Entrevistas
THE DISMEMBERMENT PLAN
TUDO QUE É BOM TEM O SEU FIM
Os americanos Dismemberment Plan colocam um ponto final na sua carreira ao fim de uma década de vida. Antes de dizerem adeus ainda tiveram tempo de editar o seu quinto álbum “The Peoples History Of The Dismemberment Plan” e de fazer uma digressão pelo Japão. Travis Morrison, o multi-instrumentista e vocalista da banda, explica tudo.

Depois de dez anos de estrada, o quarteto emo de Washington D.C., Dismemberment Plan, chega ao seu fim. Namoraram com a multinacional Interscope, pela qual lançaram o EP “The Ice Of Boston” (1998), editaram quatro álbuns: “!” (1995); “Dismemberment Plan Is Terrified” (1997); “Emergency & I” (1999) e “Change” (2001) pela DeSoto, fizeram um monte de concertos pelo mundo e agora chegaram à grande pergunta: “porquê continuar?” Liderada pelo multi-instrumentista e vocalista Travis Morrison, a banda deu a notícia há alguns meses. O facto foi anunciado em Janeiro, mas os Dismemberment Plan continuaram com as digressões e agora chega a última, pelo Japão e um concerto na sua cidade natal, Washington DC, a partir do qual se despedem de vez. Triste? Não! Aliás, ao invés de ver isso como um fim, veja-se isso como um bom início para Travis que já começou a trabalhar no seu projecto a solo. No entretanto a DeSoto prepara o lançamento de “The Peoples History Of The Dismemberment Plan” – um álbum de remisturas –, para o qual foram escolhidas as 10 melhores remisturas de músicas colocadas pelos Dismemberment Plan no seu site para esse propósito, entre as quais duas feitas pelos amigos Cex e Dalek.

Ouvindo as vossas primeiras gravações e comparando-as com o vosso último álbum, “Change”, noto uma mudança no som e na voz. Foi daí que surgiu o nome desse álbum?
Não. Eu dou os títulos aos discos e penso sempre como os [nomes dos] álbuns vão ficar em sequência, de modo a cada título ter a sua particularidade. Nunca tínhamos feito um álbum com um título genérico, de uma palavra só como “Thriller” ou “Rumours” – então fizemos “Change”. Também foi divertido porque nessa altura – e pela primeira vez – tínhamos um público de ouvintes e pareceu-nos divertido ter um título que brincasse um pouco com as mentes das pessoas.

Li algures uma crítica que dizia que esse disco era mais bonito. Concorda?
Consigo ver isso. É de certeza o disco mais paciente que fizemos. Na música, a paciência tende a deixar os elementos mais bonitos sobressaírem.

Gosta dos críticos?
Se gosto dos críticos? Vou evitar essa pergunta. Basta dizer que fico sempre grato quando alguém escreve sobre nós e fico fascinado com muitas coisas que as pessoas falam de nós. O que nunca faço é deixar que isso interfira com a minha capacidade de gozar o dia. Opto por tomar por divertidas as críticas rock incompetentes em vez de as ver como um desafio ao meu sentido de identidade e sou mais feliz assim.

Com que disco dos Dismemberment Plan está mais satisfeito?
Oh! Gosto de todos. Muito francamente, prefiro o segundo, “Dismemberment Plan Is Terrified”. É o mais descomprometido, puro e in-your-face Plan.

De que modo leva todas as suas influências à sua música? Se misturarmos funk, jazz, hip-hop, rock, sintetizadores e pop temos os Dismemberment Plan?
Uhhhh!... Não sei! Acho que o mais importante é que eu comunico profundamente com álbuns que eu adoro a um nível espiritual. Julgo que como banda podemos ouvir algo e ser influenciados por isso a um nível espiritual e não musicalmente. Quando ouço Bob Marley não penso: “vamos tocar reggae”. Penso: “como veria ele o mundo actual?” Qual é o equivalente de fazer música muito bonita, melódica, dançável, com letras radicais sobre a vida?

Como são feitas as vossas composições? O que o inspira?
Muitas coisas. A vida do dia-a-dia, os meus amigos. Eu escrevo muitas das letras e das melodias durante longas caminhadas; o ritmo físico inspira-me, estou sozinho com os meus pensamentos e o meu telemóvel está desligado. Também me inspiro a ver desportos profissionais, especialmente basquete. Adoro ver a NBA na televisão com uma guitarra nas minhas mãos. O trabalho em equipa e como tudo flui dentro de um grande equipa de basquete é muito semelhante a uma grande banda de rock.

Mas é tudo por diversão? Sinto que a banda é muito divertida e muito relaxada acerca da música que faz...
Claro. Quer dizer, temos assuntos muito sérios nas nossas músicas, temos muitas questões sobre existencialismo e muitas notas filosóficas que são de certa forma pesadas, mas no fim do dia eu quero que me façam sentir fisicamente bem. Como todas as minhas músicas favoritas – R&B americano, rap, bluegrass e muita música brasileira como Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Eu cresci a ouvir Tropicalismo.

