THE DONNAS
AS DAMAS DO ROCK
Nos Estados Unidos a maioridade só é atingida aos 21 anos. Acabadinhas de chegar a essa idade as Donnas, uma das bandas femininas mais interessantes do panorama rock actual, achou no facto um bom motivo para chamar ao novo disco "Turn 21". Brett Anderson, a simpática vocalista, que usa como nome de guerra Donna A., falou à Mondo Bizarre.
O que fez com que quatro raparigas de 13 anos formassem uma banda no liceu?
Havia um concerto na nossa escola, e a Donna F. e a Donna R., que já tocavam baixo e guitarra juntas há algum tempo, decidiram que deviam formar uma banda a sério se queriam tocar nesse concerto.
Era normal haver outras bandas de raparigas na altura?
Não, nós éramos a única...
Só fizeram isso para chatear os rapazes?
Sim! (risos)
Pode dizer-se que foi o Darren Raffaelli que vos descobriu como banda?
Nós já tocávamos há dois anos antes de o conhecermos. Ele foi a um dos nossos concertos, e como tinha algumas canções escritas perguntou-nos se as queríamos tocar. Ao principio íamos fazer isso sob o nosso nome da altura que era Electrocutes, mas como os temas eram bastante diferentes daquilo que estávamos a fazer decidimos arranjar outro nome e separar as coisas. No final, esse projecto paralelo, que eram as Donnas, acabou por tornar-se a nossa banda principal.
No início usaram os temas dele, mas agora escrevem a totalidade dos temas. Esse é o vossa maneira de mostrar que são uma banda a sério, ou os temas dele já não eram grande coisa?
As canções dele eram boas, mas como a outra banda (Electrocutes) não ia lá muito bem, decidimos concentrar todo o material que tínhamos dessa banda nas Donnas e (de duas bandas fizemos uma só chamada The Donnas) deixar de ter duas bandas e só termos as Donnas. No entanto, só usamos as canções dele nos primeiros discos.
Até que ponto é que outras bandas femininas, como as Shonen Knife ou L7, vos influenciaram, na altura de escrever canções ou em termos de conceito de banda?
As Shonen Knife tiveram uma grande influência porque elas são engraçadas, as letras são giras, e tinham um som um pouco mais pesado. E nós gostámos dessa dualidade que elas tinham.
E dos Ramones só retiraram a ideia de terem sempre um nome em comum, neste caso foi apenas o nome próprio. Ainda usam as t-shirts com os vossos nomes ao vivo?
Durante uns anos usámos, mas depois achámos que as pessoas pensavam mais nas t-shirts do que na banda ou na música, e parecia que éramos sempre uma banda novata.
Como é a Lookout vos descobriu?
Nós tínhamos feito alguns concertos com os Peechees, e como o Christian Molly, que fazia parte dessa banda era o presidente da Lookout, gostou de nós e acabou por nos contratar.
É fácil conciliarem o trabalho da banda - digressões, compromissos promocionais, etc - com os vossos estudos?
Nunca foi um grande problema para nós. Acabámos o liceu em 97 e até lá a única digressão que tínhamos feito foi de uma semana no Japão. Os outros concertos eram sempre ao fim de semana, por isso nunca havia problema. Como ainda não estávamos na Lookout e não éramos assim tão grandes para fazer digressões...
E como é a vossa relação com os fãs, também têm groupies masculinos como as bandas de rapazes? O tema "40 boys in 40 nights" é uma brincadeira sobre esse assunto?
É uma espécie de história verdadeira mas um pouco exagerada, tal como são a maioria das nossas letras.
Mas os groupies também vos chateiam?
Sim, mas todas nós temos namorados...
No entanto eles ainda vos pedem para tirarem as camisolas ou agora têm mais respeito?
Ainda gritam para tirarmos a camisola e outras coisas, mas nós dizemos-lhes para nos mostrarem a pila e a coisa fica por ali (risos)
Como é ter 21 anos e poder finalmente entrar nalguns sítios ou consumir álcool sem problemas?
Já estávamos habituadas a isso, porque antes de termos 21 anos já tínhamos tocado no Canadá e na Europa e lá não é como aqui que tens de esperar até aos 21 anos para atingires a maioridade. E como algumas de nós tínhamos bilhetes de identidade falsos...
