GALLON DRUNK
Noite Ardente
Dos londrinos Gallon Drunk disse uma vez John Peel que a razão porque gostava da banda era o facto de “não soarem como mais ninguém”. E é verdade. Os Gallon Drunk são (e soam) únicos. Tal singularidade pode ser comprovada em “Fire Music”, o seu mais recente álbum de originais, ou em “Bear Me Away”, uma compilação de raridades. A conversa com James Johnston, o vocalista-guitarrista dos Gallon Drunk.
Ainda se lembra de quando, há cerca de dez anos, os Gallon Drunk estavam constantemente a ter singles da semana no Melody Maker e no New Musical Express? Como é que a banda é vista actualmente tanto dentro como fora de Inglaterra?
(risos). Sim, lembro-me. Eu diria que passamos de jovem promessa a ilustres desconhecidos. Agora somos totalmente ignorados. (risos) Aqui a imprensa musical mudou radicalmente. O Melody Maker e outras publicações acabaram e o New Musical Express praticamente não existe. Nós somos uma das únicas bandas dessa altura que ainda existe e que, espero eu, continua a fazer coisas interessantes. Fora de Inglaterra é-me difícil saber o que pensam de nós. É que não consigo ler a imprensa estrangeira. (risos).
Mas em 1993 chegaram mesmo a ser nomeados para o Mercury Prize por “For The Heart of Town”. O que é que essa nomeação trouxe aos Gallon Drunk?
Nessa altura andávamos constantemente em digressão por isso pouco ou nada notamos. Lembro-me que quando andávamos às voltas, pela quarta vez nesse ano, na Alemanha, ouvimos falar da nomeação. Nessa época, tocávamos constantemente em Inglaterra e no estrangeiro. Fizemos inúmeras digressões sozinhos e depois uma como banda de suporte da P.J. Harvey e outra do Morrissey nos Estados Unidos. No final desse ano estávamos totalmente de rastos. E tivemos que parar durante algum tempo. Para dizer a verdade, acho que o Mercury Prize é um bocado uma treta. Em especial hoje em dia. Actualmente tudo se resume a haver dinheiro suficiente para nomear ou não um disco.
Então, foi por causa da existência de dinheiro que foram nomeados?
Nem pensar! Eu diria até que, como a nossa editora não tinha um tostão, a nossa nomeação por “For The Heart of Town” foi por mérito próprio. (risos) É que, apesar de termos tido todos aqueles singles da semana, a nossa editora era um tipo sentado numa cozinha! Não havia dinheiro para quase nada. Não havia nenhuma possibilidade de fazer uma coisa dessas. Nem sequer havia dinheiro suficiente para anúncios. O dinheiro que conseguíamos vinha essencialmente dos concertos.
As digressões com a P.J. Harvey e o Morrissey não ajudaram a tornar os Gallon Drunk mais conhecidos?
Sim, ajudou. A digressão americana com o Morrissey - que tem, e tinha imensos fãs nos Estados Unidos - foi em espaços enormes. Achei curioso estarmos ali, naqueles lugares enormes onde quase ninguém nos conhecia. E deu-se uma coisa interessante que foi as pessoas comprarem os nossos discos porque éramos a banda que o Morrissey tinha escolhido para a primeira parte. Com a P.J. Harvey acho que foi uma coisa mais razoável e que tinha mais em comum com o nosso tipo de música.
Depois tornou-se guitarrista dos Bad Seeds como substituto do Blixa Bargeld, tendo chegado mesmo a fazer os concertos do Lolapalooza com eles. Trouxe alguma(s) coisa(s) dessa sua passagem pelos Bad Seeds para os Gallon Drunk?
Sim, isso foi no ano a seguir às digressões com o Morrissey e a P.J. Harvey, em 1994. Demos 44 concertos em dois meses e meio e, apesar de tocarmos apenas 40 minutos durante a tarde e de passarmos o resto do dia sem fazer nada, foi bastante desgastaste. Pessoalmente achei excelente ter passado da minha própria banda, onde componho as canções, para uma banda onde apenas estava a substituir o guitarrista. Tive que me adaptar as arranjos e às canções dos Bad Seeds que eram muito diversas das dos Gallon Drunk. Isso fez mudar um pouco a minha maneira de tocar e de escrever canções.