Tropicalismo? Os Mutantes são uns dos meus favoritos.
Eu tenho uma família muito internacional, a maioria por casamento. Há libaneses, espanhóis, mexicanos... é de doidos. Ouvi música do mundo inteiro. No meu décimo segundo aniversário recebi um disco da Siouxie & The Banshees e outro do Milton Nascimento (“Miltons”) e adorei os dois. E continuo a adorar. Tenho uns discos antigos do Caetano Veloso, alguns álbuns do Milton Nascimento (ele é uma grande influência no meu modo de cantar. “Sentimental Man” é a minha tentativa de cantar como ele, e não é boa) e Tom Zé. Na verdade, e para ser sincero, não gostei dos Mutantes. Compreendo que tenham sido importantes para o Brasil, mas eu não fui um fã de acid rock, quer fosse americano, inglês, brasileiro ou de qualquer outro lado.

Mudemos de assunto. Vocês editaram o EP “The Ice Of Boston” pela Interscope. Como é que isso aconteceu? Qual é a sua opinião sobre editoras grandes e editoras pequenas?
Uh... Isso foi uma experiência menor na minha vida. Nós estivemos na Interscope por um pequeno período de tempo. Logo após terminarmos o nosso álbum [“Dismemberment Plan Is Terrified”] a casa mãe comprou cerca de seis outras editoras grandes e juntou-as todas. Eles literalmente esqueceram-se que existíamos. Imagine o que seria sair algumas vezes com uma pessoa de que se gosta muito, chegar a uma altura em que se namora, e depois essa pessoa sofre um acidente terrível na cabeça e esquece quem tu és. Foi exactamente isso o que sentimos. Não tenho sentimentos nenhuns sobre grandes e pequenas editoras. Sinto que muitas pessoas que têm uma má relação com uma grande editora são as causadoras desse mau estar pois nunca deveriam ter assinado com uma editora dessas. Devemos assinar por uma se as nossas visões requerem muito dinheiro, como fazem a Missy Elliot ou os Radiohead; mas a maioria das bandas punks podem fazer o que querem com um cordão de sapatos. Então para quê lidar com editoras grandes?

E quanto à DeSoto?
A Kim é óptima. Nós conhecemos a Kim praticamente desde sempre.

Os Dismemberment Plan subsistem há dez anos. Como tem sido a vossa existência? Imprevisível. Já tocámos em tantos sítios diferentes. Tocámos numa galeria de arte suja em Indiana para 190 jovens e três meses depois tocámos numa arena no meio de Verona, Itália, que foi construída há 2000 anos.

Curioso... Onde é que vocês têm mais fãs?
Provavelmente em Washington D.C., ainda que Nova Iorque, Seattle, Boston, Chicago, LA e São Francisco são óptimas para nós. E temos uma quantidade estranha [de fãs] no sul, o que a maioria das bandas de rock não consegue. Safamo-nos bem em Atlanta. Eu gosto disso porque lá em baixo as pessoas sabem como divertir-se.

Como são os vossos fãs?

Quentes. São pessoas fabulosamente bonitas. Os nossos concertos parecem uma passerelle do Versace.

Imagino. E têm muitas groupies?
Eh!... Não, não muitas. Quero dizer, uma groupie é algo muito particular com a qual só nos cruzamos algumas vezes. Elas são muito predadoras, mulheres mais velhas que seguem os jornalistas de rock e dormem com pessoas famosas. Para ser sincero, acho-as doentes. Houve alturas, depois da saída de “Change”, onde a vanguarda das groupies aparecia nos nossos concertos, mas eu nunca iria para casa com uma delas. Elas são assustadoras. Depois de arranharem os meus ouvidos e de me oferecerem cocaína pensava: “Wow. Elas são groupies”. Como se tivesse visto uma coruja rara. Somos abençoados por um público fantástico, bem dividido entre os dois sexos e com ambos os sexos muito participativos. Não é tipo: “homem a ver homem ou a dar porrada enquanto dança” e “menina segurando o casaco do homem ou menina tentando dormir com o guitarrista”. Sinto-me extremamente orgulhoso de como traçamos a diferença entre ser uma banda para meninas ou para meninos.

Qual é a coisa mais difícil de integrar uma banda?
Compromisso, acho eu. Passa-se muito tempo à volta das mesmas pessoas e tem que se aprender a ter muita paciência. É como estar dentro de um submarino.

Há algumas histórias de horror, de bulhas ou algo semelhante no seio da banda?
Oh, eu não ia contar uma coisa dessas. Sim, mas [foi] há muito tempo atrás, quando éramos jovens e estúpidos.

Onde foi o primeiro concerto dos Dismemberment Plan?
Numa cave, numa cidade universitária da Virgínia. Eu estava bêbado. Ninguém assistiu ao concerto.

