Entrevistas
The DT'S
LONGA SE TORNAVA A ESPERA
Quando a notícia da união entre Diana Young-Blanchard (Madame X) e Dave Crider (Mono Men) em formato banda se espalhou, muitas orelhas se levantaram e a curiosidade atingiu níveis elevados. O primeiro fruto desta união responde pelo nome “Hard Fixed”, traz a etiqueta “Hard Soul Revue” colada em lugar visível e é um dos discos a ter em atenção em 2004.

São quatro músicos, mas essencialmente, e sem desprestígio pela outra metade da banda, o que aqui interessa é realçar os nomes de Diana Young-Blanchard e Dave Crider. Ela vocalista, possuidora de uma voz negra – mesmo sendo branca –, que bebe influências nos cantores soul e blues e nos rockers dos anos 70, tem no cimo do seu curriculum um 10” e um single sob o pseudónimo Madame X, onde com a ajuda dos amigos Impala gravou um punhado de excelentes temas jazzy, divididos entre originais e versões. Ele guitarrista, ex-membro dos geniais Mono Men – e também Roofdogs e Watts – e patrão da imprescindível Estrus Records. Juntos criaram os Dt’s e o álbum “Hard Fixed”, um cocktail explosivo de rock e raw soul que tem vindo conquistar corações um pouco por todo o lado. Possíveis companheiros de viagem dos BellRays, os Dt’s diferem da banda de Lisa Kekaula pela opção de um formato canção mais convencional, evitando as incursões pelo free jazz.

Num passado recente, a Diana respondia pelo nome Madame X e o Dave dava a cara nos Mono Men. Uma vez que eram dois projectos totalmente diferentes a curiosidade é óbvia: como é que se juntaram?

Dave Crider – Eu e a Diana já tínhamos estado em bandas quando andámos juntos no liceu, mas mantivemos o contacto quando ela se mudou para Seattle. Nós queríamos ter começado a banda quando ela estava com os Madame X, mas na época os Mono Men andavam muito ocupados e achámos não ser boa altura. Quando os Watts surgiram, a minha ideia era convidar a Diana para cantar na banda, mas tal acabou por não acontecer. Passado algum tempo decidi que queria fazer parte de uma banda onde tivesse menos responsabilidade no que a tocar guitarra e a cantar diz respeito. É sempre excitante experimentar e fazer algo novo. Senão, porquê darmo-nos ao trabalho? Estava muito desgastado com bandas e não sabia se queria fazer parte de um novo grupo tão rapidamente, mas a Diana convenceu-me. Não houve um processo de transição entre os Roofdogs e os Mono Men, nem entre os Mono Men e os Watts, por isso, desde 1985 que faço parte de bandas que trabalham muito. Desta vez queria que as coisas funcionassem de modo diferente.

Dian Young-Blanchard – Começámos a trabalhar juntos como Dt’s há cerca de dois anos e meio. Nessa altura mudei-me de Seattle para Bellingham (onde o Dave vive há muitos anos) por duas razões: para fazer a banda, da qual falávamos há muito tempo, e para estudar na Universidade. Sempre estive ligada a bandas, mas a ideia de fazer uma banda com o Dave e com esta sonoridade fez-me tomar algumas decisões que estavam a ser adiadas.

Algo que me intriga, já que ambos vêm de bandas com uma sonoridade diferente da dos Dt’s, é se o som da banda reflecte aquilo que ouviam na altura em que se juntaram para a formar ou a ideia de misturar hard rock e raw soul era já uma ideia antiga?

DYB – Ambas as coisas, mas era acima de tudo uma ideia antiga. Não é como se, de repente, um de nós tivesse começado a ouvir hard rock ou soul. Era uma ideia divertida fazer uma amálgama dos dois géneros mas houve um longo processo mental até conseguirmos o que queríamos. Numa primeira fase falámos muito sobre as ideias que cada um tinha para a banda até chegarmos à ideia final. Como estávamos em sintonia tal não foi difícil de atingir.

Um dos pontos que vos distingue é o facto de conseguirem ter um som cheio, mesmo sem terem um baixista. É uma opção consciente para dar mais espaço à guitarra, por exemplo?

DC – Não foi propriamente premeditado, as coisas começaram assim e sentíamo-nos confortáveis com isso. Durante algum tempo quisemos ver como é que as coisas funcionavam entre nós. Nunca me passou pela cabeça algo do tipo ”ei, falta aqui qualquer coisa, precisamos de um baixista”. Foi um desafio tentar compensar a ausência do baixo e ainda assim fazer com que soasse cheio.

