“Enforce The Funk”, “Let Yourself Go”, “Feel It”, “Double D Rock” e “B Boy Love” são nomes de temas que compõem o disco de estreia dos Double D Force, mas são também palavras que apresentam a dupla e mostram o seu propósito: D-Mars e D_Fine, têm como objectivo pôr o cérebro a dançar – o corpo nem vai tentar resistir – e prestar tributo aos instigadores iniciais do electro, do funk e do hip-hop.
A cumplicidade encontrada, o desejo mútuo de prestar homenagem a quem mais nos influenciou, o talento de ir mais além procurando registo após registo, com diferentes alter-egos, proporcionar uma perspectiva pessoal de como assimilar as influências e moldar os impulsos cerebrais que daí advêm. D-Mars é membro de um dos grupos pioneiros do hip-hop em Portugal – os Micro. No ano passado deliciou-nos com “The Pyramid Sessions”, um álbum editado como Rocky Marsiano onde a sua visão do jazz conduzia o bom gosto e sensibilidade que impera em todo o disco, enquanto D_Fine canta jazz e música cabo-verdiana. Em “Enforce The Funk” há momentos que lembram os passos de dança de James Brown ou Kool & The Gang, os beats citadinos e fumarentos de Afrika Bambaataa, o mecanismo dos Warp 9 ou mesmo a insanidade dos Moloko.
“Feel this inside of me, this funky rhythm just sets me free, and I can be with who I wanna be, I wanna be with you – the Double D” pode muito bem ser um dos motes para este registo, uma mescla de influências e sonoridades, à semelhança da herança multi-cultural (D-Mars é luso-croata e D_Fine tem ascendência cabo-verdiana e holandesa) de ambos os intervenientes.
Como é que surgiu este projecto? Como é que se relaciona musicalmente com a D_Fine e como é que encontraram os pontos de contacto?
Nós temos uma relação pessoal, somos namorados, e quando nos conhecemos, já há mais de três anos, eu mostrei-lhe a música que faço e descobri muito cedo que ela partilhava comigo alguns gostos musicais. Ela ouvia algum hip-hop, exactamente o hip-hop que eu curto. Logo nos primeiros seis meses fomos uma vez para o estúdio, e deu-me na cabeça fazer um tema electro, chamado “B Boy Love”. Esse foi o primeiro tema feito para este álbum, on the spot, como uma brincadeira. Tínhamos no estúdio um teclado de um amigo que tinha uns sons analógicos muito bons e a D_Fine acabou por tocar piano. A D_Fine fez uma linha de baixo com o sintetizador, eu fiz a programação, inventei uma letra, ela cantou a letra e começamos a relacionarmo-nos musicalmente com esse tema e depois fizemos outras coisas ao longo desses três anos.
Quando é que pensaram em fazer isso a sério?
Tentámos dar continuidade a essa curtição no estúdio, com estes temas, já com o nome Double D Force. Escolhemos esse nome porque o nome dela é D_Fine e o meu é D-Mars e era a cena do destino, os dois D’s. O nome remete também para aquela cena mais old school e para a força da nossa relação. Em termos de álbum mesmo só pensámos no início deste ano.
Então foi gravado muito depressa?
Foi gravado ao longo dos três anos. O primeiro tema tem três anos, outros foram feitos há um ano e meio, alguns foram feitos ainda este ano. Os temas vocais foram feitos até há cerca de um ano e meio e depois resolvemos fazer o álbum e incluir temas instrumentais que já foram feitos este ano. Foi só juntar todo o trabalho que tínhamos e adicionar cenas novas.
Vocês transmitem uma versão do electro, mais obscuro, da década de 80, misturado com funk. É um pouco diferente do electro actual. Esta é a vossa visão pessoal do género?
Para mim pessoalmente, e sem querer ofender ninguém, o electro é o electro-funk, o originário, é música originada pelo Afrika Bambaataa e depois todo aquele movimento que se desenvolveu à sua volta que depois teve repercussões na Europa através do Ítalo, todas elas fazem parte do universo que inspirou este disco. A minha relação directa com esse universo é porque esse tipo de música também faz parte do hip-hop, até do imaginário do break-dance.
