GIANT SAND
TUCSON, ARIZONA
A carreira dos Giant Sand começou em Tucson, mas a banda mudou-se para outras paragens, acabando por regressar à sua cidade natal. Porquê?
Por causa dos filhos. A minha filha tinha chegado à idade de ir para a escola e achei melhor que o fizesse em Tucson do que em Joshua Tree, onde vivíamos. Ainda que eu fosse mais feliz por lá, onde vivíamos no meio do nada e não havia ninguém por perto.
No início dos anos oitenta, bandas como REM, Long Ryders, Green On Red ou The Dream Syndicate começaram a ser conhecidas dentro da cena rock alternativa. Os Giant Sand têm algo em comum com essas bandas?
Só em termos de trabalho realizado. Todos tínhamos um modo de pensar semelhante. Queríamos que os nossos discos fossem uma retaliação contra a moda vigente de baterias estridentes, órgãos casio e muito reverb na voz.
Os discos dos Giant Sand são gravados em poucos dias e com grande economia de meios. Acha que isso torna a sua música mais verdadeira e espontânea? Ou é apenas uma maneira de gravar com orçamentos pequenos?
Ambas as coisas. Uma é consequência directa da outra.
Edita sempre por editoras independentes. Tem relutância em editar numa multinacional, ou nunca foi convidado?
Dos trinta discos que editei até agora, dois saíram por multinacionais. Eu queria saber como cada tipo de editora trabalhava. Agora já sei. Ambos os géneros têm prós e contras, mas uma independente com dinheiro parece-me a melhor opção para o futuro. Numa independente todos trabalham para o mesmo, estão mais interessados num objectivo comum. Numa multinacional há demasiada confusão entre as várias pessoas que aí trabalham. E, apesar de terem uma melhor distribuição, são muito mais lentos a editar um disco.
Formou os Giant Sand com Rainer Ptacek. É bem conhecida a sua enorme admiração por Rainer e pela sua música. Quais são as recordações mais fortes que tem dele como pessoa e artista?
Quando conheci o Rainer, eu tinha 19 anos e ele 24. Foi instintivo. O modo de ser dele e o que ele fazia parecia-me o caminho a seguir. Eu precisava desesperadamente de um irmão mais velho e ele pareceu-me uma boa opção. Tornámo-nos muito chegados ao longo dos anos. Ele andava mergulhado em valores tradicionais e ritmos certos e eu jogava com os clichés e andava mergulhado num enorme caos. Mas juntos, conseguíamos tocar e improvisar sobre o mesmo acorde durante horas.
"Hisser" foi o seu primeiro trabalho após a morte de Rainer. Nessa altura, os seus restantes companheiros dos Giant Sand, John Convertino e Joey Burns, começaram a tornar-se notados com os Calexico. Esse disco a solo, foi uma maneira de mostrar que apesar do impasse em que estavam os Giant Sand, ainda estava criativamente vivo?
Anos antes, tinha tomado a decisão de nunca fazer um disco a solo, pois estávamos todos empenhados nos Giant Sand. Um disco a solo só serviria para retirar intensidade à banda. Nessa altura era tudo o que o John e depois o Joey tinham e eu sabia que tínhamos que nos manter juntos para sobreviver. Quando começamos os Friends Of Dean Martinez, reparei que o John não contava comigo como eu com ele. A sua ambição tinha ultrapassado os Giant Sand. De qualquer modo, quando "Hisser" foi feito, o Rainer ainda estava vivo, numa longa convalescença, mas muito doente. O John e o Joey passavam a maior parte do tempo a trabalhar no que, para eles, se haveria de tornar nos Calexico. Para mim, tinha chegado a altura de recomeçar. Tive que perceber que estava por conta própria, que estava a perder o meu melhor amigo e que a banda com que contara nos últimos 10 anos já não lá estava. Foi um período de reavaliação. Uma espécie de crise de meia idade. Mas essas crises nunca são o que se pensa. (Risos)
Chegou a pensar abandonar a música?
Sim. Havia um sofrimento e uma dor que antes não faziam parte do processo criativo.
Como vê a música dos Calexico? Na Europa tornam-se cada vez mais populares, se calhar, mais do que os Giant Sand. O facto de John e Joey dedicarem cada vez mais tempo aos Calexico pode criar problemas à carreira dos Giant Sand?
Sou a única pessoa à face da terra que não os vê como uma equipa. Conheço-lhes a individualidade pois encontrei-os em separado. O Joey era um miúdo quando o convidei a fazer parte dos Giant Sand. Quando se juntou à banda ele não compunha. Isso começou quando ele passou a coligir ideias. Como aprende depressa e estava sempre interessado em coisas mil, acabou por aparecer com material próprio. Mas eu sabia onde ele ia buscar todos aqueles fragmentos. Mas a música sempre foi assim. Até Robert Johnson "roubava" pequenas coisas de instrumentistas que via tocar em espeluncas. Como não havia gravações, essa era a maneira de apanhar coisas e as espalhar. Quando Johnson gravou ficou conhecido como o "inventor" de sons que, afinal, tinha juntado durante longo tempo. Mas não há, para mim, nenhum mistério no som dos Calexico. Fiz com que o John e o Joey se mudassem para Tuscon quando regressei, e eles começaram a tocar com músicos mariachi. As letras do Joey iam sendo escritas a partir dos livros que andava a ler. Foi muito interessante ver o puzzle formar-se. E os Calexico acabaram por ter os meus sons preferidos. Especialmente porque usavam os mesmos sons utilizados durante anos pelos Giant Sand: o peculiar som da bateria do John e durante os primeiros tempos o som da guitarra e do amplificador do Joey, que eu lhe tinha emprestado. O som deles era igual ao que eu e o John fazíamos há dez anos atrás. Os Calexico acabaram por ter vida própria e uma ambição que eu nunca tive. Quanto aos Giant Sand, eles parecem fazer cada vez menos parte da banda. Mas quem quer que tenha passado pela banda, aqueles a que chamo "viventes", tem sempre lugar nos Giant Sand. Mas quando surgiu a oportunidade de fazer a digressão com P.J. Harvey, o John recusou-se a adiar a digressão dos Calexico e isso diz tudo. Em mais de uma década foi a primeira vez que fui em digressão com outros músicos. Levei outros amigos: Jim Fairchild e Aaron Urtch dos Grandaddy, e diverti-me como não me divertia há anos. Talvez devido a dor que ficou do período "Hisser", e à qual o John e o Joey também estão ligados.
