DISCHORD RECORDS
20 Anos de Resistência
A Dischord está de parabéns. Em 2000 completou 20 anos de existência e para comemorar o aniversário, após dois anos de preparação, é finalmente editada "20 Years Of Dischord", uma caixa com três CD's e um livro que faz uma retrospectiva do trabalho realizado pela editora de Ian MacKaye e Jeff Nelson. Para além de ter colocado a fértil cena punk underground de Washington D.C. no mapa, a Dischord é hoje uma das editoras independentes mais respeitadas e carismáticas no mundo alternativo. A Mondo Bizarre conversou com Ian MacKaye, essa figura histórica do underground americano, que além de proprietário da editora, possui uma longa carreira musical que passou por formações como os Teen Idles, Minor Threat, Embrace ou Fugazi, estes últimos ainda no activo.
No final dos anos 70, não havia muita gente que levasse a sério a cena underground de Washington D.C.. A explosão do punk americano estava em pleno desenvolvimento sobretudo em Nova Iorque, e era ponto assente que qualquer punk que quisesse formar uma banda e alcançar reconhecimento, teria que se mudar para a big apple. Em 1980, Ian MacKaye e Jeff Nelson, dois putos entusiastas da cena punk local, resolvem criar a Dischord Records e tudo muda: com a intenção de documentar uma época fervilhante de bandas punk existentes na cidade, a editora rapidamente coloca a cidade no mapa, tornando-se no centro de uma explosão de cultura alternativa que ali teve lugar. Numa época em que era impensável as bandas optarem por ter a sua própria editora, Ian resolve editar pelos seus próprios meios um EP do seu primeiro grupo, os Teen Idles. A partir daí, a Dischord fez história: com a ajuda de alguns amigos como Skip Groff, dono da Yesterday And Today Records (uma loja de discos que era ponto de encontro de muitos miúdos que viriam a formar grupos pertencentes ao catálogo da Dischord), que deu preciosos conselhos e contactos de pequenos distribuidores, e sobretudo com o apoio de Don Zientar, engenheiro de som e proprietário do hoje mítico Inner Ear Studios, e que trabalhou com os Bad Brains, banda venerada por muitos jovens músicos da cidade. Don gravou grande parte das bandas que viriam a editar pela Dischord e orientou Ian MacKaye que, na altura, começava a mostrar interesse na produção.
A Dischord Records foi pioneira no lema "Do It Yourself", manteve sempre uma política de preços baixos, deu visibilidade ao talento que germinava com grande incidência na área de Washington D.C. (apesar de muitos grupos do seu catálogo terem tido um tempo de vida muito curto, com muitas formações a durarem apenas dois ou três anos, o que era uma tradição por aquelas paragens, tal como era hábito uma banda chegar ao fim e de imediato os seus elementos formarem novos grupos), e deu um importantíssimo contributo no desenvolvimento da cena independente americana do início dos anos 80, uma altura em que toda uma nova geração formava bandas, fundava editoras e publicava fanzines, movidos pelo amor à arte e fieis ao espírito Do It Yourself em detrimento do lucro.
Bandas como os The Untouchables, State of Alert (primeiro grupo de Henry Rollins), Minor Threat, Government Issue, Scream, Dag Nasty ou Faith cimentaram a imagem da Dischord de porta estandarte do punk-hardcore então emergente. Em finais de oitenta e princípios de noventa, a editora associa-se a uma nova vaga de grupos pós-hardcore, que alguns preferem chamar emocore. É então que bandas com um pé no indie rock e outro no punk rock começam a dar que falar: Jawbox, Shudder To Think, Rites Of Spring, Fugazi, Fire Party, Soulside (de onde saíram membros dos Girls Against Boys), Nation Of Ulysses, Autoclave (primeira banda de Mary Timony), Slant 6, Hoover, Smart Went Crazy ou, mais recentemente The Make Up e Q And Not U, consolidaram o prestígio da editora.
Como diz Henry Rollins no texto que escreveu para esta caixa comemorativa, a Dischord teve sempre como alvo um público de ouvintes atentos e amantes de música, nunca os encarando como meros consumidores. Apesar de já não ter o protagonismo de outros tempos, é inegável que a editora abriu caminho para outras como a Blast First, K Records, SubPop, Touch And Go, Matador, etc. E, principalmente, provou como é possível operar à margem do sistema, subverter-lhe as regras e servir a música privilegiando a expressão da emoção e a ética. Parabéns!
