Entrevistas
DIAMOND DOGS
“Boogie” Pela Noite Fora
Diamond Dogs» é um álbum de David Bowie. Bobba Lee Fett é teclista dos Hellacopters. Os Diamond Dogs são uma banda onde Bobba toca guitarra, mas por ali não se vêem nem Bowie, nem os Hellacopters. Celebra-se uma explosão efusiva de boogie para dançar até cair para o lado - com «Too Much Is Always Better Than Not Enough», o novo disco, a rodar na aparelhagem.

Os Diamond Dogs formaram-se em 2000 e, daí para cá, editaram dois EP’s («Among the Non Believers» e «Shortplayer») e dois álbuns («As Your Green Turns Brown» e «Too Much Is Always Better Than Not Enough»). Chamaram a atenção, inicialmente, por neles figurar Bobba Lee Fett, guitarrista dos Hellacopters. No entanto, quem os for ouvir levado pela filiação será surpreendido. Como Sulo Karlsson afirma na entrevista que se segue, os Diamond Dogs não querem ter nada a ver com a propalada cena garageira escandinava. Para dizer a verdade, nem querem que se fale muito do nascimento na Suécia. Querem ser reconhecidos como uma banda de rock’n’roll, ponto final. Quem já assistiu aos seus concertos (a julgar pelas críticas disponíveis pela net) parece fazer-lhes a vontade. Os discos, já agora, também não os desmentem. É mesmo de rock’n’roll que se fala. A animação perfeita para uma festa de Sábado à noite (com Rod Stewart no lugar de Travolta). Sulo Karlsson, vocalista e «soulman» dos Diamond Dogs, é o convidado de honra da que se segue.

«As Your Green Turns Brown», o vosso álbum anterior, apesar de todo o «boogie», pareceu-me um disco longo demais, extendendo-se por quase uma hora de duração. Agora, com «Too Much is Always Better Than Not Enough», temos um comprimido para efeito rápido em meia-hora. Era vossa intenção passar para o álbum apenas e só o essencial?
Para o «As Your Green Turns Brown» utilizámos todo o material que tínhamos na altura. Aconteceram coisas estranhas durante as gravações. Por exemplo, entrámos em estúdio como uma banda de seis elementos e, quando saímos já éramos oito. Durante o tempo que estivemos em estúdio não cheguei a conhecer o Stevie (NR: Stevie Klasson, guitarrista), mas ele tornou-se um Diamond Dog durante esse período (risos). «As Your Green Turns Brown» podia ser mais curto, mas foi um álbum muito especial. Agora, respondendo à tua pergunta, sim, em «Too Much is Always Better than Not Enough» quisemos deixar só o essencial, o que é sempre complicado porque não ensaiamos. Tocamos ao vivo e depois levamos o que fazemos em palco para estúdio. Neste caso, decidimos escolher apenas doze das muitas canções que tínhamos. Para mim, o álbum perfeito tem esse número de canções. Não me interessa se é um disco de vinte, trinta ou quarenta minutos, tem é de ter doze faixas.

Dizia-me que os Diamond Dogs são, essencialmente, uma banda «live». Isso é algo que, aliás, ouvimos ou lemos sempre que o vosso nome é referido. Que efeito tem o palco na vossa química? Que alterações sofre o vosso metabolismo quando vêem público à vossa frente?
Ao vivo as canções tornam-se mais...(procura a palavra certa) vivas (risos). Há muitas jams envolvidas, as canções tornam-se mais longas... Bem, às vezes, acidentalmente, também se tornam mais curtas (risos). Gostamos de tocar sets longos, o que não é novo na história do rock, mas é pouco usual nesta nova cena rock’n’roll em que toda a gente dá concertos de quarenta minutos. Nós queremos actuações de duas horas. Se o público está a gostar, nós estamos a gostar. O segredo é diversão e é esse o efeito que queremos ter sobre as pessoas.

Mas, para além, do factor «diversão», também podemos ver os Diamond Dogs como uma banda que se propõe lembrar às pessoas como o rock’n’roll pode ser significativo sem perder de vista que o objectivo primordial é instigar a dança? De certa forma, foi esse equilíbrio que tornou tão importante gente como Chuck Berry ou, saltando gerações, os Led Zeppelin.
Queremos que as pessoas se divirtam, mas também queremos apresentar a velha paleta de sentimentos. O bom rock’n’roll é basicamente isso e penso que, até agora, temos conseguido a mistura ideal. Ao vivo também tocamos canções lentas que, por vezes, acabam por resultar melhor que as mais rápidas. Essa é a força da banda, o recorrer a vários estilos, a várias formas de expressão. Não somos uma banda garage, não soamos aos Stooges. Tocamos simplesmente a música que gostamos; como a soul, como o rock’n’roll que se fez no início dos anos 70. Não temos nada a ver com a cena «garageira» sueca ou escandinava. Apesar de gostar de muitas dessas bandas, não quero ser comparado a elas. São cenas completamente diferentes, os Diamond Dogs são uma banda completamente diferente.

