DIAMANDA GALÁS
SACERDOTISA DE INTERVENÇÃO
A sua música é tudo menos fácil. Os temas que lhe estão subjacentes são ainda mais incómodos. Há quem a considere mesmo uma espécie de bruxa moderna. A verdade é que Diamanda Galás é uma das personagens mais controversas e interventivas da música popular dos últimos anos. Que, apesar do peso da sua obra, considera que o sentido de humor é essencial...
Diamanda Galás é uma das personagens mais extraordinárias que a música popular produziu nos últimos anos. Para alguns é também das mais assustadoras e difíceis. Talvez porque esta americana de origem grega não tenha medo de meter o dedinho nas chagas mais dolorosas da humanidade. A sua música é de intervenção no sentido mais literal da palavra, já que em vez de ajudar a encobrir estas feridas e fingir que tudo está bem, o seu trabalho revolve a podridão da hipocrisia humana em temas como a Sida, os genocídios étnicos, a religião, a política dos poderosos. Aqueles temas que mais fundo batem na alma humana, e que inevitavelmente são os que mais assustam, porque tratam de medo e dor. Com os acontecimentos recentes no mundo, e antes das suas últimas actuações em Portugal, Diamanda Galás tem muito por onde discorrer.
Os três discos que vai editar, "Defixiones", "La Serpente Canta" e La Insecta", fazem parte de uma trilogia?
Os discos serão editados separadamente. O primeiro, "Defixiones", fala do genocídio dos cristãos da Ásia Menor e, até certo ponto, do genocídio feito pelos turcos. O segundo, "La Serpenta Canta"é um disco ao vivo com temas de várias tradições. O terceiro, "La Insecta", foi gravado há muitos anos atrás e fala da guerra química e biológica, nas prisões e situações de isolamento.
A guerra química e biológica são assuntos muito actuais, vai ser um disco "just in time"?...
Estou a fazer este trabalho, continuamente, desde há dez anos e é estranho porque as pessoas perguntam, devido aos últimos acontecimentos mundiais : é isso que está a fazer agora? Claro que não (risos). Eu nunca faço nada que tenha a ver com o que se está a passar agora. Parece que sempre funcionou assim, mas hoje em dia toda a gente tem medo do antraz, digo-lhes sempre que se realmente querem pensar no medo, deviam estar aqui há vinte anos atrás quando toda a gente estava a morrer de sida. Isto não é nada comparado com a crise da sida.
Parece ter a memória de um imortal e um conhecimento muito completo e profundo da história da humanidade...
Como o meu pai diria, a minha resposta a isso seria: soy una grega. Puedo hablar español si está mejor para ti... Às vezes as pessoas dizem que o espanhol é mais fácil, outros dizem que o inglês é mais fácil. Desafortunadamente no puedo hablar português (risos).
Vê-se que tem um bom sentido de humor...
É necessário...
Em palco não parece uma pessoa com muito sentido de humor, mas quem estiver atento pode perceber essa sua característica, por vezes escondida, na escolha do repertório como é o caso de "I Put A Spell On You"...
É um tema engraçado. Quando eu canto sou muito séria e o meu trabalho é muito sério, mas às vezes as músicas são engraçadas. É natural as pessoas terem essa ideia porque não pareço uma pessoa com um grande sentido de humor. Mas em palco tenho um grande sentido de humor. Prometo...(risos)
Penso que toda gente devia ter sentido de humor sobre si própria...
E deviam, caso contrário nunca irão sobreviver. É uma necessidade. Devo dizer que é algo que em Nova Iorque é uma grande virtude. Os novaiorquinos que ficaram depois dos atentados e que lutam têm um grande sentido de humor.
Diz não ser influênciada por acontecimentos recentes, mas acha que, de algum modo, os ataques terroristas podem vir a ser marcantes no seu trabalho daqui a 5 ou 10 anos?
O trabalho que realizei no "Defixiones" foi iniciado há quatro anos atrás, e já na altura falava deste tipo de situações. Por acaso influenciou o "Defixiones". Vamos ver as coisas nestes termos: tens uma super-potência, e depois tens pessoas como os Taliban que não são uma super-potência, mas tentam portar-se como uma tal, com aquilo que fizeram ao World Trade Center. Basicamente se olhar para isso de uma maneira diferente, olho para grupos de pessoas que estão interessados no poder e não na religião. Eles usam a religião para fazer o que fazem e para convencer toda a gente à sua volta a lutar com eles. É tudo um monte de lixo. Estas pessoas dirigem-se sempre às pessoas e dizem: tu és o infiel e é por isso que te vamos matar. Por isso toda a gente à volta concorda com eles. Há uma ou duas pessoas a comandar e depois um monte de gente que é como ovelhas. Em grego chamamo-lhes algo como a ovelha medrosa que segue o líder e que faz coisas que nunca faria sózinho, porque não tem coragem suficiente para isso. Essa é a razão porque seguem um tipo qualquer e fazem essa merda. No entretanto morrem pessoas inocentes. O que espero é que todos estes tipos se juntem e se matem uns aos outros e deixem o resto das pessoas em paz. Mas como isso nunca vai acontecer, é por isso que temos de continuar a operar e a trabalhar no meio deles. Tento lutar com as minhas performances, mas também luto na internet. Vão ao meu web site e encontrarão muitos textos políticos, porque estou sempre a acrescentar textos de activistas politicos, etc. Fazemos muito trabalho on-line e há muita coisa a acontecer que a maioria das pessoas não tem ideia que existe. Vítima, nenhum de nós é vítima, continuamos a trabalhar e a fazer o possível para mudar as coisas. Não me considero nenhuma vítima.