Viver perto do deserto e de grandes espaços abertos influência a sua criatividade?
Talvez. Mas preferia quando estava totalmente sózinho no meio do nada e sem televisão. Escrevem-se mais canções desse modo. Mas não abdicava da minha família por causa disso. Só preciso de encontrar essa imensidão dentro da minha cabeça. Nós continuamos a viver no deserto, mas numa cidade de 800 mil habitantes e não na velha cidadezinha de 50 habitantes.
"Chore Of Enchantement" foi o seu "grande" regresso. O disco foi aclamado pelos críticos e dado como o seu melhor desde "Glum". É talvez, o mais diverso e audacioso disco gravado pelos Giant Sand. Mistura pop, soul, funk e country. Acha que é um disco onde levou mais longe o quebrar de barreiras?
Não. Toda a gente diz que é o nosso disco mais consistente mas isso é impossível pois foi gravado em quatro lugares diferentes com três produtores diferentes. O que se conseguiu foi um todo bastante uniforme. Acima de tudo, penso é que os ouvidos das pessoas mudaram muito nos últimos dez anos, o que é bom. Mas há muitas canções sem o John e o Joey, que estavam fora com os Calexico. Por isso, será ainda um álbum de Giant Sand? Nem eu tenho a certeza...
Em "Confluence", o seu mais recente disco a solo, há uma versão de "Can't Help Falling In Love With You". É uma pequena homenagem a Elvis Presley ou gosta especialmente dessa canção?
Não é uma homenagem. Ouvi a canção na rádio e atrevi-me a aprendê-la. Até eu fiquei surpreendido por ter conseguido. (Risos)
Quando vai ser possível obter todo o material não oficialmente editado dos Giant Sand e o filme de que tanto se fala?
O material não oficial está, aos poucos, a ser posto à venda através do nosso web-site. Não sei quando estará pronto o filme que Bill Carter, o realizador de "Miss Sarajevo" está a fazer.
Há alguma possibilidade de gravar um novo álbum do projecto OP8. Tem falado com a Lisa Germano sobre isso?
Começamos a gravar algumas coisas com a Juliana Hatfield à pouco tempo, mas nunca chegamos a acabar essas gravações. Não tenho falado com a Lisa ultimamente, mas como os Giant Sand, devido à preenchida agenda do John e do Joey com os Calexico, se estão a tornar numa outra coisa, é provável que o tempo que passarmos juntos seja num projecto estilo OP8, o que seria bastante agradável.
É um músico bastante prolífero, que edita vários discos num curto espaço de tempo. Isso não lhe dá problemas com as diferentes editoras com que trabalha?
Não, agora já não tenho problemas desses. Ando nisto há tanto tempo que já sei o que posso, ou não, fazer. Este ano inundei intencionalmente o mercado pois houve quase edições no período anterior a "Chore Of Enchantement".
"Confluence" está a ser lançado na Europa quase ao mesmo tempo que "Selections Circa 1900-2000". A reedição de "Hisser" também está a ser feita agora. Não tem medo que isso afecte as vendas e a promoção dos diversos discos? Ou será que as pessoas vão prestar mais atenção ao seu trabalho?
É uma situação invulgar, que, neste caso, vai resultar da melhor maneira para todas as partes envolvidas.
P.J. Harvey admira o seu trabalho. Como a conheceu e como correram os concertos dos Giant Sand, que asseguravam a primeira parte da digressão europeia da cantora, interrompida por doença e que não chegou a Portugal?
A Polly tornou-se uma enorme fonte de inspiração. Ela diz exactamente o mesmo de mim e, às vezes, tenho dificuldade em lidar com isso. Conhecia através do John Parish, que me tinha contactado por e-mail e dizia que encontrava muitas semelhanças na nossa música. Depois disso tornei-me amigo do John Parish e ele e a Polly aceitaram gravar uma canção para o disco de tributo ao Rainer. Isso foi extremamente importante para mim. Depois, e quando andou em digressão com ela, o John convidou-me, por duas vezes, para fazer as primeiras partes, mas a solo. Mais tarde ela convidou os Giant Sand para a digressão europeia deste ano. Ela já está boa e está a fazer as primeiras partes dos concertos dos U2 aqui nos Estados Unidos. Eles vieram tocar ao Arizona e ela veio visitar-me. Tocamos algumas músicas juntos e senti-me como há muito tempo não me sentia a trabalhar com ninguém. Gosto muito dela e do modo como toca guitarra.
Nuno Castêdo
(Mondo Bizarre # 7)
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