Entrevistas
GOOD RIDDANCE
ESPÍRITO NIVELADO
Com meia dúzia de álbuns no activo, os californianos Good Riddance praticam uma sonoridade que se inscreve no hardcore punk e recusam o rótulo de "banda política". "Symptoms Of A Leveling Spirit", sem dúvida o disco mais ecléctico da banda, editado neste ano de 2001, é um trabalho para conferir ao vivo já no próximo dia 13 de Outubro, no Paradise Garage em Lisboa. Russ Rankins, o mentor da banda, falou à Mondo Bizarre.

Pode relatar-nos como, onde e quando nasceram os Good Riddance?
A banda nasceu quando eu comecei a cantar para alguns amigos que estavam a aprender a tocar os seus instrumentos. Não levávamos aquilo muito a sério e isto prolongou-se por diversos anos até que o Luke se juntou à formação em 1990. Aos poucos, começámos a gravar canções originais e a procurar dar concertos e assinar um contrato com uma editora. Somos oriundos de Santa Cruz, na Califórnia, ainda que o nosso baterista actual, o David, viva em Filadélfia, Pensilvânia.

Quais são as vossas maiores influências musicais?
Muitas bandas veteranas como os Black Flag, The Adolescents, D.I., Dag Nasty, Decry, Articles Of Faith, Discharge e os Bad Religion.

A vossa editora, a Fat Wreck Chords, parece apoiar bastante as bandas que integram o seu catálogo. Como é que compilações como "Short Music For Short People" permitem um maior reconhecimento público da vossa música?
Penso que, pelo facto de algumas bandas assinadas pela Fat Wreck serem imensamente populares, estas compilações chegam a mais pessoas do que, talvez, um álbum dos Good Riddance. Isto introduz-nos, invariavelmente, a mais pessoas.

Quando, no ano passado, procuravam um novo baterista, depois da saída do Sean, havia uma advertência no site da vossa editora que dizia "consciência social e política é uma mais-valia". Até onde iriam pela política?
Embora estejamos (a vários níveis) socialmente alertados e as nossas letras tenham muitas vezes inclinações políticas, esforçamo-nos por demarcar a nossa banda de qualquer posição ou causa política. Deixamos que a música e as letras falem por si.

Entre a edição do vosso primeiro longa duração, "For God And Country", em 1994 e "Operation Phoenix" há dois anos, descreva-nos o salto conceptual e artístico (se é que considera que houve algum) que deram.
Penso que seria adequado descrever "For God And Country" sobretudo como um disco não formatado em termos conceptuais. Sendo o nosso primeiro trabalho, incluía muitas canções que faziam parte do nosso repertório há alguns anos, bem como canções escritas antes mesmo de entrarmos em estúdio. "Operation Phoenix", por outro lado, foi escrito quase na íntegra num período de alguns meses - um processo que, na minha opinião, proporcionou um certo trabalho de conceptualização, ainda que esses conceitos possam ou não ser verbalizados ou discutidos no seio da banda. Os nossos álbuns mais recentes parecem ter desenvolvido "conceitos" no percurso; as canções, as letras e o layout têm, muitas vezes, algo em comum, ainda que subtil ou, em alguns casos até mesmo não planeado, é inequívoco e, de alguma forma, apelativo.

"Operation Phoenix" arranca com 'Shadows Of Defeat'. De que é que trata esta canção? O impulso de sobreviver nas grandes cidades ("to grow old and die in this same fucking town") ou a estandardização do comportamento humano ("why wear a uniform")? Ou ambos?
Num universo puramente abstracto, diria que esses dois aspectos são exactamente do que trata a canção. Na verdade, contudo, o tema surgiu como resultado da minha própria depressão e psicose; a maior parte de "Operation Phoenix" foi escrita durante um período bastante negro para mim. As visões do mundo apontadas na questão foram filtradas pela minha escuridão interior e o resultado foi uma canção muito triste (mas popular).

Tal como outras bandas políticas, o vosso objectivo parece ser o de retaliar e atacar o âmago dos "polícias do mundo". De que forma constituem os Estados Unidos uma "ameaça terrorista"?
Antes de mais, queremos deixar claro que, em circunstância alguma, nos sentimos confortáveis sendo referidos como uma "banda política". Quanto à pergunta, uma rápida vista de olhos pelo comportamento dos Estados Unidos (abertamente ou de uma forma camuflada) nos assuntos mundiais nos últimos cinquenta anos devolve-nos uma série de "actos terroristas" cuidadosamente velados. Falo da invasão e subsequente bombardeamento do Sul do Vietname, Panamá, Granada, El Salvador e Nicarágua, bem como uma série de golpes orquestrados pelo nosso governo [NR: o governo dos Estados Unidos] por todo o mundo, sendo que o único propósito tem sido o de separar e/ou derrubar líderes socialistas moderados (habitualmente bastante populares e democraticamente eleitos) que recusam manter os seus países subservientes aos Estados Unidos. Muitos dos terroristas mais mortíferos a nível mundial são ensinados sob a tutela de organismos do governo dos Estados Unidos (Forças Armadas e agências secretas).

Os Good Riddance insistem em fazer ouvir a voz de protesto muito para além da música. Quais são as linhas directrizes por detrás de organizações que vocês apoiam, como "Food Not Bombs", "Earth First!" e "PETA"?
Os Good Riddance não estão associados nem se fazem representar por nenhuma dessas organizações. O dinheiro resultante da venda dos nossos álbuns é doado a várias organizações (PETA, Food Not Bombs, etc.) e, tanto quanto sei, não temos qualquer ligação com a Earth First. De qualquer modo, todas estas organizações têm web sites para quem estiver mais curioso.

Fale-nos melhor sobre o facto das receitas conseguidas com os vossos discos reverterem a favor de instituições de caridade.
É uma forma de tentarmos ser um pouco mais relevantes do que apenas "entretenimento".

The (International) Noise Conspiracy é uma banda sueca que lançou "Survival Sickness" no ano passado. No vídeo para 'The Reproduction Of Death', pode ler-se a mensagem "Capitalism Is Organized Crime". Já alguma vez ouviu falar deles? Pode "Shit-Talking Capitalists", do vosso álbum, "Operation Phoenix" relacionar-se com este assunto?
Já ouvi falar dessa banda. Ex-membros dos Refused, penso eu. "Shit-Talking Capitalism" refere-se à nossa própria experiência com várias atitudes dentro da "cena" com as quais nos cruzamos de tempo a tempo e que consideramos desagradáveis.

Acabaram de editar "Symptoms Of A Leveling Spirit". O que pode dizer-nos do novo disco?
Um novo baterista! É o nosso melhor trabalho até à data. Estou muito feliz com aquilo em que se tornou, sobretudo a parte das vocalizações. Penso que é o melhor que alguma vez cantei. Gosto também muito do trabalho artístico, do layout.

Porquê escolher os Psychedelic Furs para fazer uma versão?
Sou um grande, grande admirador do grupo. O Richard Butler é um dos meus cantores preferidos, uma grande influência para mim, e o resto da banda gostava muito da canção, por isso é que o fizemos.

Como tem sido a experiência de trabalhar com Craig (dos Sick Of It All) para os Creep Division [NR: projecto paralelo de Chuck e Russ]?
É muito divertido tocar este tipo de música com o Craig.

O que vos reserva o futuro mais próximo? Estamos ansiosos por vos vermos em Portugal!
Terminamos a nossa digressão norte-americana no início de Setembro e, após um curto período de descanso, vamos andar em digressão pela Europa em Setembro e Outubro e, sim, vamos tocar em Portugal pela primeira vez! Encontramo-nos lá.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 8)