É para si muito importante, como devia ser para toda a gente, ter uma causa pela qual lutar?
É verdade. Quem é que quer estar no seu leito de morte e dizer eu vivi a vida da Mariah Carey? Mata-me já, não deixes isso para mais logo, mata-me já. Ela nem sequer é uma infiel é apenas a coisa mais mundana da América...
Nas suas actuações parece-me que faz de cada canção um filme mental e que depois intrioriza uma personagem como se fosse uma actriz.
Sim isso é exactamente o que acontece. Começa pela mente. A música é um meio, é por isso que tem de ser uma actuação concentrada, sem distracções.
Parece-me que existem claramente duas Diamanda Galás.
Na realidade existem muitas mais...
Mas neste caso há pelo menos duas muito evidentes, uma que faz discos muito sérios como "Vena Cava" e outra que está disposta a gravar discos "mais light" como "The Singer" ou "Sporting Life" , este último com John Paul Jones, ou fazer participações em projectos de outros músicos...
Nesse sentido, um é introvertido e sério, outro é mais música religiosa e de devoção, o outro mais secular sobre uma mulher que passa pela rua e diz, desculpem, estão no meu espaço fisico, saiam da minha frente. Tenho que ser assim. É assim que as coisas são.
E quanto à sua participação em dois dos discos do projecto Recoil de Alan Wilder...
Ele é uma pessoa muito querida e extremamente talentosa. Os discos dele são muito bons, especialmente o "Liquid", que é um dos meus discos preferidos. O Alan é um compositor e para mim foi um prazer trabalhar com ele.
As pessoas não sabem o quão talentoso ele é, não têm ideia que ele era realmente o director musical dos Depeche Mode. Quando o disco dele saiu, a primeira pessoa que foi influênciada por ele foi o Moby. Ele foi muito influênciado pelo Alan Wilder e nunca disse isso em público. As pessoas pensaram que esta ideia do gospel era ideia do Moby, mas foi o Alan Wilder que teve essas ideias. O trabalho do Moby é estúpido.
Será que nas suas colaborações com os Recoil o Alan funcionou como um realizador de cinema e a Diamanda era uma das suas personagens?
Tudo o que fiz foi escrever as palavras e cantar. A estrutura principal do tema é trabalho dele, e só gravei a minha voz por cima da base musical que já estava feita. Foi ele que orquestrou o tema e trabalhou com o Paul Kendell que é um mestre da electrónica, com quem também já trabalhei. Ele o Paul fazem uma grande equipa.
E no caso do Khan?
Gravámos o tema no quarto dele. Estive lá a cantar durante vinte minutos, e fui para casa. Foi muito divertido. O tema "Aman", é uma dedicatória. Quando eu digo "November 17th", esse é o nome de um grupo terrorista grego que ficou famoso por atacar diplomatas americanos ou representantes gregos que tentaram vender a Grécia à América ou à Turquia. É por isso que dediquei esse tema a esse grupo. Mas é preciso dizer que fiz esse tema há dois anos. Os "November 17th" não atingem grandes grupos de pessoas, só atingem uma pessoa de cada vez. Eles sabiam quem era o seu alvo. Há que respeitá-los e eu respeito-os.
Às vezes tenho algum respeito por grupos como o IRA...
Eu também. Eu respeito muito o IRA, mas infelizmente eles foram castrados pela América e pela Inglaterra devido à guerra dos Taliban, por isso tem que ficar quietos e baixar as armas. Tipos como os palestinos só tem pedras para lutar e as pessoas dizem-lhes que não podem lutar.
É uma devoradora de música de outras partes do mundo, da chamada "world music" e de escritores também. De Portugal conhece alguma coisa?
Claro que sei quem é a Amália Rodrigues, porque a ouvi quando tinha apenas 15 anos. Sempre gostei muito dela e sei que têm novos cantores, como a Misia, que ouvi hoje. Tenho um documentário que foi feito sobre a Amália Rodrigues. Ela era uma cantora estupenda. Sempre gostei de fado. Acho que a música grega, a música portuguesa e a música da Sicília tem uma relação muito forte. Há muita alma nessa música, muita melodia e muita paixão.
Nuno Calado - Tradução: Hugo Moutinho - Edição: Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 9)
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