No entanto optaram por usar teclas, tendo recentemente a Patti Bell entrado para a banda...

DC – Bem, isso é outra história. (risos) Eu tenho um teclado e a minha ideia era tocar guitarra e teclas alternadamente. (risos) Hoje em dia a ideia parece absurda, mas na altura o plano parecia bom...Eu conhecia a Patti dos tempos em que tocávamos juntos nos Roofdogs, e como ela é casada com o Jeff que canta nos Watts.... É tudo muito incestuoso. (risos) A certa altura estávamos a fazer uma série de concertos e achámos que seria uma boa ideia convidar a Patti para ver se a coisa funcionava, se ela era capaz de nos desafiar para outros caminhos. Quando se adiciona um elemento novo a uma banda ganha-se algo e perde-se algo. Ganha-se porque existe mais alguém a dar ideias, mas perde-se porque a discussão envolve mais pessoas e torna-se mais difícil o consenso.

É verdade que quando gravaram o álbum tinham 50 canções escritas? Como foi o processo de selecção dos temas que entraram em “Hard Fixed”?

DYB – (risos) Onde leste isso, numa entrevista nossa? Bem, talvez não sejam assim tantas mas não anda longe. Algumas estão mesmo terminadas mas de outras existem apenas esboços.

DC - Nós não fomos para estúdio com a ideia de gravar todas as canções que tínhamos na cabeça. Isso seria impensável. É irrealista, mas é um erro que algumas bandas costumam fazer. Entrámos em estúdio com a ideia de gravar 14 temas, mas à medida que as gravações iam avançando passámos para 12, acabado por escolher apenas 10 para o disco, já que esses temas encaixavam muito bem uns nos outros. Ao vivo, neste momento, temos cerca de 40 a 50 temas por onde escolher. Algumas tocamos várias vezes, outras nem por isso, mas elas estão lá. Era isso que eu queria dizer.

Nos Dt’s, como nas vossas bandas anteriores, costumam gravar em muito pouco tempo. É uma questão de captar a energia dos concertos ou apenas por uma questão monetária?

DC – Ambos os argumentos são válidos. A realidade é que não temos muito dinheiro para gravar mas por outro lado, para a gravação da base dos temas, tu não vais querer gravar as mesmas coisas até à exaustão. Neste momento, e penso que a Diana concorda comigo, no ponto em que me encontro em termos de evolução como músico, gostava de passar um pouco mais de tempo a finalizar as canções. Durante a minha vida gravei demasiados discos “ao vivo em estúdio”, e não quero tornar a repetir essa experiência. Inclusive, a nossa primeira demo foi gravada dessa maneira. Para o álbum, o que fizemos foi trabalhar duramente para que as bases fossem gravadas rapidamente, de maneira a que pudéssemos ter um pouco mais de tempo para os overdubs de guitarra, de voz, etc. São coisas importantes e que ajudam a melhorar o resultado final do disco. Eu não me importava de passar um mês em estúdio, mas seis meses davam comigo em doido (risos).

DYB – Demasiado tempo pode ser negativo porque se pensa em demasia nas coisas e perde-se a noção de quando se deve parar.

A escolha de Tim Kerr para produtor parece óbvia, uma vez que ele vos tem acompanhado ao longo dos anos, em especial nos Madame X e nos Mono Men. Como produtor, o que é que ele trouxe de novo ao som dos Dt’s?

DYB – Pessoalmente a sua presença foi muito importante porque o Tim gosta muito de trabalhar a voz. E ele é muito bom nisso. Ajudou-me a tentar novas opções de colocação e gravação de voz que sozinha talvez nunca tivesse tentado ou sequer pensado. Pequenos pormenores que ele considerava serem importantes e que, como ele dizia, eram o que diferenciavam “uma boa cantora de uma excelente cantora”.

DC – Ele costuma ter muitas ideias a nível de arranjos, e é sempre bom ter por perto alguém que tem sempre uma opinião de como as coisas estão a desenrolar, porque às vezes é difícil termos a percepção se este take é o certo ou não. Em termos de guitarras ele não teve tanta influência como na voz porque eu já tinha uma ideia muito clara do que queria fazer. Não é que ele não tivesse feito sugestões, mas em estúdio ele mais um “cheerleader” do que um produtor, o que é excelente.

A primeira coisa que sobressai de “Hard Fixed” é a voz poderosa de Diana. Chegou a ter aulas de canto? Que cantoras a influenciaram quando começou a cantar?

