THE DILLINGER ESCAPE PLAN
A FÉNIX DO APOCALIPSE
Assim como a ave Fénix, que na mitologia Grega merecia o título de animal mais raro da Terra, “Miss Machine” dos norte-americanos Dillinger Escape Plan representa hoje a genialidade na sua forma mais intensa e insana. Idolatrados por uma minoria atenta e seguidos por inúmeras bandas, raras vezes terá um disco misturado hardcore, grindcore, metal, electrónica, jazz e até pop duma forma tão genial numa conjuntura tão actual. Acordar para a insanidade dos tempos de hoje ao som dos Dillinger não só é saudável como representa, como a Fénix, uma visão de luz superior.
A Vida não é previsível, não se antecipam acontecimentos nem emoções, não se controla o desenrolar das coisas como numa qualquer experiência química ou numa equação matemática com inúmeros factores. E isso é, para o bem e para o mal, o melhor de estarmos vivos. A imprevisibilidade do amanhã, a incerteza do agora, as memórias do ontem. A música dos Dillinger Escape Plan também é assim. Escapa a catalogações fáceis, a barreiras estilísticas, a previsões sonoras e surpreende-nos a cada passo, embasbaca-nos a cada esquina e maravilha-nos a cada segundo.
Escutar os Dillinger Escape Plan é viver a sensação de como o melhor de hoje irá influenciar e moldar parte do futuro. E é sermos tocados, não tocados pela mão de Deus – como diziam os New Order – nem tão pouco pela de Maradona, mas pela mão da genialidade. Naturais de New Jersey onde os seus membros integravam outras bandas, os Dillinger Escape Plan tiveram o começo típico das pequenas bandas: foram influenciados por outros grupos, procuraram espaços para tocar e foram confrontados com um certo jogo de poder ao tentar chegar a uma maior fatia de mercado.
Fartos de tudo o que pouco tinha a ver com o que realmente gostavam – a música – e lhes estorvava o percurso como banda, quase largaram a música, sendo o regresso à escola a hipótese equacionada. A dada altura tudo começou a fazer sentido. No mundo real, a visão única dos Dillinger Escape Plan começava a tomar forma. E o mundo tomou contacto com uma das melhores e mais originais bandas dos últimos anos. A Terra necessitava dos Dillinger Escape Plan e os nossos futuros netos também. Seguem-se palavras trocadas com Ben Weinman, um dos culpados pelo assalto sónico das guitarras do grupo.
O vosso nome é inspirado em John Dillinger [criminoso que nos anos 30 atormentou o Midwest americano]. Pode essa inspiração ser encarada como uma maneira de ilustrarem o propósito dos Dillinger Escape Plan? Que querem jogar com outro baralho no meio musical?
Nós agora pensamos de que forma é que o nome se relaciona connosco, mas de início não foi nada premeditado. Na altura os promotores queriam um nome para os flyers dos concertos e nós nem nome tínhamos! Até que um amigo nosso nos deu algumas ideias sendo este nome uma delas. Ao princípio ninguém gostou, era comprido demais, difícil de compreender e de decorar, mas no fim acabámos por escolhê-lo. Com o tempo começámos a gostar dele e contrastava com o facto “normal” de as bandas terem nomes pequenos, tipo Korn...
Os Dillinger Escape Plan são reconhecidos como um dos fundadores do movimento math-core. O que pensam do facto de serem vistos como uma grande influência para muitas bandas? Sentem-se copiados?
Eu não presto muita atenção a bandas com um som parecido com o nosso ou que nos têm como referência, nem vou a muitos concertos porque passamos muito tempo em digressão. Em relação às digressões não costumamos tocar com bandas parecidas com a nossa, tentamos manter a coisa bastante diversificada de modo a podermos tocar para outro público-alvo e expor também a nossa audiência a outro tipo de experiências. Acima de tudo trata-se de manter a coisa o mais interessante possível. Quanto a sermos considerados um dos fundadores do movimento, penso que isso se deve, principalmente, ao facto de a maior parte das bandas não durar tanto tempo como nós. Separam-se muito facilmente... fazem-se muitas digressões, não há uma recompensa imediata quando se é uma banda underground como nós éramos. Sem o apoio de uma grande editora não há suporte financeiro e faz-se música somente por amor. O truque é nós acreditarmos no que fazemos de modo a que a banda perdure.
Como encaram toda a atenção que as revistas especializadas vos estão a dar? Todas as capas, “Miss Machine” a ser disco do mês por toda a parte...
