DILLINGER FOUR
Gangsta Punk
Quando foi a última vez que um concerto de punk vos surpreendeu? Quando foi a última vez que entraram numa sala de concertos e encontraram mais do que o grupo de fanáticos do costume encostados às paredes, à espera que a banda comece a tocar? Quando foi a última vez que viram um miúdo em camisola de malha acolher uma banda com o mesmo entusiasmo que o velho punk ao seu lado à frente do palco?
A não ser que vivam numa cidade com um espírito incrivelmente aberto (e se for esse o caso, acreditem que estão cheios de sorte), provavelmente não se lembrarão de uma noite em que uma banda subiu ao palco e arrasou com as manias e o pretensiosismo que separam as várias facções do punk - excepto se os The Dillinger Four tiverem passado recentemente pela vossa cidade. Não, os The Dillinger Four não vão agradar a todas as pessoas durante todo o tempo, mas aproximam-se bastante mais disso que a maior parte dos seus confrades punks.
"Quase que dá para ir a um concerto de outra banda e saber de antemão qual é o aspecto do público, quais são os seus gostos, quais são as outras bandas do género que também gostam. Nós temos uma mistura um bocado esquisita," diz o vocalista/guitarrista Eric Funk. "Há umas quantas coisas que nós somos. Somos um bocado a atirar para o pop-punk? Sim. Somos um bocado políticos? Um bocado. Encaixamos mais ou menos em algumas coisas, mas não nos podem colar um rótulo muito facilmente. Não sei se isso é intencional ou não, mas as coisas evoluíram assim."
Juntamente com o guitarrista Billy Morrisette, o baterista Lane Pederson e Paddy Costello, os The Dillinger Four vangloriam-se de ter um som que não pode ser enfiado numa das caixas estanques que geralmente organizam o género. Claro que existem frases pop e melodias contagiantes no seu disco mais recente (Situationist Comedy, editado a 4 de Junho pela Fat Wreck Chords) que chegue para pôr os fãs do pop a dançar de contentes. Também há comentário sócio-político que chegue para pôr os caça-retórica a matutar. Junta-se o tipo de punk sujo, que leva as pessoas a abusar das aparelhagens e da paciência dos vizinhos, e a banda tem aquele som raro a que os suburbanos, os elitistas do rock e os fumadores inveterados do trash-rock dão o selo de aprovação.
Obviamente que não foi fácil para os The Dillinger Four chegarem ao sucesso. Formados em Minneapolis em 1994, o quarteto não cresceu nas graças de uma cena hiperactiva e reconhecida, nem encontrou um público já existente a quem vender o seu som. Funk e companhia tiveram que fazer as coisas da maneira difícil: construiram uma base de fãs desde o início, subiram na escala das editoras independentes enquanto o número de pessoas nos seus concertos aumentava e os discos desapareciam das prateleiras das lojas. Os The Dillinger Four cresceram da pequenina No Idea para a respeitável Hopeless até à Fat, uma das marcas mais poderosas da comunidade punk. Pelo caminho foram apanhando alguns fãs muito importantes. Billie Joe Armstrong levou os The Dillinger Four ao Japão para abrir os concertos dos Green Day e gravou um split com a banda e o seu projecto paralelo, os Pinhead Gunpowder, que foi editado pela sua Adeline Records.
Não obstante, a lenta ascensão à fama da banda não se baseou no esquema de marketing de favorecimento de um subgénero que a maior parte das bandas punk aplica à sua música. Com partes iguais de rebuçados pop e miséria punk, os The Dillinger Four enfrentaram uma batalha dura ao tentar que a sua música fosse notada.
"Estávamos a pensar nisso e achámos que, caso se queira escolher um género, e desde que haja gente capaz de tocar e escrever canções, é fácil que a banda se torne muito famosa, muito depressa. É só escolher um género e tocá-lo na perfeição," diz Funk. "Basta seguir as regras desse género. Tudo, desde a estética ao som e à composição. Parece-me muito mais fácil do que fazer aquilo que nos é natural, ver onde isso nos leva e seguir esse caminho. Provavelmente é uma abordagem mais simples, caso se queira ter uma banda de sucesso."