Vê não só electro e funk, mas também hip hop no disco?
Sim, mas também vejo hip-hop em tudo. (risos) Em todos os discos que faço vejo hip-hop. Como Rocky Marsiano foi a minha visão do jazz neste caso é a minha visão de um gajo do hip-hop aliado a uma pessoa que tem um spread musical muito mais variado do que eu, daquela época que te falei mas feita de uma forma contemporânea.
Que toque acha que a D_Fine deu ao projecto. Ela tem formação clássica?
Ela deu o toque musical, entre aspas, este álbum é todo tocado, não há samples, só no último tema. O facto de tocar temas pela primeira vez tem muito a ver com o tipo de relação que tínhamos em estúdio e ela contribuiu também com uma voz que consegue entrar perfeitamente neste papel de diva do electro ou uma daquelas divas que cantavam para o pessoal dançar breakdance. Ela canta também jazz e música tradicional cabo-verdiana.
Estão geograficamente distantes (a D_Fine está na Holanda), como pensam contornar esse obstáculo a nível de concertos?
Vamos ver agora o que acontece. Com o Rocky Marsiano também disse que nunca iria fazer aquilo ao vivo e agora é a cena que curto mais fazer. Se houver a necessidade de tocar de certeza que vamos contornar esse obstáculo e também vamos tentar fazer coisas com este álbum na Holanda.
Vai ter distribuição lá?
Vamos fazer os possíveis, porque é um álbum que tem um conteúdo perfeitamente internacional. Em termos práticos não tenciono mesmo fazer concertos disto.
Acha que não funciona?
Funciona, mas em Portugal é difícil montar uma estrutura que me permita fazer exactamente aquilo que eu quero. Com o Rocky Marsiano foi relativamente fácil, porque descobri músicos para trabalhar comigo, mas nesta área é muito difícil e eu não curto dar concertos com um gajo no computador e uma outra pessoa a cantar, não gosto de chamar a isso concerto.
Prefere uma coisa mais orgânica?
Sim. Prefiro apresentar-me em formato DJ Set com intervenções ao vivo. Vou passando música feita por nós com intervenções dela e minhas ou de outros músicos. Acho que isso faz mais sentido. Nós queremos fazer disto uma festa.
Tiveram colaborações de mais alguém neste disco?
Tivemos o T-One como músico contratado.
Pondo os Double D Force de lado, como é que estão os Micro?
Estão muito fixes. A nível pessoal, o Nel Assassin foi pai e o Sagas teve um ano e meio a jogar na Madeira e essas situações não nos permitem, fisicamente, fazer cenas juntos. Vontade existe, estamos a tentar remar contra a maré e já temos instrumentais feitos para o próximo álbum. Temos quatro temas gravados e a perfeita noção do que queremos fazer musicalmente. Queremos apenas dar seguimento à nossa cena, porque achamos que isso faz falta ao hip-hop português. O que se anda a passar com o hip-hop português é muito estranho, parece que toda a gente quer ir atrás da mesma fórmula.
Toda a gente quer fazer hip-hop…
Por exemplo, o Boss AC explodiu, e as pessoas esquecem-se que é um trabalho contínuo de muitos anos de um gajo que encarou esta cena de uma maneira que quase nunca ninguém encarou, de uma forma profissional, com ideologias muito diferentes das nossas (Micro), mas que sempre foi fiel a essa vertente. Faz-me confusão haver pessoal que sempre foi mais do nosso universo e tentar agora ser o próximo Boss AC. Isso é errado. Se cada um fizer o seu próprio estilo há muito mais coerência para contigo próprio e para quem te ouve. Não estamos num país onde vamos ficar todos ricos. Portanto, os Micro sentem necessidade de continuar a bombar a sua cena.