Quando, há vinte anos, fundou a Dischord, alguma vez pensou que duas décadas depois ainda estaria á frente de uma editora com uma influência tremenda no desenvolvimento da cena independente americana?
Não. Eu nunca penso no futuro. Apenas penso no trabalho que tenho para fazer agora. Quando começámos, a nossa intenção, mais do que formar uma editora, era documentar a música que considerávamos importante divulgar. A música foi sempre central nas nossas vidas, e sempre houve o desejo de a documentar. De repente, dou por mim e já passaram vinte anos.
Como vê o crescimento de editoras independentes ao longo dos anos e quais foram para si as principais mudanças que alteraram a maneira como essas editoras operam hoje?
É difícil responder. Tudo muda. É como lhe perguntar o que mudou na sua vida vinte anos depois; como é que se vê a si próprio vinte anos mais velho; quais foram as coisas que aprendeu ao longo desse tempo. Nós mudamos, o mundo muda também, tudo muda à nossa volta. Obviamente, há uma grande diferença entre o início e o agora. É que, quando começámos, a Dischord não existia, não havia uma cena punk underground organizada, por isso criámos uma editora independente que foi desenvolvendo uma rede de pessoas que começaram a pôr os discos das bandas cá fora e faziam as coisas inteiramente fora do mainstream. Estabelecemos uma comunidade underground cujo objectivo era (e continua a ser) servir a música. Hoje em dia, há pessoas envolvidas no meio musical que nasceram depois do início da Dischord, e logicamente a sua relação com o cenário da música indie é diferente do nosso daquela altura, agora as pessoas podem apoiar-se nos exemplos que já existem. Não posso comparar 1980 com 2002, é impossível!
Muitas coisas mudaram...
Tudo, mas pessoas são sempre pessoas, a música é sempre música, a expressão é sempre expressão. Isso é importante.
É conhecido por trabalhar bastante como editor e como músico. Acredita que trabalhar muito é a chave do sucesso, mesmo sendo um sucesso nos seus próprios termos?
Para mim, alcançar sucesso é sempre o que estou a fazer no momento. A minha definição de sucesso é tentar fazer alguma coisa e estar mesmo determinado a fazê-la. Isso é sucesso. Se estabelecer à partida que o objectivo é fazer dinheiro e vender muitos discos, então provavelmente o sucesso nunca irá bater-lhe à porta. No entanto, se perceber como é gratificante criar relações de amizade com as pessoas através da música, tocar um instrumento, escrever uma canção, tocar com outras pessoas numa banda, estas coisas são a marca do sucesso. No que respeita à editora, a marca do sucesso é continuar a editar discos, colaborar com outras pessoas e em conjunto editar um disco e vendê-lo. Não faz grande diferença quantos discos é que conseguimos vender. Claro que se conseguirmos vender muitas cópias de um disco, isso permite-nos continuar a ter financiamento para futuras edições. Eu gosto de trabalhar, é assim que eu sou. Francamente não há nenhum segredo nisso.
A imagem da Dischord que transparece para fora é a de uma família feliz...
Algumas pessoas já trabalham na editora há vinte anos, outras há quatro, cinco anos. De facto, funcionamos como uma família. Aqui em Washington D.C., o governo tem uma grande presença, e com as mudanças de executivo, é uma cidade sempre em trânsito, as pessoas vão e vêm constantemente a toda a hora. As pessoas que vivem aqui têm, por isso, a necessidade de se manterem muito ligadas e próximas umas das outras. Assim permanecemos amigos chegados desde há muitos anos, como uma comunidade onde as ligações entre as pessoas são profundas, no sentido de sermos uma família, o que é uma característica das pessoas de Washington D.C.
Os empregados da Dischord vêem o seu trabalho como uma missão? Para além da editora têm outras ocupações?
Penso que chamar missão ao que fazemos é exagerado, mas as pessoas que aqui trabalham adoram aquilo que fazem e vêem isso como algo de importante, e claro, amam a música. Sentem que são necessários e sentem que são tratados como pessoas. Alguns têm bandas, outros têm outras actividades, mas nós encorajamos as pessoas que trabalham connosco a terem outros interesses para que não se sintam presos a trabalhar na Dischord. É necessário que sintam que este trabalho é algo que as pode ajudar a fazer as coisas da vida que mais gostam.
