Entrevistas
DIONYSUS RECORDS
NO REINO DOS DEUSES
O conceito da Dionysus Records foi forjado à imagem das editoras dos anos 50 e 60, onde para estilo havia uma sub-divisão específica. Lee Joseph, o patrão da editora, é também um coleccionador de discos e possui uma cultura musical de fazer inveja a muitos críticos. Da promoção do surf e do garage à recuperação do lounge do exotica e do easy listening, passando pelas bandas punk, tudo cabe no universo Dionysus, Hell Yeah e Bacchus Archives.

A formação da Dionysus resultou da necessidade de agitar o movimento musical local ou não tinha mais que fazer ao tempo livre?
Basicamente começou como uma extensão de uma editora de cassetes que eu tinha em Tucson por volta de 1981. Na altura, eu geria a única loja de discos decente e a editora chamava-se Iconoclast International. Chegámos a editar 18 cassetes de várias bandas que estavam a acontecer em Tucson. A Dionysus surgiu por vaidade, já que a primeira edição foi o single de estreia dos Yard Trauma, que eram a minha banda.

Ouvi dizer que há uma história engraçada por trás da escolha do nome.
Eu não fui para a universidade depois de completar o secundário, mas uns anos mais tarde, quando trabalhava na loja de discos, decidi estudar na junior community college. Um dos cursos era de humanisticas, e quando estudámos os deuses gregos e romanos, comecei a gostar da personagem Dionysus (Dioniso, ou Baco, deus do vinho e do delírio místico - NR). Pensei que era um nome excelente para uma pequena editora independente. Meses mais tarde usei o nome. Mal eu sabia que a maior parte das pessoas não sabia o que queria dizer e que não conseguia pronunciar este nome.

Não é muito normal as pequenas editoras criarem sub-divisões. Sentiu necessidade de dividir as coisas dentro da editora?
Nos anos 50 e 60 era perfeitamente normal as pequenas editoras terem diferentes subsidiárias. Um dos melhores exemplos era a Atlantic/Atco (quando ainda era uma pequena independente). Nessa altura o R&B, o Jazz, etc (a verdadeira música negra) estavam na Atlantic, enquanto que o pop "branco", como os Coasters, eram da Atco. Haviam a End and Gone, Aladdin e Imperial que se tornaram na Imperial, World Pacific e Liberty, existiam as editoras East LA (Faro, Rampart, Linda e Valhalla) que eram todas do Eddie Davies, etc. Com as editoras um pouco maiores era normal separarem-se os estilos musicais enquanto que as editoras mais pequenas, como as do Eddie Davies, costumavam assinar contratos com distribuidores diferentes ou outras editoras de maneira a não ficarem com as gravações presas num só contrato. Eu tenho um uma grande admiração por essas editoras antigas. De certo modo queria competir com elas. Aliás, nos tempos modernos as pessoas são tão divididas nos seus gostos pessoais, que precisam de ser guiadas até aos lugares certos. Muitos musicos poderão não gostar de ouvir isto, mas assim que a sua música se torna numa rodela de plástico e consequentemente num produto tem que ser vendida. Básicamente é comércio. Entrem num supermercado, todos os tipos de carne estão na secção do talho, os ceriais, o arroz, e as bebidas na mercearia, etc...

Como descreveria a editora e respectivas subsidiárias?
Dionysus: Toda as coisas enraizadas na música de um passado recente (50's-início dos 80's), como o surf, garage, rockabilly, psychobilly, exotica, louge, punk de 70, etc. Essencialmente bandas que se inspiram nestes estilos. Hell Yeah: "Over the edge, punk". Não necessáriamente do final dos anos 70 ou do hard-core pós-81. Algumas das edições da Hell Yeah têm sido um pouco obscenas, outras são de bandas com mulheres a cantar. Os Hot Damn, não são apenas hard-edge, devendo mais ao som do punk moderno do que a outro estilo, mas alguns dos seus temas são descaradamente sobre sexo e no entanto têm uma rapariga a cantar. Os Thorazine não são tão rudes. Bacchus Archives: É a nossa divisão de re-edições. Nós vamos especificamente ao mercado de re-edições e temos diferentes maneiras de o promover. Os originais foram todos gravados entre 1955 e 1981, podendo ir desde o lounge à exotica, etc.

A Dionysus edita vários estilos de música. Pode dizer-se que as edições reflectem o seu gosto pessoal em termos musicais?
Eu diria antes que que as nossas edições reflectem a minha colecção de discos!

