, diz. E, mesmo que gravar nos Ghetto Recorders possa por vezes, ser doloroso segundo consta, o estúdio é um forno no Verão e um gelo no Inverno. Jim não confirma nem desmente mas revela que costuma dizer às bandas ser “necessário sofrer pela sua arte”. Nos próximos tempos muitos são os discos editados saidos das mãos de Jim Diamond, tanto de bandas de Detroit como de outras cidades. Os The Go vão finalmente “ver o editado o seu segundo disco que já estava gravado há algum tempo. Também os Mr. Airplane Man, de Boston tem um disco a sair". O segundo álbum dos nova-iorquinos Mooney Suzuki também foi gravado no Ghetto Recorders e segundo Jim “está fantástico”. Com o “selo” do Ghetto Recorders pode-se ainda esperar discos dos Clone Defects, Wild Bunch, Goro Gore Girls ou Outrageous Cherry.
Nos últimos anos várias têm sido as editoras que têm apostado no estúdio Ghetto Recorders (SubPop, Epitaph, Sympathy For The Record Industry, Crypt, Estrus) podendo destacar-se uma mão cheia de obras fundamentais, sejam elas garage rock, punk clássico, surf, etc que ganharam vida nos Ghetto Recorders.
Uma dessas obras é “Watcha Doin’” dos The Go, editado em 1999 pela SubPop, que se tornou num dos álbuns de 1999 e que infelizmente foi esquecido por estas partes. Na altura Jack White ainda fazia parte da banda e os The Go eram a resposta contemporânea aos MC5. O álbum de estreia homónimo dos White Stripes também lá foi gravado. Para muitos “White Stripes” capta a essência da banda no seu estado mais primário. Os Outrageous Cherry, uma versão mais psicadélica dos Velvet Underground, gravaram lá “Out There in The Dark”, em 1999, álbum que chamou a atenção de Alan McGee (ex-patrão da Creation), acabando este por reeditalo na Poptones um ano mais tarde, ao que se seguiu em 2001 o novo “The Book Of Spectral Projections”, igualmente gravado nos Ghetto Recorders, mas infelizmente com resultados menos brilhantes. Em contrapartida, 2001 trouxe dois excelentes álbuns de estreia, “Are You Green?” dos The Sights e “Lack of Communication” dos Von Bondies. Se os primeiros se inclinam mais para high-energy pop dos anos 60 com um toque agreste do garage rock, resultando numa curiosa mistura dos The Who com os Small Faces, os segundos, para além de contarem com a produção de Jack White, cobrem um rock já de si infectado pela decadência com uns blues poderosos, do qual já alguém disse ser o som que os Gun Club fariam se não tivessem acabado.
No entanto, o disco saido das mãos de Jim Diamond que mais atenção mereceu tanto a nível de crítica como de público, foi “Ultraglide in Black” dos Dirtbombs (ver Mondo Bizarre nº 8). O segundo disco desta banda mutante liderada por Mick Collins (The Gories, King Sound Quartet, The Skrews, etc) conseguiu fazer-se notar em Inglaterra por arrasto da febre dos White Stripes tendo não só sido bastantes vezes citados por Jack White como uma das melhores bandas de Detroit, como conseguido a atenção do New Musical Express e de outras publicações britânicas.
DISCOGRAFIA SELECCIONADA
? and the Mysterians: 96 Tears (Cameo Parkway, 1966) Alice Cooper: School’s Out (Wea, 1972) Andre Williams: Black Godfather (In The Red, 2000) Bantam Roster: Deal Me In (Crypt, 1997) Brownsville Station: Yeah! (Big Tree, 1973) Demolition Doll Rods: TLA (Matador, 1999) Detroit Cobras: Mink Rat or Rabbit (Sympathy For The Record Industry, 1998) Detroit with Mitch Ryder: Detroit (Paramount, 1971) Dirtbombs: Ultraglide in Black (In The Red, 2001) Gories: Outta Here (Crypt, 1992) Hydromatics: Parts Unknown (White Jazz, 1999) Iggy Pop: Lust For Life (EMD/Virgin, 1977) Kiss: Destroyer (Mercury, 1976) MC5: Kick out The Jams (Sundazed, 1969) Outrageous Cherry: Out There in The Dark (Del-Fi, 1999) Sonic's Rendevous Band: City Slang (Orchide, 1978) SRC: SRC (One Way, 1968) Stooges: Fun House (Elektra, 1970) The Go: Watcha Doin' (SubPop, 1999) The Sights: Are You Green? (Fall Of Rome, 2001) Volcanos: Finish Line Fever (Estrus, 1998) Von Bondies: Lack of Communication (Sympathy For The Record Industry, 2001) White Stripes: De Stijl (Sympathy For The Record Industry, 2000)
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 10)
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