Com os Bad Seeds acabou mesmo por ir tocar ao Top Of The Pops como acompanhante da Kylie Minogue...
Sim, sim. (risos) Foi absolutamente ridículo. Estava outra vez a substituir o Blixa, que tinha ficado na Alemanha pois integrava o elenco de uma peça de teatro. Lembro-me de ir ouvir a canção e não descobrir nenhumas partes de guitarra. Mas acho que ninguém reparou que não havia realmente partes de guitarra em “Where The Wild Roses Grow”. E ali estava eu, a fazer de acompanhante da Kylie Minogue... (risos).
Parece haver uma forte ligação da família Johnston ao Nick Cave... O seu irmão, Ian, escreveu “Bad Seed”, uma biografia de Nick Cave...
É verdade. O facto de o meu irmão ter escrito o livro sobre o Nick Cave foi a minha principal ligação ao Nick. O meu irmão vivia em Hackney, em Londres, e, por coincidência, o técnico de som do Nick Cave, vivia na porta ao lado. O meu irmão era jornalista musical e através do técnico de som conheceu o Nick, pois queria escrever um livro sobre ele. Acabou, durante os anos que a sua pesquisa levou, a conhecer todos os membros dos Bad Seeds, que acabaram por ir aos concertos dos Gallon Drunk. Por isso, foi mais ou menos natural o Nick Cave ter-me ligado a perguntar se eu queria substituir o Blixa.
Voltemos aos Gallon Drunk. Em “In the Long Still Night”, editado em 1996, os Gallon Drunk surgiam com novos membros e com um som mais cheio, mais colorido. A extrema riqueza sonora do álbum deveu-se à entrada de novos músicos ou aos três anos que vão de “From The Heart Of Town” a “In the Long Still Night”?
Sem sombra de dúvida devido ao espaço de tempo entre os dois discos. Tivemos muito mais tempo para escrever o disco e muito mais dinheiro do que tínhamos tido até aí (ou que voltamos a ter) e isso fez uma grande diferença. Eu não quis desperdiçar a oportunidade. Queria que o disco fosse muito mais controlado do que “In The Heart Of Town”, que tinha sido escrito em parte a caminho do estúdio e em parte já connosco em estúdio. Em “In The Long Still Night”, pudemos ter tempo suficiente para escrever as canções. Nota-se que estamos a tocar muito melhor e que as letras também melhoraram muito. É um disco que em deixou muito feliz.
Entre “From The Heart Of Town” e “In the Long Still Night”, houve, digamos, um álbum “não convencional” dos Gallon Drunk: “Dora Suarez”. Aí, fizeram a música de fundo para uma leitura de Derek Raymond de “I Was Dora Suarez”. Como é que descobriu os livros dele?
Mais uma vez, a culpa é do meu irmão. (risos) Já não me lembro muito bem como tudo aconteceu. Lembro-me que o meu irmão conhecia um tipo que ia fazer umas leituras num disco qualquer e um dia, esse tipo encontrou o Derek Raymond na rua e uma coisa levou à outra. Não sou grande fã dos livros do Derek mas acha-o uma pessoa muito interessante. Por outro lado, depois da confusão dos três anos anteriores, pareceu-me um enorme privilégio poder fazer um disco tão calmo e que envolvesse tão pouco esforço. Musicalmente acabou por se revelar um disco bastante conseguido.
E “Dora Suarez” acabou por ser o vosso último disco para a Clawfist...
(Risos) Bem… acho que o fim da nossa relação com a Clawfist foi o resultado de demasiadas digressões, da falta de dinheiro, da atribuição constante de culpas de parte a parte, de estarmos fartos daquela situação. Agora, passados estes anos todos, já não sei se foi uma decisão acertada mas, na altura pareceu-nos a única coisa a fazer. Eu-me bem dou com o dono da editora, o Mick Brown, mas nunca mais trabalhamos juntos.
Saltemos para 1999. Nesse anos, Mike Delanian, um dos membros originais dos Gallon Drunk abandonou a banda e Joe Byfield, outros dos membros originais, passou a colaborador ocasional. O que os levou a deixar os Gallon Drunk?
