DEVENDRA BANHART
BALADAS PARA OUVIR NO ÚTERO
Tem 21 anos, nasceu no Texas e viveu na Venezuela. Desistiu das artes plásticas para se dedicar à música. No mar desta navegou, quase à deriva, aproveitando os sopros do blues e da folk. Chama-se Devendra Banhart e lançou recentemente “Oh Me Oh My...”, o seu primeiro álbum, obra lancinante e terna que esteva na origem das linhas que se seguem.
Amigos caracóis e outros animais cuja indefinição não lhe permite que lhe chamemos outra coisa senão animais. Assim nos revela Devendra Banhart aquilo que o inspira. Nada de espantoso se estivermos atentos às letras das suas canções, onde abelhas, macacos e caracóis se transmutam, por intermédio de deliciosas metáforas, em misteriosos seres.
Sim, uma certa estranheza habita o universo deste músico que pensava que a sua antiga casa na Venezuela dava pelo nome de “A Casa Branca” ou “E Tudo O Vento Levou”. E que recorda com saudade a avó e as mangas que ali comia.
A razão porque deixou o curso de artes plásticas está em Mississipi John Hurt, cantor de blues que Harry Smith incluiu na sua “Anthology Of American Folk Music”. Mas também podia estar nas canções de Vashti Bunyan, lendária artista folk britânica, em Fred Neil e na sua protegida Karen Dalton ou na displicência optimista dos The Fugs. Banhart cita ainda outros nomes como os de Fred McDowell, Vetiver, Entrance, Pere Ubu, The Angels of Light, Sun Also Rises, Linda Perhacs, Luis Bonfa, Os Mutantes e Leadbelly, deixando a entender que a lista é interminável.
Mais ou menos elucidados com as referências musicais, decidimos então falar sobre as letras e imaginamos então o que elas materializariam: um cenário algures no Sul dos Estados Unidos pululado pelas primeiras personagens de Walt Disney. Devendra responde-nos, lacónico, “Escrevo, já há muito tempo, poemas, desde os 8 anos”, e nós aceitamos a oferta não sem antes aproveitarmos para citar "There's a lot of love but not the one I need” e perguntarmos logo a seguir de que tipo de amor é que ele precisa. A resposta vem desconcertante: “O Amor de uma antiga índia, imperatriz dourada que me seguirá!”.
Antes que nos esqueçamos, isto vem tudo a propósito de “Oh Me Oh My...”, disco editado pela Young God e que, segundo o próprio, foi gravado em quatro, três e duas pistas e com o apoio de um gravador de mensagens. Nele também se podem ouvir os sons de pássaros a cantar, apitos ou o baloiçar das ramagens das árvores. Ou não tivesse “Oh Me Oh My..” sido resgatado por entre várias divisões de uma casa. Num quarto junto a uma janela, ou numa simples na casa de banho.
O encontro com Michael Gira terá acontecido por intermédio de Siobhan N Duffy (ex-Gunga Din, God is My Co-Pilot). “Ela deu-lhe a minha primeira série de demos e ele respondeu com uma belíssima carta e enviou-me «How I Loved You» dos Angels Of Light”. Devendra não nos consegue explicar como será a contribuição do ex-Swans no seu próximo trabalho mas, ainda assim, garante-nos que nele muitas outras vozes e mãos se ouvirão. Quando se fala de alguns dos seus companheiros de estrada, como Entrance (ou Guy Blakeslee, ex-baixista dos Convocation Of), PG Six ou Ben Chasny, o jovem texano chega mesmo a confessar apreciar bastante a música deste último.
Chegamos o à última pergunta. Será a música de Devendra Banhart apropriada para dar a ouvir a um bebé quando este ainda está protegido pela barriga da mãe? A reacção não podia ser mais imediata e, entre pontos de exclamação e interjeições de espanto, o músico diz-nos que algumas das suas canções foram escritas especificamente para mulheres grávidas. “Essas são notícias espantosas. Estou honrado, muito obrigado”, agradece, e pergunta pelo nome da criança. Mas esta era a última pergunta. E não sabíamos se era menino ou menina.
José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 14)
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