GLUECIFER
Planeta dos Macacos
A cada disco que editam, os noruegueses Gluecifer dão mais um passo em frente na afirmação de um nome que por mera coincidência sempre andou na sombra dos Hellacopters. Com o novo álbum, "Basement Apes", a banda de Biff Malibu consegue não só apresentar algumas das suas melhores canções de sempre, mas também introduzir uma nova sonoridade que já havia dado sinais de vida no anterior "Tender is the Savage".
Depois de terem trabalhado com o produtor Daniel Rey, no álbum anterior, porque decidiram trabalhar com alguém que não será muito conhecido fora da Escandinávia?
Quando gravámos o "Tender is the Savage" utilizámos o Daniel Rey de entre uma lista de várias opções, porque nós gostamos muito do trabalho dele e na altura ele estava disponível. O Daniel fez um excelente trabalho nesse disco, mas para o "Basement Apes" decidimos trabalhar com um produtor norueguês porque quisemos dividir as sessões de gravação por um período de tempo maior, evitando a pressão das intermináveis sessões de gravação.
Depois de alguns anos a auto-produzirem os discos, chegaram finalmente à conclusão de que as bandas precisam de uma pessoa externa para filtrar as vossas ideias?
Pelo menos connosco funcionou. Não posso falar pelas outras bandas, mas penso que tudo depende do tipo de pessoas que fazem parte das bandas. Há quem prefira ter o controlo absoluto da gravação e há quem deixe esse trabalho para os outros.
Algo que faz com que o novo disco soe diferente dos outros é a curiosa escolha dos músicos convidados...
Pode parecer estranho mas não foi nada planeado. Apenas nos limitámos a telefonar a algumas pessoas que conhecíamos bem e que pensávamos que poderiam dar um contributo positivo às nossas músicas. Nós queriamos ter algumas partes de piano e de órgão neste disco, e como nenhum de nós domina esses intrumentos bem, pedimos a ajuda de quem sabe.
Apesar de parecer o contrário, muitas bandas escandinavas afirmam que não existe uma "cena escandinava". Qual é a vossa opinião sobre este assunto?
Para nós existe uma cena, mas penso que era muito mais forte há uns anos atrás. À medida que os anos foram passando as bandas escandinavas evoluiram em diferentes direcções, mas ainda assim vejo que a maioria delas ainda partilha a mesma atitude no que respeita à música rock.
Algo que parece evidente é o facto da maioria dos musicos escandinavos ter uma grande cultura musical em geral, e do rock em particular. Aí ensinam a história da música nas escolas?
Nalgumas até ensinam, mas a ideia que tenho é que os musicos escandinavos já ouviram muitos discos de rock e desde há muitos anos têm um grande interesse pela cultura rock.
Por coincidência, ou talvez não, os Gluecifer cresceram na sombra dos Hellacopters e acabaram por ter um rumo semelhante (ambas as bandas editaram pela White Jazz, SubPop e Man's Ruin, lançaram um split em conjunto "Respect the Rock" e acabaram por assinar por multinacionais). Apesar de tudo, parece notório que esta aparente rivalidade é traduzida num respeito mútuo...
Os Gluecifer e os Hellacopters sempre se deram bem, e acho que a maioria desses pontos em comum são apenas coincidências. Nós nunca olhámos muito para o desenvolvimento da carreira deles quando tivemos que tomar certas decisões, e acho que da parte deles também não aconteceu isso. Acima de tudo são duas bandas que cresceram juntas e que evoluiram de maneira semelhante.
Tal como os Hellacopters, os Gluecifer também editaram uma série de singles e gravaram algumas versões. Para quando uma compilação desse material?
Isso é um projecto que já temos há algum tempo. Agora seria impensável, até porque mudámos de editora, mas talvez para o ano consigamos editar uma compilação.
Como é o vosso processo de composição para cada disco? Costumam escrever à medida dos discos ou preferem ter material em excesso para poderem escolher os melhores temas?
Para o "Basement Apes" escrevemos vinte e cinco temas e só utilizámos doze no disco, o que quer dizer que mais de metade ficaram de fora. Para mim é importante escrever o maior número de canções possíveis para depois poder escolher as melhores. Às vezes a escolha é difícil, mas acabamos por conseguir um consenso entre todos. Como este disco é um pouco mais calmo que o "Tender ....
Os vossos concertos são sempre muito intensos e suados. Num deles vi que ficou de fato completo até ao final, apesar do calor ser insuportável...
Tem tudo a ver com estilo (risos). É uma questão visual que gosto de cumprir. Antigamente chegámos a vestir-nos de igual mas cansámo-nos dos "uniformes". Ao que parece, hoje em dia esse "look" está na moda.
O vídeo do primeiro single, "Easy Living", é um pouco estranho para uma banda rock e à primeira vista não tem muito a ver com a música...
Esse vídeo não foi pensado para ser assim, apenas evoluiu nesse sentido. Nós tivemos um orçamento baixo para o fazer mas ainda assim quizemos fazer algo diferente dos habituais vídeos de bandas rock. Pessoalmente, gosto muito do vídeo e acho que encaixa perfeitamente no tema da canção.
Por outro lado, os temas deste disco são muito mais "radio friendly" do que os dos álbuns anteriores. Isso foi deliberado?
Não. Nós só queriamos que as canções soassem da melhor maneira possível. Eu acho que há bons temas rock que facilmente poderiam passar na rádio. O problema é que a maioria das pessoas que dirigem as rádios ainda não perceberam isso. Se passarem os Gluecifer na rádio em programas genéricos será uma vitória. Essa mentalidade é algo que sempre tentámos combater.
Os Gluecifer têm vindo a crescer bastante nos últimos anos. Quando é que acharam que era tempo de deixar os empregos e concentrarem-se a tempo inteiro na banda?
Há cerca de três anos. Na altura tinhamos empregos estúpidos como mecânicos, engenheiros, empregados de uma fábrica de armas, e estava a ser difícil conciliar esses empregos com toda a actividade da banda. As digressões eram cada vez maiores e cada vez mais eramos solicitados para tocar. Fizemos as contas e achámos que compensava continuar a evoluir como banda.
O vosso som evoluiu de algo mais virado para o punk para uma sonoridade mais rock e soul. Era este o som que andavam à procura?
Tem tudo a ver com aquilo que ouvimos no momento. Não é nada premeditado nem estamos à procura de um som em especial. Guiamos a nossa criatividade de acordo com aquilo que nos influencia em determinada altura.
No entanto o tema "Little Man" foge por completo ao conceito geral do disco. Quiseram fazer uma experiência?
Esse tema foi composto numa altura complicada. Tinhamos consciência que o tema era bastante diferente dos outros, mas ainda assim entrou no disco porque queriamos incluir algo que destoasse dentro do disco. A localização dentro do disco também não foi casual.
O que acha da febre do rock que está a assolar Inglaterra? Não passará tudo de uma moda passageira?
Não sei, mas pelo menos o rock é uma moda mais interessante que o trance (risos).
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 11)
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