Com excepção dos Lungfish e dos Void todas as outras bandas do catálogo da Dischord são de Washington D.C.. É vossa intenção privilegiar acima de tudo o talento local e sentem que é importante dar, desse modo, o vosso contributo para a comunidade em que se inserem?
No início, a editora serviu para documentar a música dos nossos amigos em Washington D.C.. A partir de certa altura, ficou claro que a nossa intenção primordial era cobrir a música de Washington D.C.. Eu gosto de ter um contexto. Não queremos editar grupos vindos de muitos lados, isso é desinteressante. Penso que algumas editoras perdem a orientação naquilo em que se querem focar, e mesmo no tipo de música que querem vender. Nós não queremos lançar discos populares, queremos pôr cá fora discos que consideramos bons e que julgamos que as pessoas vão gostar de ouvir, pelos menos algumas pessoas. Não estamos interessados em tornarmo-nos cada vez maiores. Na América, isso é uma parte essencial da filosofia do negócio: crescer sempre mais e mais e absorver outras companhias. Para mim isso é, na essência, uma ideia falsa pois não se pode comer mais do que o necessário. É mais importante fazer alguma coisa que tenha algum valor e da qual possamos cuidar. Algo que honre a música e o comunidade de onde essas bandas vêm do que nos contentarmos em ser apenas mais uma das engrenagens do sistema.
No estado actual do negócio da música, onde as grandes companhias discográficas tratam as bandas como meras mercadorias e assistimos a fenómenos responsáveis pela abundância de rock corporativo que se ouve por aí (como é o caso do nu-metal), acredita que editoras como a Dischord ou a Touch and Go fazem a diferença neste estado de coisas, servindo de igual forma arte e ideologia? Considera que a existência da Dischord é um acto político?
Na essência, é um acto político. Tudo na vida é político: o que as pessoas dizem, fazem ou compram; porque suportam sistemas ou ideias que são manifestações de grandes decisões políticas. Neste país as pessoas limitam-se a submeter-se a um sistema policial e repressivo e não protestam contra o estado das coisas. Limitam-se a dizer "não faz mal, está tudo bem". Mas, de facto, não está tudo bem. Quando dizem "está tudo bem" essas pessoas estão a tomar uma decisão política, que significa que apoiam o Governo. E nem precisam de o dizer por palavras basta que expressem o seu apoio por acções. É claro que se se optar por operar como uma editora independente e não como uma multinacional, isso é um acto político. Não fazemos isso porque é político mas sim porque é importante. Para mim, arte e ideologia estão ligadas. Se se canta canções sobre o quão nos estamos a divertir e não nos importamos com o status quo a nossa ideologia é clara; se se canta canções confrontando o status quo está-se a marcar uma posição ideológica que se subscreve.
É difícil para uma pequena editora conseguir uma boa distribuição a nível mundial?
A ideia foi sempre possibilitar que a música chegasse às pessoas. As nossas edições estiveram sempre disponíveis a qualquer pessoa que tenha acesso a um posto dos correios. Apostámos muito nas encomendas postais desde o início. Há uns bons anos que trabalhamos com pequenos distribuidores, como é o caso da Europa ou Austrália. A Dischord distribui o seu material no Japão e noutros países. Temos a nossa própria rede de distribuição em colaboração com pequenas companhias. Se há pessoas interessadas nas edições da Dischord temos que criar meios para facilitar o acesso a esse material, mas não sentimos a necessidade de chegar a toda a gente. Não usamos a música como oxigénio ou água, ela não é assim tão determinante na vida. A questão está na informação e como se obtém essa informação, de modo a que as pessoas descubram as nossas edições. É importante estar a dar uma entrevista que dê alguma exposição para que as pessoas saibam que a Dischord existe e que os grupos que gravam para nós são bons e merecem atenção.
O que é que o inspirou a fundar a Dischord?
Eu tinha uma banda que se chamava Teen Idles e surgiu a necessidade de formar uma editora que disponibilizasse os nossos discos. No espaço de um ano conseguimos uma boa aceitação e juntámos algum dinheiro dos concertos que demos logo após o nascimento do grupo. Ganhámos duzentos dólares cada um e em vez de estoirarmos o dinheiro, decidimos gravar um disco, vendê-lo e mostrá-lo aos nossos amigos. Há já algum tempo que nos interessávamos por música e estávamos excitados pelas coisas novas que fomos conhecendo, e tomámos contacto com pequenas editoras muito interessantes. A Dangerhouse, de Los Angeles, era a que mais admirávamos. Era uma editora realmente fantástica. Adorava o trabalho deles e pensei que seria óptimo fundar a nossa própria editora para editarmos o nosso disco, e o que acabou por acontecer foi que as bandas dos nossos amigos começaram a gravar na Dischord. À semelhança do que a Dangerhouse fazia, estávamos a apoiar as bandas dos nossos amigos. A Dangerhouse estava a editar todas as boas bandas punk de Los Angeles, como os Germs ou os The Weirdos. Editaram uma série de singles com todos esses grupos. Historicamente, foi uma bela editora com uma importância enorme, e para mim foi uma grande inspiração para formar a minha própria editora.