Porque é que os primeiros concertos são sempre assim?
Bem... a maioria das vezes as bandas são organismos sociais. Formam-se quando as pessoas são adolescentes, para fazer barulho e entreterem-se a elas mesmas ou aos seus amigos. Algumas bandas formam-se com o objectivo de dominar o mundo, como fez Prince, mas são excepções. Então começa-se a praticar, é-se terrível, mas os nossos amigos estão a dar uma festa, não podem dizer-nos que não e deixam-nos [tocar]. E nunca mais acaba. Na verdade, a maioria dos concertos que dei foi assim!

Os vossos concertos são barulhentos?
Barulhentos, sim, mas muito divertidos. Não somos raivosos. Alias, não somos anti-sociais. Não sentimos que diversão e o peso emocional sejam inimigos.

Fico feliz por ter dito isso, ás vezes sinto muita energia negativa no meio do rock. Explique-me uma coisa, porque é que os indies não dançam?
Bem, o indie-rock americano descobriu a música de dança e agora gira tudo à volta de batidas baratas. De tal modo que me sinto estranho. E pode ser tão alienante e entediante ouvir más batidas de dança como ouvir mau punk rock. Não sei nada sobre a questão das energias negativas no rock’n’ roll. Não sei porque isso acontece. Acho que o rock’n’roll é essencialmente o espírito dos adolescentes, e o espírito dos adolescentes tende a ser negativo e raivoso. Gloriosamente, claro, mas há mais do que isso na arte e nada disso serve para descrevemos Bob Marley ou Marvin Gaye.

Ouvi dizer que é óptimo a fazer Karaoke. O que gosta de cantar? Bem, na verdade eu só fiz karaoke uma vez, mas foi uma experiência engraçada. Cantei “Erotic City” do Prince. [A voz do] Prince tem um largo espectro, e eu sempre pensei que era ele quem cantava o refrão em falsete. Descobri que, na verdade, era a Sheila E.. Aprendi isso quando o operador do karaoke me disse que eu não podia cantar sozinho porque “O livro diz dueto. O livro diz dueto!”. Tivemos uma discussão muito séria até que, finalmente, deixou-me cantar as duas partes sozinho, mas passou o resto da noite a odiar-me.

Do que gosta no acto de cantar?
Acima de tudo é físico. Se se canta bem, tem que se relaxar e respirar direito, e isso faz-me sentir bem.

Acha que o talento vocal é algo que se pode aprender ou nasce-se com ele?
Pode-se aprender muitas técnicas e aptidões, mas também se pode aprender a colocar essa disciplina ao serviço da sua arte. Acho que qualquer pessoa pode aprender a ser um “bom” cantor. “Óptimo” é uma história completamente diferente.

Consegue viver da música ou tem um emprego?
Há três anos que não tenho um emprego e é óptimo.

Qual foi o pior emprego que teve?
Ia a dizer lavar carros, mas, de certo modo, isso até foi divertido. Se o tempo estivesse bom era um prazer lavar carros. Fiz algum trabalho de escritório, processamento de texto com o Word, e foi ultra aborrecido.

Quais são as suas primeiras recordações relacionadas com música?
Estar a dançar ao som dos Beach Boys.

Faz música para além dos Dismemberment Plan? Agora faço. Estamos a separar-nos e eu estou trabalhar num disco a solo.

Quando sai o seu álbum a solo? Com que podemos contar?
Será lançado em... não sei quando! Deveria estar acabado este Outono. Vai ter um som muito orgânico, muito piano e muita guitarra acústica, muito influenciado por Caetano Veloso e pelas pessoas da Bossa Nova, especialmente as letras. Adoro como eles lidam com temas políticos e sociais com tanta sensibilidade e humor, e eu quero escrever músicas sobre o que está a acontecer actualmente nos Estados Unidos sem cair na histeria ou nos slogans do “NÃO À GUERRA POR PETRÓLEO”. Isso é simplista. A América tem passado por muito, as pessoas estão muito confundidas com os propósitos deste país. Isso tem aberto muitos assuntos emocionais interessantes e assustadores e eu estou a procurar em pessoas como Veloso e Gil o tipo de toque de luz que [esses assuntos] precisam. É impressionante terem passado por tanta coisa e terem mantido o humor e o amor pela beleza. Tenho brincado com a hipótese de “Soy Loco Por Ti, America” em Inglês.

O que levou os Dismemberment Plan a separarem-se?
Bem, dez anos, quatro álbuns e a sensação de que dissemos tudo que tínhamos para dizer levou-nos a essa decisão. É como... porquê continuar?

Está triste?
Não. Fiquei triste ao saber que tínhamos que acabar e ninguém falava sobre isso, mas foi um grande alívio quando desligámos a tomada.

E o que sentem os outros membros da banda? Foi algo planeado?
Planeado? Não, apesar de há mais de um ano sentirmos que isto ia acontecer.

Não se vão reunir daqui a 10 anos, pois não?
Diabos, não!

Que banda teve a melhor separação?
Oh, não sei. The Band, talvez porque fizeram “The Last Waltz”.

Ana Garcia
(Mondo Bizarre # 16)

Exclusivo: Modno Bizarre/Coquetel Molotov