GAY DAD
COM OS PÉS NA TERRA
Os Gay Dad estão de volta. "Transmission", o seu segundo álbum, um disco pop-glam, não muito longe do som de uns Mansun ou Suede, vê o grupo reduzido ao trio fundador, Cliff Jones (guitarra/voz), Baz Crowe (bateria) e Nigel Hoyle (baixo). Este último contou à Mondo Bizarre como é estar debaixo do cerrado julgamento dos media britânicos e como o grupo conseguiu ultrapassar todo essa euforia, que, há dois anos atrás, fez dos Gay Dad mais uma das muitas "next big thing" que nascem no Reino Unido.
É verdade que Gay Dad preparam as respostas a dar nas entrevistas?
Não propriamente. Mas toda a gente gosta de uma boa entrevista com respostas interessantes. Eu não penso muito nisso pois prefiro gastar o meu tempo a escrever música. As coisas, com o primeiro álbum, chegaram a um ponto absurdo, pois já ninguém queria saber se a música era boa ou má. Só estavam interessados na imagem e no hype. Para evitar que tudo ficasse ainda mais descontrolado começamos a pensar no que nos poderiam perguntar de modo a termos algo para dizer.
Fale-nos um pouco desse frenezim dos media britânicos à volta dos Gay Dad e do posterior desinteresse por parte dos mesmos.
Esse empolar e largar de uma banda é uma coisa ciclica que a imprensa britanica adora. Acho isso muito estranho mas em Inglaterra não gostam muito de bandas que cresçam. No entanto, gostam de as fazer crescer para depois as deitarem abaixo. Para meu próprio bem guardo distância de tudo isso. E, se se quer estar a par do que se faz em Inglaterra, é melhor ouvir rádio. Há algumas estações de rádio bastante boas em Londres, como a XFM. Mas é nas rádios pirata que encontro as coisas mais interessantes. Este ano o hype foram os Strokes e agora o Andrew W.K. São bons mas não posso deixar de ter um pouco de pena deles pois, não tarda, deixarão de ser os favoritos do mês.
Ainda assim, todo esse hype à volta de uma banda não faz com a mesma venda discos?
Não creio que faça pois as pessoas ficam desconfiadas e não gostam que lhes enfiem coisas pela goela abaixo. Acho que é preferivel puderem descobrir o que lhe interessa por si próprias. No caso dos Gay Dad vendemos bastantes discos mas, para toda a exposição mediática que tivemo,s podíamos ter vendido muitos mais.
O que os Gay Dad andaram a fazer nos dois anos que vão de "Leisure Noise" a este "Transmission"?
Várias coisas. Obviamente, fizemos este disco. Estivemos a recuperar psicológicamnete de toda a campanha promocional de "Leisure Noise". Mudamos de editora porque eles nos odiavam e nós os odiavamos a eles. E eu casei-me. A verdade é que, quando as bandas desaparecem dos tablóides não quer dizer que estejam sem fazer nada. Estão a escrever, a ensaiar, a gravar. Ainda que, no primeiro disco, não estivesse totalmente certo disso, pois com toda aquela euforia era complicado ter-se a cabeça no lugar, agora tenho a certeza de que estou nisto porque quero fazer música e não para ser uma estrela. Foi com esse espírito, de quem quer fazer música, que "Transmission" saiu.
"Transmission" soa tão entusiata quanto "Leisure Noise" mas mais maduro...
É um comentário justo. Com o tempo que tivemos para digerir este disco, porque já o acabamos há algum tempo e, vendo as coisa as coisas em perspectiva, concordo com alguns comentários que sairam na imprensa inglesa. Dizem que o disco soa mais sério. Eu até acrescentaria que não é tão divertido como "Leisure Noise". Desta vez estávamos mais confiantes na nossa capacidade de escrever canções. Não foi preciso cobrir todos os espaços disponíveis com overdubs para esconder a nossa falta de confiança. Muitas vezes as bandas usam produções muito sofisticadas por não acreditarem nas suas capacidades de escritores de canções.