Em cada número da revista Magnet há uma página dedicada a pequenas editoras independentes onde os proprietários são entrevistados. À habitual pergunta "editoras que admira", muitos deles respondem: Dischord. Considera que a editora tem sido uma espécie de modelo a seguir por muitos dos que formaram editoras nos anos oitenta e noventa, ajudando a desenvolver a música independente?
Nós já cá estamos há vinte anos, o que é mais tempo do que o tempo de vida de muitas editoras, temos obra feita, e temos feito as coisas segundo as nossas próprias regras e sendo assim, suponho que é possível que as pessoas interessadas em editoras independentes underground ou em bandas punk, quer lhes queiram chamar hardcore ou não, reconheçam que o nosso trabalho tem valor. Talvez tenhamos influenciado algumas pessoas a fazer algo. Não sei, eu não posso especular sobre isso porque não me posso distanciar daquilo que sou. Eu tenho uma editora mas não penso: Uau!, influenciámos tanta gente. Considero que o que fizemos está feito, não quero voltar a fazer. Prefiro ir em frente. Fico satisfeito porque adoro música e se as pessoas respondem positivamente ao nosso trabalho, é óptimo. Mas não me preocupo com a apreciação. Em vez disso, continuo a trabalhar.
A internet é cada vez mais um canal que permite uma maior proximidade entre os músicos e os seus admiradores. Por outro lado, as grandes editoras estão a tentar que as pessoas parem de trocar ou partilhar música através da web. Como é que vê a relação entre as possibilidades da internet no contexto do actual estado das coisas na industria musical?
É um facto que as multinacionais estão a tentar impedir a circulação de conteúdos musicais e consequentes downloads. Eu concordo que as pessoas devem ter a possibilidade de fazer downloads digitais. Tentar impedir que isso aconteça é ridículo. As grandes editoras estão em pânico porque tal facto representa perdas de lucro. O objectivo dessas companhias é tornarem-se cada vez maiores e quaisquer perdas nos lucros fazem-nas mais pequenas e têm medo de morrer. Penso que o que eles estão a tentar fazer é terrível. Eu não uso o meu computador para fazer downloads de música, o meu computador é lento e não tenho paciência para isso, nem sequer passo muito tempo na internet, mas é uma óptima ferramenta e as pessoas irão, com o passar do tempo, decidir como usar essa preciosa ferramenta, o que será bastante produtivo. Para mim, a música é, acima de tudo, uma experiência ao vivo. Fazer discos é uma forma de partilhar a música e alegra-me que o possa fazer. Satisfaz-me o facto de poder vender discos e de poder suportar toda a estrutura da editora e assim podermos continuar a documentar a música que consideramos relevante.
Não há contratos entre a editora e as bandas, apenas acordos verbais. Tal facto significa que a editora e os músicos baseiam a sua relação na confiança mútua e na amizade, onde o dinheiro é secundário?
O dinheiro é importante, mas não precisamos de contratos. Basicamente, os contratos têm a ver com confiança, quero dizer, nós pagamos às bandas, somos muito escrupulosos nesse aspecto. Pagamos royalties de seis em seis meses, nem que sejam dez dólares. Os músicos precisam de dinheiro. Continuamos a pagar royalties de discos que foram editados há quinze ou vinte anos atrás. É importante a honestidade quando se trata de dinheiro. Se há contratos, isso envolve uma estrutura em que entram advogados para proteger os interesses das pessoas. Se houver um contrato, pode-se dar origem a uma disputa legal e eu nunca fui, nem nunca irei, a um tribunal por causa de uma banda. Se o grupo quer sair da Dischord não arranjamos problemas de nenhuma espécie, e desejo-lhes boa sorte, pois não quero que sejam infelizes na nossa editora. Aconselho-os a procurar outra "casa" onde se sintam realizados. Nunca tivemos situações de litígio com as bandas. Afinal de contas somos todos amigos.
