DIANOGAH
ROCK SEM ARTIFÍCIOS
À conversa com Jason Harvey, que com Kip McCabe e Jay Ryan compõe os Dianogah, tentámos saber um pouco mais sobre este trio americano constituído por dois baixos e uma bateria, que compõe música rock de uma simplicidade cativante. O motivo foi a recente edição do excelente terceiro álbum da banda, "Millions of Brazilians", produzido pelo omnipresente John McEntire e com as participações de Rachel Grimes (Rachel's) e John Upchurch (dos extintos Coctails). Falámos sobre motivações musicais e processos criativos, sobre Chicago e as comparações com os Tortoise, sobre o nome da banda, sobre coisas da vida... Para concluir que valia a pena os Dianogah conhecerem os palcos portugueses.
Já que esta é a primeira entrevista para Portugal, comecemos com algumas perguntas mais directas. Ouvi dizer que o nome Dianogah foi retirado da primeira trilogia da Guerra das Estrelas.
Mais concretamente do primeiro filme. Dianoga (sem H para George Lucas) é aquele contentor do lixo gigante para onde o Luke Skywalker e o Han Solo foram despejados. De facto, só os fãs incondicionais da Guerra das Estrelas é que sabem este tipo de coisas. E como nós somos fãs...
Pensaram em outros nomes antes de optarem por Dianogah?
Durante alguns ensaios ainda brincámos com a possibilidade de chamar à banda Gustov's Two Pounder, nome que agora soa muito mal. Nem faço ideia de onde é que veio nem de quem é que se lembrou deste nome.
Para além do Jay, que é um "poster artist", se é que lhe podemos chamar isso, o que é que vocês fazem na vida para além da música? E não estou a falar em termos profissionais...
De facto o Jay é um "poster artist", mas não me parece que seja um hobby. É mesmo a forma dele ganhar a vida. Além disso, ele tem a mania da bricolage e passa a vida a arranjar a casa. E bicicletas. Ele gosta muito de andar de bicicleta e acabou de comprar um cão. Quanto ao Kip, ele é fã de hóquei no gelo e de jogos de computador. Eu... Eu não tenho muito hobbies. Passo a maior parte do tempo a trabalhar, a tocar, ou com a minha mulher. De facto, devia arranjar qualquer coisa para me entreter.
Como é que funciona o vosso processo criativo? Costumam fazer "jam sessions", ou vão directos ao assunto?
Temos uma regra pela qual evitamos a palavra "jam". Por algum motivo, que não sei explicar, reagimos negativamente a essa palavra. Faz-nos lembrar bandas como os Phish e os Blues Traveler. Quanto às gravações, temos ideias bem esclarecidas sobre aquilo que vamos fazer quanto entramos no estúdio. Contudo, e quando temos tempo, gostamos de experimentar e ver o que é que acontece. Pessoalmente, gosto muito de acidentes felizes.
Porque é que demoram tanto tempo entre cada disco? O que é que fazem entretanto?
Sinceramente, nunca me apercebi de que fosse assim tanto tempo, porque me parece que estamos sempre a fazer qualquer coisa. A razão para nos movemos mais lentamente do que outras bandas talvez seja porque todos nós trabalhamos e temos outros interesses. E talvez não tenhamos tanto tempo para os Dianogah como gostaríamos de ter. Apesar disso, este novo disco foi uma corrida para nós. Esforçámo-nos mais do que nunca para editá-lo na data prevista.
Para além dos Dianogah, têm outros projectos paralelos?
Não. Dedicamo-nos por inteiro à causa dos Dianogah.
A bateria parece estar no centro das atenções na vossa música, apesar da presença dos dois baixos. Isto significa que o ritmo, aqui entendido como percussão, é o conceito que move os Dianogah?
Eu prefiro pensar na banda e na música que fazemos como o resultado de três partes iguais. Nunca me ocorreu que um de nós em particular estivesse no centro das atenções, ou que existisse um líder. Mas se essa é a ideia que passa para quem nos ouve, no que me toca não tenho qualquer espécie de problema. Se calhar sou eu que oiço a nossa música de maneira diferente.
Sendo os Dianogah uma banda de baixistas, poderia indicar-me outras bandas com propensão para o baixo que vos inspirem?
Nós gostamos muito dos Brokeback e dos UI. Brokeback é o projecto pessoal de Doug McCombs dos Tortoise, que é muito bom. Os UI também editam na nossa editora, a Southern, e são fabulosos. Já agora, tenho de referir a forma melódica como o baixista dos Pinback toca, e o Joe Lally dos Fugazi, de quem somos os três grandes fãs. É fantástico ver a multiplicidade de abordagens que têm surgido ultimamente para o baixo.
Como é que correu a vossa participação num evento com a envergadura do All Tomorrow's Parties? Foi uma boa promoção para os Dianogah?
Foi espantoso. Éramos com certeza a banda menos conhecida, e provavelmente muitas das pessoas estavam a ouvir-nos pela primeira vez. Tocámos para cerca de mil pessoas, uma das maiores plateias que alguma vez tivemos. Confesso que nos deu muito gozo... Foi sem dúvida um dos nossos melhores concertos.
Falando agora de "Millions of Brazilians", porquê este título? Tem alguma coisa a ver com as flores que compõem a capa do disco?
Não propriamente. O título veio primeiro e as flores depois. O título foi sugerido por uma nossa conhecida e soou bem logo à primeira. Uma das canções é sobre uma rapariga brasileira, e quando ouvimos "Millions of Brazilians" fez todo o sentido. Além disso, também nos pareceu um título com humor. Nós não nos levamos muito a sério e gostamos de nos divertir com os nomes dos discos e das músicas. O título do álbum anterior, "Battle Champions", também era suposto ser engraçado, mas não me parece que tenha feito rir muita gente.