Eu sei que gostam muito de carros e comida. Falem um pouco sobre isso.
A comida é uma coisa importante, porque quando andamos em digressão é a única coisa que temos para fazer todos os dias. Na nossa primeira digressão nem sempre gostámos da comida, mas agora, por alguma razão vamos sempre a um restaurante chamado The Spaghetti Factory Machine, que é uma cadeia que existe cá, em que tem sempre a mesma comida em todos os restaurantes. O esparguete é mesmo mau, mas os locais são decorados de uma maneira engraçada, estilo americano antigo. Gostamos de lá ir porque sabemos perfeitamente o que vamos comer.
E com essa comida toda conseguem manter a linha?
É um bocado difícil, mas em palco suamos o suficiente para queimar tantas calorias (risos)
E em relação aos carros?
Pode não parecer muito interessante para vocês, porque provavelmente na Europa aí não serão tão exóticos, mas eu gosto de Minis, porque aqui é raro verem-se.
Vocês editaram um split single com os Kiss, que são uma das vossas bandas favoritas. Como é que conseguiram esse feito? Já os conheciam antes?
Nós só conhecemos os Gene Simmons, porque entrarmos na banda sonora do filme "Detroit Rock City", e como filme é sobre os Kiss, e eles acharam-nos piada e acabámos por fazer o single juntos. Apesar de não entrar-mos no filme, acho que toda a gente devia ver esse filme (risos)
As Donnas têm feito algumas versões dos Kiss, Motley Crue, e neste disco incluíram uma do Judas Priest. É essa a vossa maneira de prestar homenagem às vossas bandas favoritas?
É sempre engraçado tocar esses temas. Por exemplo o tema dos Judas Priest é muito Donnas, as letras têm muito a haver connosco, "wait until midnight, wait until the morning and i'm gone".
Desta vez decidiram dar os primeiros passos na produção e co-produzir o disco com o Robert Shimp, que é o vosso técnico de som. Porque não usar um produtor externo. Quiseram ter o controlo absoluto da gravação?
No álbum anterior usamos os irmãos McDonald dos Redd Kross e as coisas não correram muito bem. Foi como ter demasiados cozinheiros a fazer o mesmo prato e no fim deixam-no queimar. O Robert fez um bom trabalho no disco e como anda sempre connosco em digressão, compreende-nos e sabe como queremos soar. As coisas correram muito melhor desta maneira.
Qual seria então o produtor ideal para as Donnas?
Acho que as coisas estão bem assim e não pensamos em mudar. Pelo menos conseguimos fazer aquilo que queremos da maneira que queremos.
Com o passar dos anos os vossos discos têm-se tornado mais rock e menos punk. É esse o caminho que querem continuar a seguir?
Sim, desde que começámos temos tentado criar o nosso som, a nossa identidade e acho que já temos o "som Donnas".
As vossas letras falam de experiências reais ou são apenas histórias inventadas?
A maioria é baseada em coisas que realmente nos aconteceram, mas depois distorcemos um pouco as coisas de maneira a ficarem engraçadas.
Todas vocês escrevem canções, como é que decidem quais os temas que entram e os que ficam de fora. Nunca discutiram sobre isso?
Normalmente nunca escrevemos muitas canções. Não é como certas bandas que escrevem 30 temas e depois escolhem os melhores. Tentamos escrever as canções necessárias para completar um disco.
O vosso site está muito bem feito. É importante estar perto dos fãs e dar-lhes o máximo de informação possível?
É importante que as pessoas que gostam de nós nos sítios mais distantes possam estar perto de nós, e de alguma maneira conhecer-nos um pouco.
E em relação aos vídeos, são vocês que escolhem quem os dirige?
Tentamos usar algumas gravações ao vivo que nós fornecemos. O realizador aparece com um enredo e trabalhamos juntos à volta disso.
A citação "Good girls go to heaven, The Donnas go everywhere" ainda se pode aplicar à banda ou preferem "Chicks who rock"?
(Risos) Provavelmente nem uma nem outra, porque não queremos ser "chicks who rock". Queremos que a música venha primeiro, não o facto de sermos raparigas.
Então que citação podíamos aplicar?
"A good thing for a rockin night".
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 7)
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