GIRLS AGAINST BOYS
Realidade VS Ilusão
Com o novo álbum, "You Can't Fight What You Can't See", os Girls Against Boys (GVSB para os amigos) regressam para reafirmar uma existência que já se julgava perdida. Depois de uma mal sucedida incursão no mundo das multinacionais, o quarteto baseado em Nova Iorque arranjou forças para consolidar alguma música, primeiro com bandas sonoras e agora com um álbum de originais que os coloca de novo em contacto com as suas origens underground.
Foram uma das mais interessantes formações a surgir no meio alternativo/arty americano dos anos 90. Praticantes de um rock denso e nocturno - barulhento mas com muito groove, quase dançável - e marcadamente influenciados pelo pós-punk britânico dos anos 80, os GVSB foram ganhando admiradores ao longo de toda a década até atingirem um pequeno hype por volta de 95/96, altura em que assinaram pela Geffen Records. Sugeria-se assim que iriam engrossar as fileiras de bandas que estariam prontas a aceder ao mainstream, numa casa que já tinha acolhido os Sonic Youth ou os Nirvana e que parecia bastante interessada em dar mais exposição a bons nomes vindos do underground. Com a venda da editora e consequente mudança de política editorial, muitos foram os despedidos ou desprezados e o quinto álbum da banda - "FreakonICA" -, o longamente esperado produto dessa ligação, acabou por ser atirado para a rua sem um mínimo de tratamento. O passo que poderia ter catapultado o grupo para uma exposição global acabou assim por quase aniquilá-lo. Scott Mcloud, o vocalista e guitarrista dos GVSB, confirmou à Mondo Bizarre que durante algum tempo "andaram perdidos". Até conseguirem arranjar forças para completar alguma música nova. Primeiro, no ano passado com as bandas sonoras dos filmes "Series 7-The Contenders" e "Hedwig" e agora com o novo álbum "You Can't Fight What You Can't See", um regresso a terreno mais familiar, pela mão do já habitual Ted Nicely.
"You Can't Fight What You Can't See", o título do vosso novo álbum (o mais explícito até à data), sugere uma situação de rendição às forças invisíveis do destino ou até talvez da indústria. Mas a música nele contida continua a ser bastante combativa. O que significa este aparente paradoxo?
Há uma série de possibilidades de entender esse título. Acho que é por isso que gosto dele. Pode ser acerca da banda, acerca da música, acerca de editoras, pode ser um comentário político… pode ser pura paranóia. Pode ser até acerca dos GVSB e da maneira como fazemos música: às vezes é uma luta. Às vezes é preciso rendermo-nos e deixá-la ser o que é. Há um lado sombrio na nossa música, e ao mesmo tempo é combativa… E por alguma razão não podemos mudar o que somos. Não estamos a tentar fazer música "radio-friendly" não estamos a tentar fazer qualquer outra coisa para além do que somos e fazemos. Mas esse título é simplesmente uma frase que para mim ressoa de uma maneira pessoal. É um pouco difícil de explicar.
Após o álbum "FreakonICA" já se pensava que os GVSB tinham ficado perdidos nos caminhos tortuosos do mundo discográfico. Mas afinal a banda voltou. Há uma vontade de vingança neste regresso?
Definitivamente perdemo-nos por algum tempo. Perdemo-nos mesmo nas nossas cabeças. Perdemo-nos até um ponto em que conseguir ter agora um álbum é uma espécie de vitória pessoal. Vingança? Não sei se esta é uma situação assim tão directa. Honestamente acho que não estamos assim tão ressabiados nem me parece que estejamos a tentar provar alguma coisa. Este é - como todos os álbuns dos GVSB - um disco em que tentamos fazer o que sempre tentámos: rock'n'roll directo. Penso que não temos mais nada a provar.
Numa das novas canções há uma referência acerca de "Nova Iorque contra Los Angeles". Noutra diz-se "Não gosto de Hollywood". Isto tem alguma coisa a ver com a luta da banda contra a máquina do entretenimento?