Este recente boom do hip-hop em Portugal, como em todos os booms, em todo o lado, originou muita quantidade e pouca qualidade…
Existe toda uma nova geração que encara a cena de uma forma profissional, mas a quem falta perceber que existe toda uma cultura por trás disto.
Como se houvesse falta de personalidade criativa nestas bandas que estão a começar?
Sim. Nos quando começamos levamos muitos anos a chegar onde estamos e há muito pessoal que começa e quer logo estar no topo. Hoje também é muito mais fácil ter visibilidade, existe a Internet…
E o hip-hop também está em alta…
Eu acho que já esteve em alta muitas vezes e acabou por nunca estar mesmo em alta, a nível de vendas.
Que edições da Loop estão em banho-maria?
Em banho-maria temos uma das nossas grandes apostas deste ano que vai ser o álbum do Nel Assassin, o maior DJ de hip-hop e de scratch e o maior turntablelist português. É um álbum que vai ser mais ou menos instrumental e com participações muito interessantes do Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, da Kika Santos, do Ollie Teeba dos The Herbaliser. Depois estamos a celebrar os cinco anos e a seguir ao verão vamos concentrarmo-nos muito nisso. Estamos a pensar em fazer uma edição à volta disso, como um DVD com vídeos. Em princípio vamos editar ainda antes do verão as “Loop Airwaves”, uma compilação de temas inéditos relacionadas com uma cena que tivemos a fazer na Oxigénio há mais de um ano. Uma vez por mês dávamos um tema exclusivo da Loop que apenas rodava na Oxigénio e agora vai ser tudo compilado. Temos Micro aí na calha, o álbum de remisturas de Bulllet também está programado, bem como um projecto de r&b/new soul, chamado Ladybird, que está feito e só estamos à procura da melhor forma de o editar. Este tem um potencial comercial muito grande e sai fora das nossas capacidades, daquilo que representamos. E ainda estamos a ponderar a hipótese de uma terceira edição da Loop Off, mas não posso adiantar mais.
Nas noites que com o Zé (Zé Belo, co-sócio da Loop:Recordings juntamente com D-Mars e Rui Miguel Abreu), faz um pouco por todo o país, apresentam-se como Loop Diggaz. Viram, com este nome, uma forma de promover a editora?
Loop Diggaz foi um nome que começou logo comigo e com o Rui a pôr discos, depois com a entrada do Zé na editora e como ele já vinha com um historial pessoal de DJ, encontramos uma fórmula de saciar a fome que os dois temos em relação à música. Ele vem de um universo completamente diferente do meu e encontramos este universo do boggie, do disco, do electro old-school. O objectivo é mostrar a música que os donos da Loop curtem e ao mesmo tempo fazer as pessoas dançar ao som de um tipo de música que quase ninguém passa desta forma, nem em Portugal nem na Europa. Até agora tem corrido tudo muito bem. Depois fazemos rodagens. Já trouxemos um DJ holandês, às vezes o Zé toca com o Zé Salvador que é um dos melhores DJs do techno minimal em Portugal, mas quando toca com o Zé engloba-se mais no espírito do Loop Diggaz. No Verão devemos trazer um gajo de Amesterdão que faz umas noites de disco há muitos anos que se chama Black Disco Bust. Os artistas têm a sua própria vida e quando faz sentido fazemos este tipo de iniciativas. No estado Liquido, por exemplo, já foram lá DJs que têm outros projectos incorporados.
Ficou surpreendido com a crítica ao àlbum de Rocky Marsiano?
Fiquei. Não estava mesmo nada à espera e estava com muito medo de ninguém perceber aquilo. E espero que aconteça o mesmo com este disco, dos Double D Force. Neste momento, o Rocky Marsiano é o melhor trabalho que fiz.
Foi o teu primeiro trabalho a solo?
Não, fiz um trabalho a solo como MC que também foi muito bem aceite. Mas neste caso, do Rocky Marsiano, como era um universo completamente novo em Portugal sabia que ia surtir efeitos mas não estava à espera que fossem tão bons.
Pedro Miguel Guimarães
(Mondo Bizarre - Setembro 2006)