"Transmission" é um disco onde não existem canções menos boas e de onde não se consegue escolher um tema favorito...
Para este disco escolhemos as nossas melhores canções Não somos uma banda que edite um tema do qual nos venhamos a arrepender mais tarde porque ficariamos com um sentimento de culpa. Do mesmo modo, quando editamos um single, esforçamo-nos por escrever um bom tema para o lado B, porque as pessoas que realmente gostam, de música vão dar importância ao lado B.
Acha que este novo disco foi uma maneira de dizer a vós próprios, aos media e às pessoa que os Gay Dad são uma banda a sério e não apenas um produto do hype?
Olhando para trás vejo que foi muito ingrato apenas dizerem que eramos uma banda fabricada pois achavam que havia um truque qualquer por detrás dos Gay Dad. Eu, o Cliff e o Buzz já tocavamos juntos há quatro anos antes disso acontecer. Pelo caminho fomos escolhendo algumas pessoas para trabalharem connosco que acabaram por ir saindo. Uma das razões porque não desistimos foi saber que tínhamos que fazer outro disco. E foi o que fizemos.
O ter tocado, o ano passado, num dos eventos da Poptones, tem também a haver com isso?
Isso aconteceu porque o Alan McGee é amigo da banda e convidou-nos para tocar umas versões por pura diversão. De repente houve uma grande atenção sobre o concerto, e nós, que só iamos tocar umas versões dos AC/DC, decidimos também tocar alguns temas do novo disco. Foi um concerto engraçado que eu gostei de fazer, não foi pretencioso. Nós simplesmente subimos ao palco e demos o nosso melhor. Parecíamos uma banda punk. Este ano aconteceram-nos coisas interessantes. Demos um excelente concerto no Festival de Reading. E as pessoas estavam lá para nos ver. Esgotamos a tenda onde tocamos.
Como é trabalharem em trio? Isso contribuiu para o facto do disco soar mais concentrado?
Acho que sim. No primeiro disco éramos quatro pessoas a gravar: Um produtor, dois engenheiros e um engenheiro assitente. Estavam sempre oito pessoas no estúdio em qualquer altura, a discutir sobre o que fazer. Isso dá uma ideia da falta de concentração que havia. Desta vez só estávamos nós os três, o Roger, que é o nosso engenheiro e o Ben que é DJ e que co-produziu o disco connosco. Por isso conseguimos chegar a um consenso mais fácilmente e a concentração era maior. Estávamos quase sempre em sintonia. Quantos menos pessoas forem melhor para o resultado final. Além disso sou um grande admirador de power trios.
De que falam as letras? Focam algumas das situações porque passaram ou não têm nada a ver com isso?
Depende. "Now Always and Forever" é um tema que eu e o Cliff escrevemos sobre uma ideia utópica na qual as máquinas gostam das pessoas e tomam conta delas, o que é uma coisa que me agrada. Toda a gente está de alguma maneira ligada às máquinas, aos computadores e essa utopia é algo que nos agradaria ver realizada; "Harder Faster" é muito simples, fala sobre ser-se muito ganancioso e tomar-se muitas drogas. Eu sei que é um cliché mas isso é o rock'n'roll; "Nightclub" é sobre um amigo do Cliff que gosta de sair imenso à noite; "Shoot Freak" é uma das minhas favoritas. É pura raiva, põe-te de um mau humor terrível. "Promise of a Miracle" é a maneira como nos sentimos quando somos bombardeados com diferentes imagens e promessas, propaganda, etc. Uma das letras que mais gosto é a de "Everything Changes". O conceito por trás desse tema é como um acidente de carro. A letra começa no momento que se vai pela rua, se atravessa sem olhar e se é atropelado. Tudo se passa num só segundo em que tudo muda.
É verdade que iam chamar a este disco "Commercial Suicide"?
Sim. Iamos chamar-lhe "Commercial Suicide" porque, ás vezes, pensávamos: o que raio estamos a fazer? No final não lhe demos esse nome porque já existem muitas bandas com discos com esse nome.
Então chamaram-lhe "Transmisson"? Por ser um legado do que aconteceu anteriormente, mas que, de certa forma, perdura?
