Entrevistas
DR. FRANKENSTEIN
A Caminho de Tabasco
Com “The Psychotic Sounds of…” os Dr. Frankenstein levam mais longe a lição aprendida nos velhos discos de surf e nos filmes série B. Num “work in progress” que durou cerca de um ano, construíram em laboratório um disco sólido, com uma linha estética coerente, sem deixarem de abrir portas a outras influências, venham elas do lounge, do rock ou de Tabasco.

Os Dr. Frankenstein sempre foram conotados com o movimento surf. No entanto isso nunca foi algo que vos agradasse pois sempre acharam essa conotação algo redutora...
Sim, isso acaba por não ser um retrato fiel da nossa música. Se se vir o surf como estilo acaba por ser limitativo. Nós não fazemos só surf. É óbvio que temos bastantes influências daí, mas não estamos limitados à sua essência. Existem outras variantes como o surf rock ou o surf garage ou o lounge e o psychobilly. Acima de tudo não queremos fazer parte de qualquer estilo.A ideia é fazer música que nos agrade. Sai aquilo que nós os quatro tocamos. Se fosse só surf provavelmente fazíamos como a maioria das bandas desse género: vestiamo-nos todos de igual, usávamos determinadas guitarras ou determinados amplificadores, etc.

Ao contrário do “The Lost Tapes...” este não é um apanhado de gravações várias, mas antes um “work in progress”.
Três meses depois da edição do primeiro CD surgiu a hipótese de gravarmos um tema para uma compilação de tributo aos Meteors, e nessa altura, decidimos gravar as coisas com mais calma. Dentro desse conceito fomos gravando os temas sem a preocupação de tempo. Pelo meio ainda gravámos a versão dos Motörhead para um tributo ao grupo que nunca foi editado e chegámos a pensar editar um EP. As coisas foram evoluindo e à medida que íamos tendo tempo, já que nesse ano tocámos bastante, fomos gravando os temas iam ficando prontos. Da ideia do EP acabámos por partir para a ideia de um álbum coerente em termos sonoros do principio ao fim.

Em comparação com o disco anterior, o novo álbum tem uma grande abertura a participações externas. Como é que escolheram esses músicos?
Cada convidado apareceu consoante uma certa necessidade por determinadas sonoridades. Desde o principio que não quisemos limitar a nossa criatividade e isso começou logo no segundo tema gravado que foi a versão do “Orgasmatron” dos Motörhead. Como queríamos quebrar a ideia que as pessoas tinham dos Dr. Frankenstein, foi necessário arranjar alguém que dominasse bem o inglês. Se fosse um de nós a gravar esse tema talvez não ficasse bem, por isso convidamos o Toni Fortuna (ex-Tedio Boys e actual D30). Todo o processo em relação às outras musicas foi semelhante a esse. Foi procurar as pessoas certas que pudessem obter os resultados que pretendíamos. Preferimos não perder tempo a procurar samples e gravar uma coisa com que não nos sentíssemos à vontade. Desta maneira os temas ganham também outra ambiência e outra coerência.

Um dos temas que as pessoas identificavam mais facilmente do primeiro disco foi o “Pretty Bitch” que era o único tema cantado. No novo álbum exploram um pouco mais essa situação. Foi para ver como é que as coisas corriam ou surgiu por acaso?
Nós não temos problemas em relação aos temas com voz, mas preferimos fazer temas instrumentais. Os temas cantados surgem quando surge uma letras para um tema instrumental que já existe. Mesmo que não seja muito elaborada, desde que nos soe bem, acabamos por utiliza-la.

Mas nos concertos sentem que existe uma certa empatia das pessoas em relação aos temas cantados, que acabam por funcionar como uma quebra em relação ao que já foi tocado.
É natural, as pessoas não estão muito habituadas a ouvir bandas instrumentais. Falta o elemento de comunicação mais próximo com o público, que é a voz. Durante o concerto do Cais do Rock, em 1999, estávamos a tocar e estava tudo parado. A sala estava cheia mas não havia reacção. Num dos temas eu começo aos berros e, de repente, o público começou a reagir efusivamente. Provavelmente faltou esse elo de ligação, mas também depende de quem está a ouvir. Já houve alturas em que nos perguntaram se não tínhamos vocalista e outras situações caricatas...

