Entrevistas
dEUS
MÚSICA CINEMÁTICA
Em vésperas de mais uma prometedora passagam pelo nosso país, os dEUS na pessoa de Klaas Janzoons fazem-nos um breve mas conciso balanço da sua actividade artistíca, do modo como a encaram e do meio em que se inserem. Rematando com o regresso a terras lusas, já este fim-de-semana.

Os dEUS lançaram recentemente a compilação "No More Lould Music". Mas é verdade que consideram mais interessante o lançamento simultâneo do DVD, que foi no fundo o que vos deu gozo promover?
Sim, não estamos muito interessados em editar material que já antes tinha sido editado, mas é claro que estão muitas pessoas envolvidas neste negócio. Contudo, queríamos lançar muito do material filmado que tínhamos, e parece que agora temos este óptimo instrumento que é o DVD. Este era um bom momento para lançarmos este tipo de material, uma vez que tínhamos gravado um diário da digressão, e muito pouca gente o viu. Era a editora que queria algo que fizesse dinheiro porque tudo isto custa imenso dinheiro, e nós não fazemos assimtanto quanto isso. Mas por outro lado, pode ser interessante para pessoas que conhecem mal os dEUS, que apenas nos ouvem umas vezes na rádio, gostam mas não sabem que álbum devem comprar, optarem pela compilação. E existem muitas pessoas nessa situação. Devo dizer que também não compro sempre os álbuns, tenho muitas compilações.

E de certo modo fazem um balanço da vossa carreira...
Sim, sim. E até é bastante bom ouvir estas canções alinhadas, ouvi-las juntas. O facto de estarem por ordem cronológica faz-nos pensar como as coisas mudaram, desde uns miúdos que querem fazer rock, a homens mais velhos que fazem canções mais lentas.

A formação dos dEUS sofreu bastantes alterações ao longo dos anos, com a entrada e saída de muitos músicos. Terá isso sido fundamental para a diversificação sonora que se faz sentir de álbum para álbum?
Não sei, tal nunca aconteceu propositadamente, trabálhamos com músicos muito diferentes, mas nunca lhes pedimos para abandonar a banda. Por outro lado, isso é de facto um motivo pelo qual a nossa sonoridade se diversifica, essas pessoas contribuem com o seu próprio som. O próximo álbum será gravado sem o Craig (Ward), e talvez sem o Tim (Vanhamel) , apesar dele ter vindo a ser um membro dos dEUS a tempo inteiro, agora tem a sua própria banda, os Millionaire, que se estão a safar muito bem. Talvez ele saia mesmo dos Deus. Os dEUS serão diferentes mas continuarão a ser os dEUS.

Estão já em gravações para o próximo álbum?
Não, neste momento andamos numa de fazer umas jam sessions, estamos na fase de ensaios. Isso só acontecerá dentro de quatro ou cinco meses.

É muito precipitado perguntar-lhe se devemos esperar algo dentro da linha do "Ideal Crash", ou se uma vez mais, optarão por abordagens diferentes?
Tentaremos alcançar uma abordagem diferente. O "Ideal Crash" foi lançado há mais de três anos, provavelmente nunca mais faremos um álbum como esse. O Craig está bastante envolvido nesse disco e não estará sequer no próximo. Talvez o substitua um músico convivdado, ainda não sabemos, pois ainda não reunimos a banda. Neste momento somos eu, o Tom (Barman), o Julle (De Borgher) e o Danny (Mommens), quatro. Mas quatro pessoas não fazem o som dos dEUS. Veremos o que acontecerá. Poderá ser música barulhenta (lould music), música de dança, qualquer coisa, ou coisas muito diferentes.

Os Deus sempre estiveram ligados a outras formas de expressão artistíca. Considera que isso aliado a um certo espiríto de ironia boémia, expressam algo acerca da própria identidade da banda?
Não concordo muito em relação à dita ironia boémia. Penso que nos levamos muito a sério, neste momento pelo menos. Em relação aos nossos envolvimentos com outro tipo de formas de arte, sempre existiram nas letras muitas ligações a um ambiente cinemático, uma vez que o Tom é um viciado em cinema. Muitos de nós envolvem-se com outros projectos para além da música, mas no fundo somos apenas uma banda. Não somos uma espécie de conceito artistíco em termos abrangentes, somos apenas os dEUS. E se nos passado houve um forte envolvimento com a pintura, que utilizávamos quando esses trabalhos eram bons, neste momento já não somos pintores (risos). Mas esse ambiente cinemático estará sempre lá.

Muitos de vós têm projectos paralelos, e fala-se bastante na dinâmica cena musical belga. Concorda com essa imagem exterior que temos da cena belga?
Bem, talvez haja um certo exagero em relação à cena belga. Existem de facto muitos músicos que se conhecem, e talvez possamos falar duma cena, mas essa interacção é algo que já não existe muito neste momento. Tocarmos em imensas bandas ao mesmo tempo, como o Craig que tocou em cinco, é algo que já não acontece. Nesta altura trabalhamos mais individualmente, todos gostamos de música, mas as pessoas estão também envolvidas com outras coisas, não tem de ser sempre com a música. Penso que toda a agitação à volta da cena belga é mais um pequeno boato. Claro que há uma cena, mas há uma cena musical em todo o lado. Por outro lado, os Millionaire estão-se a safar muito bem em Inglaterra, as coisas continuam a correr bem em termos internacionais. Talvez seja por estar muito habituado a isto, que não considere que seja uma grande cena musical.

Os dEUS são bastante populares em Portugal, e tocaram aqui já bastantes vezes. Possui alguma memória especifíca das vossas passagens por cá?
Sim, sim. Lembro-me por exemplo quando tocámos na Aula Magna, a electricidade acabou a meio do concerto durante bastante tempo, e não sabíamos o que estava a acontecer. Portanto eu e o Craig compusémos uma pequena música acústica, ele tocava na guitarra acústica e eu acompanhava no violino, mal se ouvia. Mas o público estava tão calado que se conseguia de facto ouvir, nunca esperei que as pessoas tivessem essa atitude. Aprecio muito o público português.

O que pudemos esperar dos concertos que darão neste próximo fim-de-semana em Portugal?
Iremos tocar canções antigas, um pouco no espiríto do DVD e do "No More Lould Music", abordaremos canções dos três álbuns. Talvez também uma ou duas canções novas que compusémos. Haverá projecções de vídeos e um pequeno coro. Uma grande produção, portanto!

Ana Gandum