Quando canto coisas como "NY vs LA" penso que há um certo humor cínico É como se fosse um título que se lê numa revista de moda. Na realidade foi numa revista de moda que eu li essa frase, mas ao mesmo tempo é uma sugestão acerca de outras coisas: estilos de vida, etc. Sempre houve uma espécie de guerra entre NY e LA pelo domínio cultural. A batalha interminável pelo que é "cool", pelo que é interessante. A referência a Hollywood é semelhante. Não é que não goste de Hollywood. De facto, a canção continua "mas continuo a tentar"… É mais acerca de uma obsessão com o lugar que de certo modo todos partilhamos, mesmo que declaremos odiá-lo. Os intermináveis programas televisivos que catalogam a vida dos ricos e famosos. A fama é a fama. Hollywood é a encarnação de tudo o que é famoso e glamoroso. Dizer que se odeia é muito unidimensional. Mais do que ódio, acredito que odeio ser tão atraído por esse lugar.
Em 98 e com o álbum lançado na Geffen muitos julgaram que os GVSB se poderiam tornar bastante grandes. Mas depois não aconteceu nada e a banda quase desapareceu. Entretanto perderam as ilusões acerca disto tudo ou nunca houve realmente ilusões nenhumas?
Acho que nunca julgámos que nos íamos tornar tão grandes como algumas pessoas pensaram. Acho que tivemos o nosso bocadinho de hype. Na realidade estávamos à espera de conseguir sobreviver algum tempo num âmbito de multinacional. Mas isso não aconteceu. Mesmo tentando ser cautelosos deixámo-nos levar em alguma ilusão mesmo que muito fugazmente. Alguém me disse há pouco tempo que "ninguém alguma vez assina um contrato com uma editora major a não ser que acredite que vai conseguir, mesmo que seja apenas por 15 minutos". Acho que acreditei por 2 minutos e meio. E não funcionou. Não vou mentir. Estamos na ressaca. Gostava de ter vendido um milhão de álbuns. Talvez se tivesse acreditado durante 15 minutos completos as coisas tivessem sido diferentes. Às vezes é preciso suspender a descrença. É a realidade contra a ilusão. As ilusões podem ser bem bonitas às vezes.
O que pensa que mantém a banda de pé depois de tudo o que passaram e após 12 anos de actividade?
Nestes últimos anos houve várias ocasiões em que estivemos quase a desistir… Mas não sei. Ainda tínhamos alguma música feita em conjunto e para essa música ver a luz do dia agarrámo-nos a isto. Agora veremos até onde conseguimos levá-la.
Após todo este tempo os GVSB ainda poderão ser a "banda mais sexy do mundo" (como alguém disse uma vez) para as pessoas que os viram como uma das bandas mais distintas da cena "underground" dos anos 90?
Ah, a pergunta "sexy". Essa referência aparece sempre em cada uma das entrevistas que tenho feito nos últimos 8 anos. A questão é: nós temos um SOM. Não será o som mais moderno do mundo mas é o NOSSO som. Acho que as pessoas começaram a falar dessa coisa do "sexy" em meados dos anos 90, porque parecia que nós falávamos sobre as situações esquisitas que surgem em ambientes nocturnos em que as pessoas se devem ou não meter. E, é verdade, nós falávamos sobre esse tipo de situações, e nós SOÁVAMOS a essas situações. Situações maradas. Acho que o rock'n'roll deve ser um bocado marado, deve soar errado. Penso que nós soamos um bocado errado. Então acho que ainda estamos mais ou menos lá.
Como se sentem de novo no "underground" com o suporte da Jade Tree? Pensam que é a melhor situação para a banda? Porque não a Touch & Go, por exemplo, que editou os vossos álbuns anteriores?