O Mike deixou de ter interesse em ensaiar, resmungava imenso, dizia que não gostava das canções que eu escrevia e o ambiente entre nós começou a tornar-se muito tenso. Como conheço o Mike desde a escola primária teria sido muito incómodo ter que lhe dizer “desaparece”. Felizmente ele decidiu ir-se embora. O abandono do Joe deveu-se ao facto de ele se ter mudado para fora de Londres e se ter tornado impossível vir aos ensaios. Sempre que pode ele toca connosco mas deixei de contar com ele como membro permanente dos Gallon Drunk.
Assim, tornou-se o único membro original da banda. Acha que é mais fácil?
Graças a deus que sou o único membro original. (risos). Como consegui encontrar um conjunto de músicos fantásticos não tenho tido problemas. Eu tinha que continuar com a banda. Não me podia deixar abater pelas saídas do Mike e do Joe. E agora até temos um novo tocador de maracas. (risos). Eu adoro maracas e estou extremamente contente por ter encontrado alguém que as toque bem.
Ou seja, o vosso som tornou-se ainda mais exótico.
Sim. Essa foi a ideia principal para a inclusão das maracas. Mas é também um regresso ao início dos Gallon Drunk porque eu voltei a tocar teclas e o resto do som assenta essencialmente na secção rítmica, em particular no baixo, e de vez em quando toco guitarra ou órgão.
No ano seguinte surgiu outro álbum “não convencional, “Black Mill”, a banda sonora do filme homónimo de Nikos Triantafillidis. De que trata o filme? É verdade que Nikos Triantafillidis descobriu os Gallon Drunk através de “Hurricane” dos JJ Brother, uma sua extemporânea, aparição a solo?
O filme é sobre um de escritor de um programa de televisão frustrado com o que escreve. Ele apaixona-se por uma das outras pessoas do programa e tudo se vai tornando uma espiral de loucura. O filme é bom, mas, infelizmente, não teve uma distribuição à altura. distribuído. Eu e o Nick Cave tínhamos cantado juntos “The Big Hurt”, o tema principal do filme “Mojo” de Jez Butterworh. Depois eu fiz “Hurricane”, que foi gravado para a editora que lançou a banda sonora de “Mojo”, que era também uma produtora de filmes e foi assim que o disco chegou às mãos do Nikos, que gostou dele e me pediu para escrever a música para o seu filme. Muitas das canções já estavam escritas e o Nikos inseriu-as no filme. Depois, após termos visionado o filme, gravámos alguma música incidental, na Grécia.
Somos assim chegados a “Fire Music” o último álbum de originais dos Gallon Drunk. “Fire Music” é o título que tinha escolhido para “In The Long Still Night”. O que o levou a colocar o nome de lado na altura mas a utilizá-lo agora?
Bem, “Fire Music” é o nome de um disco do Archie Shepp. Eu sempre gostei desse nome e sempre o quis usar mas estavam sempre a dizer-me para não o fazer por causa do disco do Archie Shepp. Por outro lado, existem tantas referências ao fogo em “In The Long Still Night”, que me pareceu ridículo usar “Fire Music” a nesse disco. Desta vez, tanto o layout como o disco em si, têm muito dos discos de “exotica” dos anos 50 e achei que era a altura ideal para utilizar o nome “Fire Music”. E acho que resultou muito bem!
“Fire Music” é, ao mesmo tempo, um disco mais calmo do que os anteriores, mas também um trabalho extremamente forte, cheio de vida no qual o som de garagem dos primeiros discos do Gallon Drunk desapareceu por completo, dando lugar a uma elegante combinação de sons. É mesmo, atrevo-me a dizer, um disco com uma riqueza e uma diversidade sonora superior a “In The Long Still Night”...