O que sentiu quando os Jawbox e os Shudder To Think abandonaram a Dischord e assinaram por multinacionais?
Fiquei triste por essas bandas deixarem de fazer parte da editora, porque somos amigos e eram bons grupos, e também por me agradar a ideia de continuidade dentro da editora na vida de uma banda, mas compreendi que era importante para eles tentar um novo desafio, e nós apoiámo-los. Os Jawbox, assinaram pela Atlantic, e como normalmente as multinacionais avançam com dinheiro, eles disseram-nos que nos queriam dar algum porque nós ajudamos a desenvolver a banda. Regra geral, as bandas querem que aceitemos parte do dinheiro que as multinacionais lhes oferecem. Por vezes, isso representa vinte ou trinta mil dólares.
Acredita que a Dischord e os músicos que gravam para a editora partilham um ideal de vida?
Não. A editora dá-se bem com todas as bandas, as bandas são amigas umas das outras, gostamos todos de música, mas não existe um ideal comum. Não somos todos iguais mas conseguimos trabalhar todos juntos porque todos temos amor pela música.
Sente-se abençoado por fazer o que gosta, como editor e como músico?
O facto de poder tocar um instrumento, compor, faz com que me sinta feliz. Se as pessoas se interessam com o que eu faço, é excelente. Se posso ter uma banda, fazer discos e dar concertos, isso é fenomenal. Fico muito satisfeito por isso acontecer e por a música fazer parte da minha vida dessa forma e isso é muito importante para mim. Consigo "chegar lá" através de muito trabalho árduo e determinação em nome de um ideal. Sinto-me bem quando penso no trabalho que já fiz. Muitas pessoas que eu conheço do mundo da música pensam que tenho sucesso (no sentido tradicional da palavra), o que é engraçado porque algumas dessas pessoas têm muito mais dinheiro do que eu. Levo uma vida simples. Muita gente associa sucesso a um estilo de vida glamoroso e à cultura da celebridade, mas isso não tem nada a ver comigo. Eu não falo do que não tenho. Muitos músicos tendem a queixar-se do que não têm. Do facto de não terem muitos concertos, de não conseguirem vender uma grade quantidade de discos mas eu prefiro concentrar-me no que tenho. Não imagino a maioria dos músicos "bem sucedidos" a apreciar o meu estilo de vida pois envolve muito trabalho e ocupa muito tempo. Eu continuo a limpar as minhas próprias janelas, a apanhar as folhas do jardim, a fazer todas as coisas que as pessoas normais fazem.
Imagina-se daqui a vinte anos a dirigir a Dischord?
Não penso no futuro, mas espero que não. Não porque não goste de trabalhar na editora, mas porque as circunstancias da vida estão sempre a mudar e quero aprender mais. Não quero passar a minha vida inteira a fazer sempre as mesmas coisas. Ainda que, na verdade, até agora a minha vida não tenha sido monótona. Só o facto de, neste momento, estar a falar consigo, que vive do outro lado do mundo, é uma coisa que considero fantástica. Nunca pensei que a minha vida seria assim.
Pensa que os miúdos irão dar continuidade à obra feita por agentes da contracultura como a Dischord, dando origem a novas editoras, bandas ou fanzines?
Os miúdos serão sempre diferentes. Uma geração é sempre diferente da outra. As pessoas podem mudar de um ano para o outro e tornam-se diferentes. Os miúdos irão sempre reagir àquilo que lhes é apresentado, haverá sempre miúdos que desafiarão as convenções, seja através de bandas, editoras ou fanzines ou o que quer que seja. O que acontece hoje é mais importante do que o que se passou há vinte anos atrás pela simples razão de que o passado está feito e o que acontece hoje está sempre a mudar. Os miúdos hoje em dia estão mais interessados em desafiar as formas convencionais de pensar. Há vinte anos houve uma incrível explosão de cultura independente e underground aqui na América. E lembro-me que quando era adolescente, os miúdos da minha cidade diziam: “Ok, vou para a universidade e depois arranjo um emprego”. Nessa altura, ser alternativo significava tomar drogas e ficar pedrado o tempo todo. Actualmente, os miúdos são mais politizados e mais conscientes das opções que têm. Penso que isso é natural e faz parte da natureza humana: gente jovem que está determinada a mudar as coisas.
Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 13)
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