DYB – Sim, tive, há muito tempo quando ainda andava na primária e que me ajudaram muito a controlar a respiração e a controlar a minha voz. Eu comecei a cantar há muito tempo. Penso que a minha primeira grande influência, por estranho que possa parecer, foi a Linda Rondstadt. Nos anos 70 ela ainda cantava alguns temas mais rock, mas o que eu mais apreciava nela era a sua voz poderosa e a escolha do material que cantava por ser bastante diversificado. Nunca houve um grande número de cantoras rock que me impressionaram. Nos anos 70 e 80 eu ouvia essencialmente bandas de rock “clássicas” como os Led Zeppelin – o Robert Plant era uma grande influência para mim –, Rolling Stones, Black Sabbath... Também era influenciada por cantores de jazz e de blues, aliás o Howlin’ Wolf é uma das minhas grandes influências de sempre. Penso que nunca tentei imitar ninguém em particular, mas quando era pequena gostava de ser uma cantora negra. Quando tinha 9 ou 10 anos costumava comprar uma determinada marca de batatas fritas porque vinham sempre com um single no interior. Penso que era um esquema que as editoras tinham para promover e distribuir singles de bandas que não estavam a vender bem. Um desses discos era de uma mulher (para dizer a verdade durante muito tempo nunca tive a certeza se era a voz de uma mulher ou de um homem) chamada Etta James. O single chamava-se “Fire” e fiquei completamente fascinada com esse tema. Mais tarde descobri a Tina Turner, Little Esther, Carla Thomas e outras excelentes cantoras e cantores negros que cantavam rock e pop com as suas naturais inflexões soul. Estas continuam a ser algumas das minhas coisas favoritas.

Tal como no passado, os Dt’s gravaram e tocam algumas versões. A razão que vos leva a tal é uma maneira de prestarem uma homenagem aos vossos artistas preferidos ou o desafio de fazer com que os temas de outrem se façam vossos?

DYB – As versões são divertidas! Não é tanto o facto de “prestar homenagem” uma vez que o que mais nos fascina é o facto de descobrir uma canção que gostaríamos de dar uma roupagem diferente. Qual seria a lógica de fazer uma versão exactamente igual ao original, a menos que te pagassem muito bem para o fazer? Na maioria dos casos versionamos temas que achamos serem excelentes canções e que depois tentamos “Dt-ify”...

DC – Eu diria que por ambas as razões. Aquilo que me leva a versionar um tema é porque este me toca de alguma forma, mas nunca achei que tivesse interesse tentar recriar exactamente o original. Penso que o grande desafio reside no facto de tornar um tema de outrem num tema nosso.

Vocês já não são propriamente novos e a vida da estrada nem sempre é fácil. Onde vão buscar a energia para continuar a percorrer quilómetros de estrada? Li várias histórias hilariantes no vosso hiplog, principalmente da digressão com os Midnight Evils...

DYB – Essa digressão foi particularmente estranha porque os Midnight Evils estavam completamente amaldiçoados. Aconteceu-lhes de tudo. Felizmente a maldição não passou para os Dt’s. (risos) De qualquer maneira, em digressão nós tomamos o nosso Geritol todos os dias para ter-mos energia... (risos)

DC – Eu gosto muito de digressões, de andar na estrada. Às vezes pode ser duro mas como nos Dt’s somos igualmente grandes amigos é sempre bom poder andar de um lado para o outro e fazer uma série de concertos. Por vezes encontrar a motivação pode ser difícil, mas estamos num país muito grande, e a única maneira de irmos do ponto A ao ponto B é percorrermos muitos quilómetros. A maneira como se abordam as digressões tem mais a ver com uma questão de atitude do que com a idade. A experiência é algo de positivo que se deve ter do nosso lado quando estamos na estrada.

Apesar do Dave ser o patrão da Estrus nunca pensaram em procurar uma editora maior? Com o hype do rock que se gerou em Inglaterra acham que os Dt’s também terão a sua grande oportunidade?

DYB – Não creio que os Dt’s tenham qualquer tipo de aspiração a tornarem-se grandes e a ter uma altura dourada. A não ser que alguém esteja disposto a investir dinheiro, sem garantias, numa pequena banda rock que gosta de andar em digressão, mas que não encaixa em nenhum esquema de marketing demográfico, não faz o que lhe dizem, que é demasiado velha e demasiado sábia para saber como as coisas são.

DC – Inglaterra? Onde raio fica isso? (risos)

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 19)