Fico contente por me dizer isso. Eu sabia que “Fire Music” is ser um disco difícil. Depois de termos feito “In The Long Still Night”, que considero um dos nossos melhores discos, fiquei com medo de não conseguir ultrapassar a qualidade das canções desse disco. Eu diria que o tema que melhor define o álbum e que conjuga algumas das características que lhe apontou é “Fire Music”. Apesar, - ou talvez mesmo por isso -, de ser um instrumental, “Fire Music” capta integralmente o espírito do álbum,. Até mesmo o facto de estar dividido em duas partes, uma calma, suave, e outra hipnótica, mais mexida, que lembra uma mistura entre um filme exótico e um “film noir”. Eu não acho este disco demasiado suave mas, de facto, a parte mais áspera dos Gallon Drunk desapareceu. Em parte, isso deve-se ao facto de termos tido imenso tempo, de não ter sido necessário apressarmo-nos, de termos podido usar os instrumentos que sempre quisemos utilizar como um órgão Hammond ou um piano verdadeiro.
Mais uma vez os Gallon Drunk sofreram uma baixa de peso. Terry Edwards, o vosso saxofonista/trompetista saiu depois da gravação de “Fire Music”. Acha que sem o Terry o som dos Gallon Drunk vai mudar substancialmente?
Não me parece. Sinto bastante a falta do saxofone. Mas, como já tinha referido, acabámos por regressar um pouco ao início e a centrar o nosso som outra vez em volta do baixo. À partida o Terry vai continuar a participar nos discos e nesse aspecto, não vai haver muitas diferenças. Ao vivo é que as partes dos metais terão que ser feitas com teclas.
Em geral costumam deixar as versões para os singles e para os ep’s mas desta vez colocaram uma no álbum: “Series Of Dreams”, de Bob Dylan. Porque essa canção e porque a escolheu para encerrar o álbum?
Gosto do modo como conseguimos dar a volta a “Series Of Dreams”, cujo original tem uma gravação muito fraquinha, transformado-a numa canção que soa a anos 80. E gosto da atmosfera que essa canção dá ao final do disco. Alguns dos nossos discos, como por exemplo, “InThe Long Still Night”, que fecha com a canção do mesmo nome, terminam de um modo bastante positivo em vez de acabarem num crescendo de loucura. Eu gosto do modo como conseguimos dar a volta a “Series Of Dreams", cujo original tem uma gravação muito fraquinha, transformado-a numa canção que soa a anos 80.
A recente edição da compilação “Bear Me Away” é um fechar de um ciclo para os Gallon Drunk?
Nem por isso. Decidimos lançar a compilação porque a maioria dos temas que vão aparecer são de gravações nossas que já não estão disponíveis. Tivemos o cuidado de colocar os temas numa ordem que faça sentido de modo a que “Bear Me Away” soe como um álbum de originais e não como uma compilação.
Se olharmos para as letras dos Gallon Drunk encontramos uma série de palavras (fogo, noite, música) e de temas (amor, paixão, desespero, traição), recorrentes...
Os letristas, ou os escritores de canções, tendem a ficar presos a alguns clichés. É uma coisa má e pode fazer com que nos tornemos desinteressantes. Por vezes tenho a sensação de que estou sempre a escrever o mesmo disco, que escrevi a mesma coisa vezes sem conta. Mas, por outro lado, acho que me posso valer desses clichés e fazer com que se tornem uma característica dos Gallon Drunk.
E Londres, continua a ser uma fonte de inspiração para si?
Sim. É onde eu vivo. De momento resido no edifício de uma antiga escola vitoriana e tanto o local onde vivo como as pessoas que conheço são factores de inspiração para mim. E as pessoas que não conheço, que vejo na rua, em lugares públicos, ou sobre as quais ouço falar nos jornais e na televisão também me servem como inspiração. Se vivesse noutro lado não escreveria coisas tão deprimentes e os Gallon Drunk soariam de maneira totalmente diferente.
A sua mulher, Geraldine Swayne, parece ser outra importante fonte de inspiração para si. Escreveu mesmo algumas canções para ela (“There’s Geraldine” e “Two Clear Eyes”), ela faz um dueto consigo na versão de “Keep Movin On” incluída na compilação Volume e escreveu a banda sonora de “East End”, um dos filmes dela.
A Geraldine é-me absolutamente essencial. Até estou a dar esta entrevista a partir do estúdio de pintura dela! Há umas semanas um novo filme da Geraldine foi apresentado no festival de cinema independente de Nova Iorque e, mais uma vez, eu contribui com a música. Gosto muito de chegar a casa e de descobrir um quadro novo da Geraldine na parede. Tanto os quadros como os filmes dela fazem com que as coisas não sejam estáticas, com que eu tenha uma fonte permanente de novidades nas quais me posso inspirar. E estou super satisfeito por ela não fazer música senão a minha vida seria um autêntico inferno. (risos)
Por falar em cinema como surgiu a oportunidade de representar em “The Fall Of The Louse of Usher” de Ken Russel?