Os The Dillinger Four não são exactamente inovadores (os ouvintes mais atentos conseguirão encontrar traços comuns a uma horda de influências do punk), mas não era essa a intenção inicial. Preferem seguir os seus próprios instintos que outra coisa. Ainda assim, seria fácil para Funk disparar conversa de chacha revisionista, que garantidamente iria accionar os detectores de treta com mais eficácia que um serão numa convenção de conservadores. E o catálogo de quatro estrelas da banda podia ser utilizado para justificar em retrospectiva a decisão consciente de espevitar a secção de punk das lojas de discos. Mas Funk não brinca com essas pretensões; não há nada de genial acerca dos Dillinger, apenas um excelente e esforçado respeito pelo punk rock.
"Nunca sei ao certo se desbravámos o nosso próprio caminho," diz rindo. "Limitamo-nos a andar aos tropeções para onde sopra o vento."
Talvez a falta de pretrensões de Funk derive da capacidade que a banda tem para se manter ocupada fora do mundo da música. Os The Dillinger Four não andam em digressão quatro meses por ano, nem fazem um disco novo para trabalharem cada vez que começa a temporada de concertos. Na realidade, e ao contrário de muitos confrades no rock, a música é apenas uma parte da vida multifacetada de cada membro da banda: Funk é dono de um bar (o Triple Rock) na cidade natal da banda, Pederson concluiu recentemente um curso universitário de Psicologia. Nenhum dos dois faz exactamente o tipo de coisa que seria de esperar num ‘vistas-afuniladas’ do rock quando não está a fazer barulho.
Claro que isso faz com que os The Dillinger Four se mexam mais devagar: entre uma proposta de expansão do Triple Rock e Pederson agarrar-se aos livros, a banda não pôde ir em digressão pelos EUA (uma breve excursão em abril foi a sua primeira tournée americana em quase dois anos), nem gravam um disco, como sugerem as suas edições de dois em dois anos, como se tratasse do evento anual típico de tantas bandas punk.
"Nós damo-nos imenso espaço," diz Funk. "Nós deixamo-nos andar um bocado, até que isso acaba por se tornar numa situação tipo ‘F***-se! Já passou imenso tempo desde que fizemos o último disco!’ Somos sempre apanhados de surpresa, tipo: ‘se não começarmos agora, deixamos passar dois anos!’ Geralmente as canções já estão escritas e andam por aí, é só uma questão de conseguirmos tudo o que precisamos para fazer um disco."
De facto, Funk acha um pouco difícil compreender o estilo de vida de uma banda que anda na estrada numa espécie de vale-tudo. Viver numa carrinha, lutar para encontrar fãs e a constante batalha contra a pobreza não são os motivos que o levaram a alistar-se no exército do rock.
"Agora quando se conhece uma banda que está a lançar o primeiro disco, eles acham todos que vão deixar os empregos e vão passar sete meses na estrada e não vão fazer mais nada senão tocar," diz ele. "F***-se, não quero parecer saudosista, mas isso teria sido uma loucura quando nós começámos. Ninguém podia lançar um disco e estar constantemente a dar concertos e ter um agenciamento a fazer todas as digressões. Nem pensar! Agora isso começa a ser cada vez mais frequente. Há bandas de amigos nossos que estão a fazer isso e nós fomos apanhados um bocado desprevenidos. Não sei como é que eles conseguem fazê-lo, mas fazem-no."
E daí, os The Dillinger Four provavelmente não vos saberiam dizer como as outras bandas conseguem adoptar um estilo de vida predefinido com a frequência alarmante com que o fazem, e é disso que se trata. Não estejam à espera de fórmulas, mas também não venham à procura de fórmulas. Estejam preparados para rock, porque é só isso que os The Dillinger Four fazem - felizmente.
Matt Schild
Exclusivo: Aversion.com/Mondo Bizarre - Tradução: Frederico Mendes
(Mondo Bizarre # 13)
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