Como disse, queriamos fazer passar as nossas ideias para as pessoas e esse título parecia encaixar-se. Muitas vezes sentimos que os Gay Dad eram mal interpretados e decidimos esclarecer as coisas.
E o que aconteceu áquelas fantásticas e estravagantes ideias que tinham na altura do "Leisure Noise"?
Não sei. Muitas das coisas que dizíamos no tempo de "Leisure Noise" não passavam disso mesmo, de ideias. Pessoalmente sou contra fazerem-se grandes planos, prefiro executálos. Que é o que acontece agora. Em vez de fazermos grandes promessas estamos mais interessados em fazer coisas. Acima de tudo temos que ser cuidadosos com aquilo que dizemos.
Uma das ideias era que uma banda deve ser um enigma, um mistério para atrair a curiosidade das pessoas...
Sim, mas mais importante do que ser enigmática, uma banda deve ser honesta naquilo que faz. Fazer o que realmente quer sem pensar naquilo que as pessoas vão dizer. No final as pessoas vão mostrar-se interessadas no trabalho de quem tem algo para dizer
Mas uma banda também deve ter algo que atraia as pessoas. Ninguém vai olhar para o vizinho do lado...
Claro que não. Mas uma banda não pode ser só visual e glamour. Também tem que ter consistência musical e canções.
Fale-me um daqueles "10 conselhos para se estar numa banda" que tinham em tempos?
Na altura de "Leisure Noise", estávamos a falar sobre o que iriamos dizer e como seria o nosso plano para sermos uma banda. Curiosamente, não conseguimos manter nenhum desses pontos, mas é sempre uma ideia interessante.
Qual é o conceito por trás do nome Gay Dad? A ideia é um pouco forte e, pelo menos, causa impacto.
É um nome incrível. O nome apareceu numa altura em que estávamos os três juntos há cerca de sete anos. É também a razão porque estamos juntos, porque o nome é um desafio pois há pessoas que ficam muito ofendidas com o nosso nome.
Por cá muita gente não deve saber o que significa, mas acredito que andar com uma t-shirt vossa em Londres será um pouco diferente...
Sim. Mas o nome pode levar a situações curiosas. Nós fizemos alguns concertos no Texas. Conseguimos alguma popularidade por lá e as reacções ao nosso nome foram fantásticas. As pessoas ficam confundidas, como se as duas palavras não pudessem estar juntas?
Mudando de assunto. No vosso site podem-se encontrar algumas coisas curiosas como aquelas palavras na secção "misinformation", que também surgem na capa do disco...
Numa digressão americana, que fizemos o ano passado, para passar o tempo, iamos metendo num computador portátil tudo aquilo que nos vinha à cabeça. Ao fim de algumas semanas tinhamos este estranho documento. Não sabiamos o que fazer com isso, mas como era interessante quizemos partilhalo com as pessoas e decidimos colocalo no site e no disco.
Também é possível encontrar-se uma série de textos, alguns escritos pelo Cliff, sobre gente tão díspare como Beck, Jean Michel Jarre, Manic Street Preachers, Peter Brown (engenheiro de som dos estúdios de Abbey Road entre o final dos 40 e o início dos anos 90), etc. Há alguma relação entre essas pessoas ou alguma ligação entre elas e os Gay Dad?
Acho que há ligações aos Gay Dad. Podem é não ser fácilmente detetáveis. Por exemplo, o Peter Brown é uma personagem que nos inspira. As histórias, especialmente a do Sly Stone, são incríveis. Esse artigo em particular fez com que o Cliff fosse expulso de Los Angeles, porque ele andou a meter o nariz onde não devia e alguns membros da comitiva do Sly Stone acharam que era altura de ele se ir embora. Infelizmente o Cliff arranjou alguns inimigos porque fala muito. É um jornalista, tem uma banda, e as pessoas não estão preparadas para lhe dar o benefício da dúvida. Às vezes tenho pena da maneira com a impresnsa britânica o trata porque acho que ele não merece.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 9)
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