Bem, eu tinha feito uns filmes em Super 8 com o Nick Coon, um baterista extremamente original, quando andávamos na escola de drama de Londres. O Nick vivia na mesma rua que eu, era amigo do Mike Delanian e tinha o quarto cheio de filmes em Super 8. Quinze anos mais tarde encontrei o Nick no Festival de Cinema de Edimburgo, onde estavam a exibir os nossos velhos filmes em Super 8 e o Ken Russel apareceu por lá para os ver. Acabei por o conhecer e ele falou-me dos projectos que tinha para um novo filme. Perguntei se podia fazer a música do filme e ele disse-me “não, não, vais é entrar no filme”. E assim foi. O que começou como uma brincadeira de escola acabou por me levar até ao cinema e à televisão. Após “The Fall Of The Louse of Usher” acabei por fazer um outro filme, desta vez para a televisão sobre Edward Elgar, um compositor inglês do século XIX. Em relação à banda sonora de “The Fall Of The Louse of Usher” é um pouco como o que escrevo para os Gallon Drunk mas muito mais exagerado. Fiz a música desse filme baseado em velhos filmes mudos e de terror mas acrescentei-lhe um lado ainda mais histriónico.
A sua actividade como compositor estende-se mesmo à televisão e até a um espectáculo de bailado. Como é que se envolveu com esses dois meios?
Já nem me lembro como tudo isso começou. Julgo que foi quando uns conhecidos meus fizeram um documentário e só tinham parte da música. Eu disse que fazia o resto num abrir e fechar de olhos. Depois surgiu, há cerca três anos “The Most Fertile Man In Ireland” para o qual criei uma banda sonora muito diferente do que costumo fazer, extremamente infantil e frágil assente em violino e piano. A Marisa é amiga de uns amigos e a música que escrevi para o bailado da Marisa era totalmente punk rock.
Com tudo isto ainda teve tempo para participar nas gravações de “The King Of Nothing Hill” de Barry Adamson e para andar em digressão com ele. Como conheceu Barry Adamson?
Conheci o Barry devido à ligação do meu irmão aos Bad Seeds, porque quando eu toquei com eles, há muito tempo que o Barry tinha deixado a banda. Um amigo do meu irmão trabalha na Mute e faz a promoção de imprensa do Barry Adamson. O meu irmão dava sempre os discos dos Gallon Drunk a esse amigo e o Barry gostou imenso das guitarras de “Black Mill” que são bastante doidas e invulgares e também do que fiz em “Hurricane”. O Barry acabou por me pedir para tocar guitarra no disco que ia gravar (“The King Of Nothing Hill”) e eu aceitei. Agora, ao fim de dois anos, estamos finalmente a apresentar esse material ao vivo e tem sido muito divertido.
Como foram as gravações de “King Of Nothing Hill”? Das partes de guitarra do disco, quantas se devem ao seu peculiar e único modo de tocar e quantas são da autoria de Barry Adamson?
As gravações foram óptimas. Foram feitas há dois anos e tivemos bastante tempo para trabalhar. Boa parte das guitarras de “The King Of Nothing Hill”, foram tocadas pelo Barry. Eu cheguei ao estúdio, ouvi a canção, peguei nela e depois o Barry escolheu aquilo de que gostava. Mas ele queria que as guitarras soassem espontâneas, soltas e irreverentes. A ideia era as guitarras terem o mesmo tipo de tratamento que as do “Idiot” do Iggy Pop. Ou seja, guitarras eufóricas, tocadas com pujança mas que são misturadas bastante baixo. Ao vivo tenho um pouco mais de liberdade e posso, dentro de certos limites, improvisar. Mas eu gosto muito de tocar coisas escritas por outras pessoas. Isso obriga-me a ser muito criativo, a ter que saber exactamente até onde posso ir para não desvirtuar nem tornar irreconhecível uma criação alheia.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 13)
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