E em apoio dessa vossa intenção escolheram o tema “Road to Tabasco”, que é um dos instrumentais mais sóbrios do disco como single e vídeo de apresentação deste disco.
Normalmente ha sempre três ou quatro temas que funcionarão melhor, mas depois a escolha pessa pelas ideias que possam surgir para o guião do vídeo. De qualquer maneira, o “Roda to Tabasco” é, na nossa opinião, um dos temas mais fortes do disco. Aliás ele também aparece no EP que antecedeu o CD, que acabou por não ser o “Road to Tabasco EP” porque havia duas versões do “Porno Star” e não fazia sentido sair assim.

Tanto o “Porno Star EP” como o “The Psychotic Sounds...” acabam por sair com a chancela Deep Dark Jungle Records, que vos pertence. Não houve interesse de outras editoras ou preferiram não esperar por mais ninguém e optaram por editar os vossos discos?
Houve um período em que houve uma certa indefinição, daí ter havido um certo atraso na edição do disco. Estávamos indecisos se continuávamos na LowFly, se seriamos nós em auto-edição ou se optávamos por uma editora estrangeira ou outra portuguesa... Neste impasse surgiu a Zona Música que nos proporcionou a hipótese de distribuirmos e promovermos o disco de uma forma mais agressiva. De certa maneira é uma continuação do trabalho que já tinha sido feito porque o primeiro disco tinha sido distribuído por eles. Não mudou muita coisa, já que continua a ser a mesma banda, a capa foi novamente desenhada pela ArtVortex, que está ligada à LowFly, e a edição e distribuição é da Zona Música.

Em relação ao disco anterior não parecem estar a tocar tanto como aquando do primeiro disco.
Temos tocado, mas os concertos têm acontecido mais fora de Lisboa. Fora os showcases na FNAC não temos tocado em Lisboa porque não há salas, e na única sala em que podíamos tocar fomos proibidos por razões que não fazem sentido. Penso que em relação ao ano passado, a única diferença reside nos festivais. Como o ano passado tínhamos editado o “Lost Tapes...” tocamos nos palcos secundários porque éramos uma novidade, mas este ano como não nos convidaram... Mas é um problema geral, toda a gente se queixa da falta de concertos.

O tipo de música que fazem pode ser um produto exportável. Chegaram a explorar a possibilidade de editar e tocar lá fora?
Em termos de propostas houve pelo menos uma concreta que acabou por não ir para a frente. Por outro lado temos tido algum feedback de pessoas que nos viram nalgumas revistas específicas como a Gearhead ou na Continental, e temos tido alguns pedidos de CDs que nos chegam de vários países. Quanto aos concertos, para ver viável teríamos que trabalhar à volta dos nossos empregos, o que nem sempre é fácil. Em Portugal acaba por ser fácil porque as distâncias são pequenas e não estamos fora muito tempo. Para ir lá para fora também teria de partir de uma edição local que apoiasse a digressão, e vice versa, o que até agora não foi possível. Ir lá para fora só por dizer que fomos tocar ao estrangeiro não nos interessa.

Tanto em disco como ao vivo costumam tocar várias versões. Como as escolhem?
Existem várias razões. Alguns foram escolhidos porque gostamos muito dos originais e achamos que funcionariam bem ao vivo. Outros que escolhemos porque achamos que podemos dar uma outra vida ao original. O “Orgasmatron” é um desses exemplos, em que pegamos num tema que não tem a ver com o tipo de música que fazemos e demos-lhe uma volta tão grande que quem não conhecer a letra não vai reconhecer o tema. Esse tema não entrou no disco por uma questão de alinhamento, mas quando surgiu a ideia de editar o single achamos que seria a melhor opção colocálo no lado B ao lado da versão electrónica do “Porno Star”.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 12)