Quando finalmente nos vimos livres do nosso contrato com a Geffen, a Jade Tree foi a primeira a abordar-nos. E até agora têm sido bestiais. Eles gostam da nossa música. Acreditam nela. É uma boa sensação depois de 4 anos no limbo. Com a Touch & Go poderia ter sido bom, mas provavelmente é melhor tentar algo novo. Para uma banda como nós é preciso uma editora que esteja disposta a editar, mesmo que nós não vendamos um milhão de álbuns. A Jade Tree tem sido óptima até agora, por isso temo-nos sentido bem.
Com o vosso regresso regressa também a produção de Ted Nicely que produziu quase todos os vosso álbuns, com excepção de "FreakonICA". É uma questão de menor orçamento, ou apenas o conforto de regressarem às raízes?
Depois de 4 anos no Purgatório fazer um álbum foi como começar de novo. E o Ted foi alguém com quem sempre nos sentimos confortáveis. Gosto de todos os trabalhos que fizemos em conjunto. Não me pareceu ser esta agora a boa altura de experimentar com produtores de dub outra coisa qualquer. E também não queríamos fazer um aparatoso álbum de rock. Sabíamos que a abordagem do Ted nos ajudaria a conseguir o que queríamos neste momento. Que era despir um bocado o som, deixá-lo ser barulhento, concentrarmo-nos na vibração da música em vez de aperfeiçoar as canções até à exaustão. Ele é o tipo que me manda fumar um cigarro e beber uma cerveja se não estiver a soar bem ao microfone. Tem tudo a ver com "onda".
…Ou será que não se sentiram bem com a produção de Nick Launay para o "FreakonICA" que é provavelmente o vosso álbum mais acessivel até à data?
Nós sentimo-nos bem com o trabalho do Nick para esse álbum. Mas desta vez estávamos à procura de alguma coisa diferente. Quando se faz um álbum, de alguma maneira esse trabalho representa o que se está a fazer nessa altura. É mesmo um documento. Acho que o "FreakonICA" soa bem mas falta-lhe alguma da energia crua dos primeiros discos, e isso não tem apenas a ver com a produção. Era o que nós queríamos na altura. Em retrospectiva acho que soa um bocado frio. Um bocado sobre-trabalhado. E acho que o Nick condordaria comigo. Eu sinto de uma maneira diferente em relação ao resto da banda acerca desse álbum. Acho que é fácil perdermo-nos a aperfeiçoar as coisas e soar demasiado polidos e frios. E quente é melhor que frio. Frio não é muito bom no rock. Acho que algumas pessoas discordam de mim, o que sei eu?
Como se envolveram com a música dos filmes "Series 7-The Contenders" e "Hedwig"? Já antes apareceram temas vossos noutras bandas sonoras…
Basicamente foi através de amigos. Um amigo meu perguntou-nos se não queríamos fazer essa banda sonora e eu vi aquilo e achei que seria óptimo para a nossa música. Acho que aquilo que fazemos serve bem para aquele tipo de matéria: "reality shows", etc. Acho que resultou bastante bem. Além disso durante os dias negros dos últimos quatro anos deu-nos um motivo de trabalho. Por um instante houve um motivo real para trabalhar. Acho que foi uma boa experiência. Com o "Hedwig" foi semelhante. Um amigo da escola do Johnny Temple, um dos nossos baixistas, fez a música do filme e acabou por convidar-nos também. Nova Iorque é um local assim, se fores a suficientes bares acabas num filme.
De certa maneira os GVSB estiveram nos últimos anos na vanguarda da mistura da intensidade do rock'n'roll com a precisão e o poder da tecnologia, algo que é cada vez mais habitual. Como vêem o que se passa nesta área nesta suposta nova era?