Estou muito contente e bastante surpreendido! Quando começámos a banda nunca pensámos que alguém fosse dar por nós... é mesmo uma grande surpresa! Nós somos uma banda de extremos, ou se ama ou se odeia. Acho que os nossos fãs têm opiniões divididas em relação ao som que estamos a fazer e a toda esta exposição mediática. Não temos tido críticas más por isso tudo isto é mesmo muito estranho.
Podemos encarar “Miss Machine” como um disco conceptual?
Definitivamente sim, muito mais do que qualquer coisa que tenhamos feito no passado. Foi a primeira vez que tentámos fazer um álbum que pudesse ser encarado como uma viagem do princípio ao fim. Para mim todas as canções no disco são importantes e deve-se olhar para “Miss Machine” como um todo.
Visto que há raros momentos de silêncio no disco, qual é o papel do silêncio na música dos Dillinger?
Penso que a coisa mais importante na nossa banda é a dinâmica da música. Pode-se ter a calmaria e a seguir a tempestade ou então ir-se evoluindo cada vez mais para sons estranhos e surpreendentes. Neste disco queríamos que a dinâmica estivesse presente do princípio ao fim e não que cada música tivesse vários ambientes, mas que o álbum possuísse uma personalidade constante. Aqui aplica-se o cliché “Sem escuridão não há luz”.
Depois de ouvir “Miss Machine” pela primeira vez esperei uns instantes à espera que alguém me batesse na cabeça com um martelo ou algo parecido... é esse o sentimento que querem passar aos ouvintes?
(risos) Nós tínhamos um gajo que saía do disco e começava a bater na cabeça das pessoas, mas depois começaram os processos judiciais!
Enquanto se escuta o disco está-se permanentemente a olhar por cima do ombro para ver se está tudo bem...
No fundo é disso que se trata, criar um ambiente para o disco, torná-lo humano.
“Miss Machine” começa com aquelas que são, na minha opinião, as músicas mais pesadas, “Panasonic Youth” e “The Perfect Design”, isso foi premeditado?
Nós somos o tipo de banda que dificilmente passa despercebida, gostamos de ir direitos à garganta. Queríamos começar o disco com uma música que espelhasse os típicos Dillinger para mostrar às pessoas que ainda conseguimos fazer aquele tipo de som. Como disseste, apareceram muitas bandas a fazer um som parecido com o nosso e nós queríamos mostrar que ainda somos os melhores, queremos a coroa para nós... (risos) Da mesma maneira achámos que tínhamos de acabar o disco em grande, deixar uma memória forte na cabeça dos ouvintes, isso é importante. Por acaso a última é uma das minhas músicas preferidas de todo o disco e parecia o final perfeito.
“Miss Machine”, quando comparado com os vossos outros discos, possui uma personalidade muito mais futurista e está bastante – ainda de que forma às vezes tímida e dissimulada –, revestido com uma sonoridade mais electrónica. Foi uma tentativa de seguir em frente? Sentiam-se presos na sonoridade que tinham criado?
De certa maneira sim. Era muito importante para nós experimentar coisas novas e surpreender os nossos fãs. É normal que as pessoas criem uma expectativa em relação ao disco e nós quisemos apanhá-las de surpresa, sair do nosso terreno habitual. É raro haver tantas expectativas em relação a uma banda que só tem um álbum, normalmente isso acontece depois de 3 ou 4 álbuns. É importante fazermos experiências para nos estabelecermos como o tipo de banda que procura sempre ideias e sonoridades novas, de modo a tornar quase impossível a tarefa de adivinhar o que vamos fazer a seguir. Queremos alcançar uma liberdade artística que nos permita fazer o que quer que queiramos fazer no futuro. Conseguimos aproveitar toda a tecnologia ao nosso dispor (escrevemos muito na estrada) para nos auxiliar a alcançar a visão que tínhamos idealizado para este disco. E a electrónica é o futuro. Gostamos de deitar a mão a todo o equipamento a que possamos ter acesso para inovar o nosso som.
Aposto que os vossos fãs mais acérrimos se surpreendem com a sonoridade da faixa “Unretrofied”, na qual encetam uma aproximação ao formato mais tradicional de canção – verso/refrão/verso. Qual é o papel dela no vosso repertório?
Esse tema é claramente o que mais se distancia em relação ao que fizemos no passado e é uma música fulcral no disco, visto ele ser tão pesado. Mas eu acho que boas músicas são boas músicas.