Tal como outras editoras, vocês são distribuidos pela Mordam. Quando tantas editoras estão a associar-se e a fundir-se, como vê a importancia de uma empresa como a Mordam?
A Mordam espelha a sobrevivência da "industria" pela união de diversas editoras, juntas por uma só equipa de vendas. Quando a Mordam começou, eles eram capazes de fornecer um serviço de distribuição a pequenas editoras como a nossa usando como "isco" a Alternative Tentacles, do tipo "se não pagares estes discos dos Untold Fables" não recebes estes discos dos Dead Kennedys..." A Mordam é fantástica. Eles são honestos, trabalhadores e são uma das poucas distribuidoras totamente independentes que têm peso no mercado de distribuição alternativo, sem estarem ligados a nenhuma multinacional, como a maioria dos grandes distribuidores.

O easy listening e o lounge estão na moda. Acha mais fácil vender este tipo de música hoje do que no passado?
No princípio dos anos 90, quando editámos os discos de Lance Kaufman, "Paeceful Amazon Village" e "Harmless", ninguém a não ser alguns coleccionadores, entendeu onde queriamos chegar. Eu tenho vindo a colecionar esse tipo de material (que não chamo propriamente easy listening...) e penso que, tal como com qualquer outro estilo musical dos últimos 50 anos, as pessoas apercebem-se de que o mainstream contemporâneo não presta e, de alguma maneira descobrem este fantástico mundo de edições independentes, fanzines e música feita por bandas contemporâneas, reedições...

Na sua opinião o que trouxe esses estilos de volta?
A percepção de que a música actual é uma chatice. Penso que é também uma forma de rebelião e reacção ao facto do grunge e do punk-rock estarem cada vez mais a seguir uma orientação heavy-metal. Pessoas feias a fazer má música. É, de certo modo, uma repercursão do que aconteceu a Seattle.

É assim tão fácil fazer essas re-edições?
Depende, alguns licenciamentos têm sido fáceis de conseguir outros são muito complicados. Depende totalmente da pessoa que está a fazer o negócio conosco e do tipo de acordos que foram assinados quando as gravações foram feitas.

O que pretendiam alcançar com o festival Dionysus Demolition Derby?
Na altura queriamos fazer mais do que os festivais faziam nos anos 80, não só incorporando bandas mas incluindo outras "atracções", stands, noites temáticas, fantasias, decorações... Queriamos ir mais longe que qualquer festival anual de garagem em termos de excesso cultural. A Babs e o Josh dos Diaboliks e The Frat Shack estiveram na edição de 97 do nosso festival e penso que ficaram suficientemente impressionados, para se inspirarem e fazerem o Wild Weekend UK, que por sua vez inspirou o festival dos festivais: Las Vegas Grind! Eu já não sinto a necessidade de organizar o Demolition Derby, prefiro ir ao Las Vegas Grind, o que é menos stressante para mim.

Uma das bandas da Dionysus, os Bomboras, assinaram pela editora do Rob Zombie, a Zombie-A-Go-Go. Como aconteceu com o punk-pop, as multinacionais estão a assinar bandas surf e rock'n'roll. Sempre que surge um fenómeno vão buscar as bandas ao underground...
Bem, os Bomboras acabaram e a Zombie-A-Go-Go não parece ir a lado nenhum, já que as suas vendas não são nada de especial. Neste momento as multinacionais estão a enxotar as bandas como moscas. Não acredito que venham buscar mais bandas à Dionysus. Eles só se interessam por bandas que tenham vendido 10 000, 50 000 ou mais cópias. Aí, eles já arriscam nas bandas novas. É ridículo. Acho que por agora o "underground" está seguro, e tão cedo não deve haver nenhuma mão corporativista a tentar apanhar novas bandas.

Uma das grandes apostas da vossa editora é a venda dos direitos de alguns temas para as bandas sonoras de filmes. Esta manobra tem dado os resultados que pretendiam?
Sim, tem ajudado imenso! Muitas vezes a editora só consegue cobrir os custos. Manter uma editora (com a renda, computadores, empregados, seguros, despesas diárias, etc) é bastante dispendioso, e os lucros conseguidos com as vendas dos discos (em alguns casos só conseguimos cobrir os custos) juntamente com o dinheiro dos filmes ajudam a editora a subreviver e a prosperar.

Para além de editor de discos é também um coleccionador. Quais são os discos mais caros que comprou?
Eu não gosto de pagar muito dinheiro por um disco. Entrar em acordos ou fazer trocas é a minha maneira preferida de conseguir discos. Penso que em toda a minha vida, por três vezes paguei 100 dolares por um disco.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 2)