Já que vocês dizem que na imprensa aparecem muitas vezes ligados ao som dos Tortoise, por acaso o título "Millions of Brazilians" tem alguma coisa a ver com "Millions Now Living Will Never Die" dos Tortoise?
Não, mas de facto apercebemo-nos de que muita gente ia fazer essa ligação. Só depois de optarmos por esse título é que nos apercebemos de que provavelmente íamos ser chateados por causa da palavra "millions". Até ouve quem nos tenha sugerido mudar para "billions" para evitar confusões desnecessárias, mas "millions" soou-nos melhor.
Incomodam-vos estas comparações com os Tortoise e outras bandas de Chicago? A mim parece-me que o vosso som até é bastante singular.
Desde o início que temos sido comparados com os Tortoise e já nos habituámos à coisa. Por isso, não nos sentimos incomodados. Se estivéssemos a tentar fugir à comparação com os Tortoise não teríamos pedido ao John McEntire para produzir este disco. Mas o nosso objectivo foi única e exclusivamente fazer um bom disco dos Dianogah, e na minha opinião conseguimos. Não procurámos de maneira nenhuma soar a Tortoise ou ao som de Chicago, apesar de também vivermos nesta cidade.
Porque é que escolheram a Rachel Grimes, o John Upchurch e o John McEntire para participarem no disco?
Com o John Upchurch já tínhamos tocado no passado e sempre gostámos da simbiose entre o clarinete dele e os nossos dois baixos. Em relação à Rachel, também a conhecemos há já muitos anos e simplesmente desafiámo-la a participar no nosso novo disco. O Kip tinha tocado piano no disco anterior, mas desta vez procurámos alguém que se sentisse mais à vontade com aquele instrumento. Quanto ao John McEntire a questão foi mais... esta canção precisa de mais alguma coisa extra. Então o John aparecia com algo. Foi uma coisa muito espontânea. E é isso que mais gostamos nele.
Qual é a diferença entre trabalhar com o Steve Albini (que produziu os álbuns anteriores dos Dianogah) e com o John McEntire?
O Steve e o John têm formas muito próprias de trabalhar. A estratégia do Steve é conseguir os melhores sons possíveis e criar o disco à medida que vamos gravando. O John gosta mais de experimentar durante as misturas. Ou seja, o Steve está mais à cabeça do projecto, enquanto que o John gosta mais de estar por detrás das coisas. Para mim, são os dois excelentes produtores e espero voltar a trabalhar com ambos no futuro.
No cômputo geral, "Millions of Brazilians" tem uma sonoridade mais suave que os discos anteriores, como se pode ouvir por exemplo no tema "American Dipper". Será que os Dianogah estão a ficar melancólicos?
À partida, o nosso objectivo não era fazer um disco mais suave, ou mais bonito. Só que esse foi o resultado. Por acaso, "American Dipper" é mesmo uma das minhas músicas preferidas. O que eu quero dizer é que não estamos a ficar melancólicos, mas sim a tentar criar canções com mais do que uma emoção, porque dantes estávamos mais habituados a fazer música mais feliz e optimista. "The Smallest Chilean" é a primeiro tema que gravamos que tem um certo tom sinistro que me agrada bastante.
Os Dianogah nunca usaram muitas vocalizações, mas em "Millions of Brazilians" estamos perante um disco inteiramente instrumental. Porquê?
Não foi uma decisão tomada conscientemente, mas em alguns casos o piano e a guitarra tomaram o papel das vozes. Nós simplesmente compusemos canções para as quais não tínhamos vozes. Por acaso, o Jay até cantou num tema, mas chegámos à conclusão que ficava melhor sem vozes.
Porque é que usam nomes tão complexos para músicas que são normalmente tão simples?
Porque é divertido. Bem, não é só isso. É uma outra forma de nos expressarmos. Os títulos fazem com que as pessoas pensem sobre aquilo vão ouvir na música.
Que tipo de sons é que andam a ouvir agora? Isto é, que álbuns e que bandas é que recentemente entusiasmaram os Dianogah?
O último álbum que comprei foi "Yankee Foxtrot Hotel" dos Wilco. Muito bom. Descobrimos também algumas bandas muito interessantes quando estivemos na Europa. Tocámos com uma banda alemã excelente, os Gaston, e outra islandesa, os Nattfari. Para além disso, a lista de eleitos dos Dianogah inclui Van Halen, New Order, Ida, Fugazi, Jimmy Smith, Mesuggah, Built to Spill, The Police, Pinback, Radiohead, Nick Drake, Slint e milhões de outras bandas.
Por acaso têm planos para passar por Portugal durante a vossa próxima tourné europeia?
Até agora não, mas a ideia agrada-nos. Estivemos Espanha durante a nossa primeira passagem pela Europa e gostámos muito das paisagens e das pessoas. Já os concertos não correram tão bem. Por isso decidimos não ir desta vez a Espanha, o que dificulta ainda mais uma passagem por Portugal. Mas, claro está, se aparecesse um gajo podre de rico que nos levasse de avião até Portugal para um concerto ou dois, íamos aí de certeza.
Para terminar, a pergunta cliché: quais são os vossos planos para o futuro próximo?
Vamos iniciar uma tourné nos EUA em Julho, no fim da qual vamos reagrupar e definir o rumo a seguir. Tens alguma sugestão?
Discografia
"Old Material New Format" (CD-EP)
1995 - Action Boy Records
"As Seen From Above" (CD)
1997 - Ohio Gold Records
"Battle Champions" (CD)
1999 - Southern Records
"Millions of Brazilians" (CD)
2002 - Southern Records
Vasco Durão
(2002)
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