Sim... o tema é quase pop, mas um pop “à la Dillinger Escape Plan”...
O objectivo dessa canção era eu mostrar que era capaz de escrever uma canção pop mas à minha maneira. Na altura estávamos a falar com grandes editoras e escrevi essa canção imediatamente depois de ter falado com os responsáveis de uma grande editora. Eles queriam que trabalhasse-mos com determinados produtores e que moldasse-mos o nosso som, e eu disse-lhes para eles irem chatear outro. Esse foi o momento em que nós nos apercebemos que não queríamos mesmo assinar por uma grande editora. Então apeteceu-me escrever uma canção pop a que eles não iam deitar a mão! Se calhar se tivéssemos assinado por uma grande editora nunca teria escrito essa canção. Esta canção funciona como um “Fuck You” às grandes editoras, não preciso que um produtor me diga como escrever uma canção pop.
Co-produziu, juntamente com o Chris [Pennie, baterista do grupo] este e os outros discos dos Dillinger Escape Plan. Pretendem com esta opção ter um maior controlo sobre o que fazem e como o disco deve soar?
Eu e o Chris estamos sempre a produzir músicas, a trabalhar com outras bandas e a experimentar ideias novas. No nosso caso é bom termos o máximo de controlo possível sobre a nossa arte. Co-produzir é também mais aliciante e desafiador pois começas a interrogar-te sobre novos aspectos da tua música.
Qual é a ideia por detrás das 99 músicas do CD?
Ah, essa não é a verdadeira versão do disco, só o promocional é que tem as 99 músicas! Nós começámos a mandar os promocionais meses antes do disco ser editado e queríamos ter algum tipo de controlo em relação à altura em que as pessoas teriam acesso ao disco. O promocional é difícil de copiar. O disco acabou por aparecer na internet mas apenas umas semanas antes da data oficial. O problema é que quando as pessoas colocam a tua música na internet, muitas vezes fazem-no com um nível de qualidade de som muito inferior ao real. Como tal, a primeira impressão que as pessoas têm dos discos é falseada e condicionada pela fraca qualidade de som, coisa para a qual nós trabalhámos tanto. A ideia das 99 faixas foi tentar evitar isso ao máximo.
Algumas bandas e artistas integram a “Vote For Change Tour”, uma digressão de apelo ao voto, para que haja uma alternativa ao presidente Bush e as suas políticas. Como banda, qual a vossa opinião e papel no meio de tudo o que tem acontecido nos últimos tempos?
É engraçado perguntares isso. Nós nunca fomos uma banda muito política. Somos um pouco egoístas, importamo-nos mais com a música, e embora possamos ter pensamentos parecidos, nem toda a gente na banda tem exactamente a mesma opinião quer seja sobre política ou qualquer outro assunto mais moral. Faríamos isso se todos nós estivéssemos empenhados a cem por cento Contudo, temos sentimentos muito fortes em relação ao direito e dever de as pessoas exercerem o seu direito de voto e fazer com que algo mude. Este disco é todo ele sobre mudanças, as pessoas tentarem coisas novas, serem activas e tentarem fazer a diferença. Por isso, pela primeira vez, envolvemo-nos um pouco nessa matéria. No ano passado tivemos uma mesa para recolher assinaturas na nossa banca do merchandising, de modo a aliciar os mais jovens para exercerem o seu direito de voto, o que nós não lhes dissemos foi como votar, não obstante todos na banda serem contra o Bush. Nos Estados Unidos vive-se um sentimento nacional de que o voto não interessa para nada, mas as pessoas que criticam a situação também não fazem nada contra o actual estado das coisas.
Os espectáculos dos Dillinger são muito intensos. Qual foi a reacção mais estranha que tiveram da parte da assistência?
Bem assim de repente não me lembro, nós tocamos há cinco anos, são muitos concertos... Mas recentemente demos um concerto em Louisville no Kenctuky. O sítio estava a abarrotar e as pessoas estavam cada vez mais loucas, ao pontapé a esmurrarem o tecto, e aí ele começou a cair. Nós continuámos a tocar, havia pó e cimento por todo o lado, estava toda a gente a passar-se. Foi bastante intenso!
Não houve feridos?
Não, ninguém saiu de lá ferido. Havia era muita confusão e muito pó por toda a parte. O dono é que não deve ter gostado do estado do tecto. (risos)
Pedro Miguel Guimarães
(Mondo Bizarre # 20)
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