GORDON GANO
A solo com Companhia
Antigo líder dos Violent Femmes, Gordon Gano, surge com "Hitting the Ground", o seu primeiro álbum a solo que é também a banda sonora do filme homónimo. Em "Hitting the Ground", Gano (que visita Portugal a 11 de Dezembro), surge acompanhado por uma série de nomes de culto da música popular anglo-saxónica. P.J. Harvey, John Cale, Lou Reed, Mary Lou Ford ou Frank Black são alguns dos artistas que acompanham Gano nesta sua curiosa estreia em nome próprio.
Hoje é o aniversário da mãe de Gordon Gano. Ou talvez não. O líder dos Violent Femmes não tem bem a certeza, mas tem algumas suspeitas, parcialmente confirmadas por um telefonema a um irmão anónimo que também está desconfiado. Ele até se ofereceu para fazer o primeiro telefonema de parabéns, arriscando-se a cometer uma gaffe familiar, de forma a passar palavra ao igualmente distraído parente.
E que raio tem isto a ver com os Violent Femmes? Nada - tal como o primeiro disco a solo de Gano. Quase toda a gente, que consegue melhorar a antena de um rádio com folha de alumínio, conhece Gano e os Violent Femmes e os seus primeiros, quase lendários, sucessos. "Add it Up" e "Blister in the Sun" têm feito parte das listas de temas mais tocados das rádios alternativas nos últimos 20 anos, sobrevivendo a todas as fases de “mope-rock” grunge, pop-punk e rap'n'roll. Os fãs também os continuam a devorar: o auto-intitulado disco de estreia foi o primeiro disco a chegar a platina sem ter entrado no top 200 da Billboard. Actualmente está a chegar à marca de tripla platina. Os Violent Femmes são claramente uma banda com alguma durabilidade.
Gano está receoso de receber o telefonema da mãe a meio da nossa conversa. Ele tem o serviço de chamada em espera preparado no seu apartamento em Nova Iorque e está pronto a adiar a entrevista para desejar votos de um feliz aniversário à sua mãe, mesmo que na altura errada. Por muito "geeky" que isto seja, não é bem o mesmo que compor versos nervosos sobre levar um carro emprestado, embebedar e drogar raparigas e entregar-se a apalpar maminhas num carro estacionado. E daí, provavelmente há muita coisa sobre Gano que não pode ser inferido do seu trabalho com os Violent Femmes.
"Hitting the Ground" , o seu álbum a solo, editado este ano, apresenta as profundezas do talento de Gano não sondadas no catálogo dos Violent Femmes, tão bem quanto a sua excitação sobre a confusão que rodeia o aniversário da sua mãe. Enquanto se estabelecia como pai fundador do geek rock, com canções agitadas sobre dúvidas adolescentes, ânsias sexuais e tudo o resto que fazia com que não ser fixe parecesse ser tão fixe - mesmo que apenas enquanto durava um disco - o crédito que ele merece como artista muitas vezes tem sido empurrado para a sombra da sua personagem geek-rock.
Mas isso vai mudar, porque "Hitting the Ground" é tudo menos o típico disco a solo. Em vez do habitual 'tipo com a sua guitarra' que seria de esperar, Gano compôs 10 canções, gravou apenas três sozinho e convidou uma multidão de ícones do rock alternativo para chegar e emprestar os seus talentos ao seu trabalho. O disco é marcado pela presença de toda a gente, desde Frank Black a Mary Lou Lord. Alguns cantores limitaram-se a picar o ponto, cantando as letras de Gano por cima da música já gravada (Linda Perry), outros acrescentaram os seus próprios adornos ao esqueleto da canção feito por Gano (John Cale, Lou Reed e Lord) e outros ainda tomaram as canções de Gano como ponto de partida e reinterpretaram-nas completamente (They Might Be Giants). Há apenas um fio condutor ao longo de "Hitting the Ground" e esse fio é a composição de Gano. Devia ser suficiente para provar que ele não é nada preguiçoso no que toca a escrever canções.
Apesar de tal parecer surpreendente para muitos, não deveria ser um grande choque. Talvez o desempenho nasal e idiossincrático de Gano ensombre a sua força enquanto compositor, ou talvez estejamos de tal forma habituados ao trabalho da sua banda após quase duas décadas, que é fácil deixar passar a suas capacidades musicais. "Hitting the Ground" ajuda a colocá-las na devida perspectiva.
E o facto de ser também a banda sonora de um filme com o mesmo nome que ainda não estreou, reforça ainda mais esse talento. Não são apenas cantigas feitas para cantarolar - o mais recente conjunto de canções de Gano nasceu para encaixar numa obra maior. Mesmo que consideradas separadamente do filme, são alguns dos melhores esforços de Gano desde o início dos Violent Femmes. Claro que enquadrar uma história em música não é exactamente novidade (já compôs três musicais, embora os seus compromissos com os Violent Femmes e os seus fãs o tenham distraído frequentemente dos seus projectos fora da banda).
"Ao longo dos anos têm havido tantas digressões, ou trabalho de estúdio com os Violent Femmes, de que não me arrependo, porque foi a isso que dediquei a maior parte da minha atenção e do meu interesse," diz ele. "Nos dois últimos anos, tenho estado mais tempo arredado da estrada para me dedicar a escrever outras coisas."