Uma banda que, ouvindo o último álbum, parece viajar para trás no tempo enquanto os anos avançam. Em «As Your Green Turns Brown» tínhamos o rock’n’roll polvilhado do glam/punk da segunda metade de 70, com «Too Much Is Always Better Than Not Enough» recebemos, em glorioso «Technicolor», o perfeito sonho 70’s, colheita 1973. Há o «boogie» com metais a condizer, passagens acústicas pela «Bron-Yr-Aur» dos Led Zeppelin e o Hammond dominando os momentos de romance. Será este álbum o mais próximo que os Diamond Dogs chegaram do da sua própria noção de perfeição?
Sempre fui um grande fã da soul dos anos 60 e, quando incluímos os metais na música, ela tornou-se «clássica». Nesse sentido, isto foi o mais próximo que chegámos a esse tipo de música. No próximo, estamos a pensar viajar ainda mais para trás, incluir mais guitarras «slide», tornar tudo mais «bluesy». Nos Diamond Dogs eu sou o homem da soul e o Stevie é o «blues-man». É a mistura perfeita. Contudo, como dizia, posso prever que o próximo álbum será um pouco mais «duro». Pelo menos, é o que pensamos agora. Também podes vir a deparar com um segundo álbum soul. O que tens é que manter o rock’n’roll. Isso é que interessa.

Too Much Is Always Better Than not Enough» é o título do vosso álbum...
(interrompendo) O Bobba (NR: Bobba Lee Fett, guitarrista nos Diamond Dogs, teclista nos Hellacopters) é o homem dos títulos. Também foi ele que apareceu com o «As Your Green Turns Brown» e ainda não sabemos o que quer dizer (risos). Todas as semanas liga-me com uma explicação diferente. Com o «Too Much is Always Better Than Not Enough» ficámos particularmente felizes. Parece uma variação do «A Nod Is As Good As a Wink... To a Blind Horse», dos Faces.

Pensei que era uma forma de nos dizerem que são uma banda alimentada pelo excesso.
(risos) Não sei. Tens que perguntar ao Bobba. Ele tem um título novo todas as semanas. Está sempre a dizer (simula voz apressada, inquieta) «temos que pensar no próximo álbum, já tenho o título ideal». E são sempre muito longos.

Falavas há pouco dos Faces que, a par dos Stones, são das influências mais notórias na música dos Diamond Dogs. Proponho-te um exercício. Se uma das duas bandas tivesse que ser apagada da História, qual é que salvavas?
Oooh, pergunta complicada. Os Rolling Stones foram uma banda mais importante, mas os Faces eram mais divertidos; soavam como os Stones embebidos em bourbon. E em palco, na minha opinião, quando os Faces soavam mesmo bem, eram melhores que os Stones. O problema é que os Stones eram sempre bons. Normalmente fala-se do Mick Jagger como o grande «entertainer», mas o Rod Stewart do início dos anos 70 era o maior. Ele e o Ron Wood. Digo-te mais, penso que o Rod Stewart e o Ron Wood são melhores que o Mick Jagger e o Keith Richards. Não me interpretes mal, adoro os quatro, mas, obrigado a escolher, pegava no Rod e no Ron.

E que dirias se amanhã o Rod Stewart desse uma conferência de imprensa anunciando: «Ouvi o novo álbum dos Diamond Dogs e tenho que confessar: Eles têm razão. Os Faces eram bem melhores que aquilo que andei a fazer nos últimos vinte anos. Vou telefonar ao Ron».
Seria óptimo. Significava que ele tinha acordado do seu coma. Anda há tempo demais nas mãos erradas, com os compositores errados. Acho que podia escrever umas canções para ele, mas todo este pessoal mais velho quer manter-se «hip» à século XXI. O Rod Stewart quer é fazer coisas com a Janet Jackson ou qualquer coisa do género, o que é pena. Tens que saber envelhecer graciosamente. O Bob Dylan, por exemplo, soube fazê-lo. Já o Rod Stewart tem muita gente à volta dizendo-lhe o que deve fazer. E, claro, demasiadas raparigas louras a quem pagar processos de divórcio.

Em sentido contrário à noção de «hip» da geração mais velha, os Diamond Dogs saberão haver gente que os desvaloriza como uma banda enclausurada no passado, trancada num mundo de Faces e Stones que já não existem. Perante a acusação, o que tens a dizer em tua defesa? O que têm os Diamond Dogs de importante para oferecer ao século XXI?
De certa forma, todas as bandas estão fechadas no passado. A única forma de ultrapassar isso é oferecer a música com amor, directamente do coração. Se queres parecer estar a fazer uma coisa nova e soas aos MC5, não estás a seguir o caminho correcto. Nunca dissemos ser uma banda «avant-garde» criando algo completamente novo. Mas também não queremos soar como se estivéssemos nos anos 70. Aliás, o que gravamos tem influências tanto dos anos 70 como dos 40, 50 ou 60... De qualquer forma, acho que o mundo já tem o suficiente daquilo a que chamam «nu-metal». Os Limp Bizkit, os Korn e todas essas bandas que encontramos nas estações de serviço. «One hit wonders» prontas a desaparecer num ápice. Onde estão as bandas grunge, como os Pearl Jam ou os Soundgarden? Já ninguém fala delas. Mas aquilo que tocamos, «classic rock», continuará a ter a mesma relevância e o mesmo destaque daqui a trinta, cinquenta ou cem anos.

Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 12)