Não sei bem. Para nós foi uma questão de aprofundarmos a experimentação e isto levou-nos a incluir cada vez mais tecnologia na música. Lembro-me que, quando começámos, costumávamos dizer que estávamos a tentar tocar como samplers… As novas tecnologias são boas para proporcionar novas ideias, mas no fim de tudo é preciso ter alguma humanidade nisto tudo. Acho que muito do rock'n'roll nos últimos anos foi sobreproduzido… material pronto para a rádio. Quanto a vivermos numa nova era, penso que vivemos num presente eterno. Talvez tenha lido demasiado Guy Debord e a cena situacionista, mas acho que as coisas não têm mudado muito. As coisas são reembaladas e re-inventadas. Os anos 60 estão aqui vivos e de boa saúde assim como os 70's, os 80's e os 90's. Não esquecer os 50's.
De certa maneira o híbrido de tecnologia e rock foi apenas tensão pré-milénio. Foi aquela coisa "isto é o futuro meu, é a isto que a música deve soar no futuro". Na realidade não é futuro nenhum. Depois do ano 2000 não começámos todos a andar de fatos espaciais. Continua a haver gente no metro a escrever boas canções em guitarras partidas com duas cordas. Nós estivemos definitivamente interessados em fundir a tecnologia (loops, teclados, etc) com um sentido punk rock. E tocar o nosso punk rock como se fosse dance music. Mas em último caso e na minha opinião demasiada tecnologia não é "rockar".
Hoje em dia a cena musical é muito mais difícil para boas bandas que prezam alguma individualidade. O que parece funcionar são essencialmente esquemas de marketing e sucessos de 2 minutos… Como encaixam neste cenário?
Provavelmente não encaixamos de modo nenhum. Vejo uma série de novas bandas em Nova Iorque escavarem nas mesmas influências que nós escavámos: Wire, Killing Joke, PIL, The Fall, etc. O lado art/dance do post-punk. Acho que nós nos excitámos sempre com aquele período em que o punk e o disco se encontraram e colidiram. E isso ainda hoje acontece. Em termos realistas aquilo que fazemos não é mainstream portanto ou encontra uma audiência ou morre pura e simplesmente. Sem amarguras. O marketing é uma força incontornável no que se passa no mundo da música, mas foi sempre assim de certo modo. Talvez o mercado esteja supersaturado neste momento. As bandas tornam-se grandes e podem ser completamente esquecidas ou ridicularizadas um ano depois. Acho que o período de atenção é cada vez menor. Investiguem "A Sociedade do Espectáculo" do Guy Debord. O Capitalismo parece estar a funcionar exactamente do modo como queria. Rápido. Os 15 minutos de fama do Warhol acho que encurtaram para 2 nesta altura. No que diz respeito às multinacionais o esquema é "passas na rádio ou desapareces". E não vás lá se não queres jogar esse jogo.
Na canção "BFF" (que significa isso?) há um refrão que lembra imenso a canção "Heaven" dos Psychedelic Furs. Os 80's parecem ter tido sempre uma grande importância na vossa música. Agora que parece que os 80's estão definitivamente na moda pensa que esse facto irá ajudar as pessoas a digerir melhor aquilo que fazem?
"BFF" quer dizer "os melhores amigos para sempre", é uma espécie de calão. Eu comecei a tocar em meados dos anos 80, por isso acho que esses anos me marcaram definitivamente. Os Furs foram de facto uma influência importante. Aprendi a tocar guitarra a ouvir os álbuns deles. Não se consegue apagar isso. Fica lá. Sempre gostei de algumas coisas dos anos 80's e continuo a gostar. Há ali muita coisa para descobrir e remexer, sons, etc. Foi uma época estranha na música, agora podemos roubar pequenas coisas e rirmo-nos um bocado… aqueles teclados pirosos. Mas se os 80's estão mesmo a voltar (será que foram a algum lado?) acho que isso não vai afectar a maneira como a nossa música será recebida. Posso estar certo, posso estar errado. Pode-se ouvir essas influências na nossa música, mas acho que está longe de ser óbvio. O nosso som é bastante GVSB, penso eu. Acho que temos a nossa cena.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 11)
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