Para o vocalista que vinha a desenvolver a sua personagem nos Violent Femmes desde os tempos do liceu, abrandar nos últimos dois anos ajudou-o muito a abrir novas avenidas de oportunidades artísticas. Gano sempre se esforçou por alcançar mais e melhor, portanto talvez fosse altura para descansar. Também foi sempre um tanto ou quanto um arruaceiro, como equilíbrio para sua faceta de cavalo de trabalho. No liceu, as suas notas mereceram-lhe ser admitido na estudiosa National Honor Society (uma organização cujos membros são exclusivamente alunos com médias excelentes), isto até ter tocado uma versão primitiva de "Gimme the Car" numa das reuniões. As fortes insinuações sexuais da letra fizeram com que fosse suspenso da escola e custaram-lhe a pertença à organização. Não foram apenas as notas que beneficiaram do suor de Gano. Ele levou os Violent Femmes para uma rigorosa agenda de espectáculos e, nos últimos 20 anos, ainda arranjou tempo para ir para estúdio e gravar nove discos. E pelo meio também há um disco ao vivo.
Com esta de atitude "atira-te a eles", não é surpresa que Gano rapidamente se tenha visto engolido pelo projecto "Hitting the Ground". "A ideia para o filme era só escrever uma canção que fosse o tema do genérico inicial, talvez uma reprise no fim. Durante o processo, o realizador disse "Já pensaste numa canção para esta parte? Talvez pudesses escrever qualquer coisa para aqui.' Foi como uma bola de neve, é um desafio interessante e eu gosto disso."
Depois de ter composto mais do que apenas uma canção para o tema do filme, genérico final e alguma música incidental, começou a compreender que precisaria de outras vozes para dar corpo às suas músicas, se estas iam ser usadas num filme. Embora a ideia de um cantor para um filme tenha resultado com Jonathan Richman em 'Something About Mary' (Doidos por Mary), não era essa a direcção que Gano queria seguir. Algumas vezes, recrutar artistas era tão fácil quanto pegar na agenda e telefonar a velhos amigos no meio, mas outros tiveram que ser negociados através de camadas labirínticas de agentes e editoras discográficas. Contudo, no fim, Gano tinha conseguido juntar uma lista de artistas que eram fãs assumidos do seu trabalho e que, por isso, tinham um interesse genuíno em participar no projecto. A lista dos nomes que se juntaram ao projecto de Gano é prova suficiente do seu poder como compositor: PJ Harvey, Lou Reed e John Cale dos Velvet Underground, Frank Black e They Might Be Giants são apenas alguns dos convidados no disco.
Claro que Gano não se podia ter divertido mais, mesmo que estivesse a chatear administradores e ratos de biblioteca numa escandalosa reunião da NHS com um futuro clássico do rock. Por entre o zumbido de energia criativa, as suas canções foram transformadas. Foi-lhe dada a oportunidade de trabalhar lado a lado com figuras lendárias do meio musical. Por muitos anos de experiência que Gano já tenha, não está calejado ao ponto de não ser capaz de apreciar a sua posição.
"Há tantas coisas que podia contar!" diz com a excitação de um novo fã. "Uma delas foi trabalhar com o John Cale e estar com ele no estúdio. A forma como ele estava a compreender a canção e a tentar definir o que iria fazer com a mão esquerda e a linha do baixo que iria tocar no piano e juntar tudo. Ele não demorou muito tempo, mas é como estar a ouvir a canção a evoluir. Quase que se podia ouvi-lo a pensar, a juntar as diferentes peças."
Quaisquer que sejam os problemas que o filme "Hitting the Ground" enfrente ao tentar ser distribuído nas salas de cinema, certamente não haverá queixas relativas à sua banda sonora. Enquanto que a maior parte dos filmes oferece uma compilação desordenada de grandes sucessos, lados B e faixas esquisitas de uma multidão de compositores diferentes, "Hitting the Ground" pode gabar-se de ter uma composição coerente, porque vinda de uma só mente, e simplesmente muito boa. Ao passo que os últimos discos dos Violent Femmes tem sido irregulares e incertos, a única faixa para encher em "Hitting the Ground" é a reprise do tema do filme, um dueto de Gano e PJ Harvey, e mesmo essa é sólida que chegue para se lhe perdoar a redundância.
A explosão de energia criativa e os seus resultados impressionantes são o produto de escrever para um filme, diz Gano. Sendo uma direcção nova que ele explora, não é uma área em que está completamente verde, mesmo que ninguém conheça o seu esforço anterior.
"Agora que penso nisso, uma vez escrevi uma canção para o tema de um filme que nunca foi feito," disse com uma gargalhada. "Se calhar dou azar! Há boas canções que saem desse tipo de coisa. Disse algumas vezes, a alguns agentes: 'O plano é este: vocês dizem-me que há um grande projecto para um filme e que eles querem umas canções mais ou menos assim, sobre isto e aquilo. É só dizerem-me isso que eu escrevo as canções.' Ninguém está disposto a fazer isso."
Talvez devesse estar. Afinal, pode-se dizer que Gano trabalha melhor sob condições incertas. Nas canções fascinantes, mas amargas, do seu primeiro disco, quando a sua carreira ainda não estava garantida na novíssima cena do rock alternativo, no processo de escrever canções para outros gravarem, sem qualquer certeza de como iriam ficar e no centro de uma potencial crise de aniversário maternal, conseguindo ser inteligente, espirituoso e carismático enquanto conversa sobre a sua música. Gano está no seu melhor quando tem que se esforçar e "Hitting the Ground" tem muito esforço investido. Nota-se!
Matt Schild
Exclusivo: Aversion.com/Mondo Bizarre
Tradução: Frederico Mendes
(Mondo Bizarre # 13)
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