Entrevistas
GRAHAM COXON
DOCE-AMARGO
É o menino de óculos e ar enfiado dos Blur. Ou melhor, era. Graham Coxon já não está nas fileiras do grupo. Mas a sua carreira a solo mantêm-se. “Kiss Of Morning”, o seu quarto álbum, é entre a luz e as trevas, um misto de doçura e de tristeza.

Tendo passado uma grande parte da minha adolescência a admirar fotos dos Blur, nas quais o guitarrista Graham Coxon estava infalivelmente debruçado sobre a sua guitarra, com olhos fundos e expressão cinzenta, sempre pensei que ele era um homem taciturno. Tendo ouvido as suas gravações a solo pensei que ele poderia desejar a morte de alguém. Acima de tudo a sua. Mas quando me encontrei com ele, na parte de cima de um pub de Camden, ele mostrava-se tão irrequieto como um esquilo e tão sorridente como um macaco. Armado com demasiado café e talvez demasiados pensamentos, mas já não maníaco devido ao álcool, mostrou-se franco, pensativo e muito mais divertido do que eu esperava. O homem tem tomates. Também tem uma “bratwurst” nas ceroulas. Ah! O quê?

“Sim. A minha filha Pepper tem quase três anos e as suas frases estão a tornar-se bastante desenvolvidas. Outro dia, disse, sem nenhuma razão aparente, que o pai tinha uma salsicha nos calções. O que achei muito estranho.“

Ela tem as suas inclinações musicais?
“É uma boa tocadora de harmónica. Brinca com pandeiretas, dança. Sim, é muito musical. Tem uma memória muito fotográfica para a música e diria que isso é um traço meu.”
Então, o que há de novo na vida de Graham? Bem, tem um quarto álbum a solo, “Kiss Of Morning”, editado pelo sua própria editora, a Transcopic. Separou-se recentemente da mãe da sua filha. E também teve um esgotamento. Oh! E deixou de ser membro dos Blur, uma das bandas britânicas que mais discos vende. Mas vocês já sabem isto tudo.

Blur & Depressão & Criação

Ainda há pouco havia um enorme rebuliço nos média por já não estar nos Blur. Agora parece que o assunto morreu.
“Sim. Morreu, não morreu? Os sacanas não se importaram muito, pois não?” Quais sacanas - a banda ou a imprensa?
“A imprensa. Não me importava se tivessem relatado os factos correctamente. Mas nunca o fazem. ’Coxon com Esgotamento Abandonado por Blur’. Não é totalmente inexacto mas não é...”
A cadeia certa de acontecimentos?
“Não. Não é o tom certo.”
Quer dizer que está fora de contexto?
“Também não está fora de contexto. É como eu dizer que está de sapatilhas e tem uma camisola azul. Não traz propriamente sapatilhas [são sapatos de baseball], mas se não se olhar com atenção podem ser confundidos com sapatilhas, e a sua camisola pode ser azul [é turquesa]. Mas não o é realmente.“
Ponto de vista entendido. Então, não entra no próximo álbum dos Blur? “Não sei. Participo em algumas canções que gravámos para o álbum mas não sei se eles as vão usar.” Ri-se. “Provavelmente irão porque são as melhores partes.“
Vêem? Eu disse que ele tinha tomates. Sem perder tempo, sem modéstia ou arrogância, Graham Coxon vai direito ao assunto. Nesta altura suspeito que ele prefere deixar de falar da sua antiga banda, mas ele é surpreendentemente incentivador.
“Estou desejoso de ouvir o disco, ainda que ache que não vá gostar. De certo modo estou ansioso por ver os Blur ao vivo, porque, claro, nunca os vi. Mas claro que vai uma coisa estranha de ver porque, sendo um guitarrista, o que eu gostaria de ver nos Blur era o modo de tocar guitarra ... mas acho que isso não vai acontecer.” Faz uma pausa e volta a rir-se. “Acho que vai ser como ver os Thompson Twins.”
Como?
“Porque me parece que vai haver muita coisa artificial.”
Agora já me pode falar da sua separação dos Blur?
“Suponho que sim. Já o podia ter feito mas não queria. Aprendi que em qualquer tipo de separação ou algo semelhante, preciso de tempo para organizar a minha cabeça antes de comentar o assunto. E ainda não sei se a minha cabeça já se recompôs ou não. Vou ter que arriscar.”.
Aclara a garganta e olha contemplativamente. “Julgo que aprendi com os Blur que ou aqueles três são totalmente doidos, eu sou totalmente doido ou não sei quem é doido. Talvez seja eu. Talvez eu seja totalmente doido, ou talvez sejam eles.”
Podem ser todos doidos.
“Pois podemos. Estamos a falar de uma família muito disfuncional.”
A penúltima faixa de “Kiss Of Morning”, chama-se “Song For The Sick”. A letra inclui: “Didn’t take you long boy, to stop from being a friend / I hope you hear this song boy, cos’ I want your life to end / Die Taylor die, you ain’t no friend of mine / you’re a scum sucking shitty guy, so die Taylor die.”
A verdadeira identidade de Taylor está aberta a especulação mas o que é certo é que os sentimentos de Coxon são sentidos. A canção é espantosamente simples, oferecendo dois minutos de ácido antes do término do álbum. É também estranhamente arrebatadora.
Colocou essa faixa no fim do disco intencionalmente?
“Uhmmm, julgo que era o espaço dela. Não ia incluir essa canção no álbum porque tem fúria, é pessoal e talvez não fosse necessária. Mas depois, quando estava a ouvir o disco senti a sua falta. O álbum é sobre estados de espírito, o aceitar das nossas emoções, o aceitar de situações. Aceitar a raiva. Quer dizer, tudo é escrito a partir de sentimentos reais. Escrevi “Song For The Sick” quando não conseguia dormir por estar tão zangado. Estava em casa dos meus pais e às quatro da manhã arrastei-me para baixo e escrevi as letra num envelope que estava por ali. Não consegui dormir até o ter feito.“

Ganga & Couro & Nick Drake

O álbum parece tratar o material mais alegre de um modo mais autoconsciente do que a raiva. Vê a felicidade como uma musa superficial? “Não, não é superficial e apesar de haver material no álbum apresentado de um modo mais vivo, não diria que é sobre coisas alegres. Não penso que ’Escape Song’, apesar de ser mais brincalhona do que de certo modo fria e de aço, seja particularmente alegre. Julgo que ’Latte’ é muito importante porque é, apesar de eu estar muito sério quando a escrevi, de certo modo, muito ligeira. É sobre um estado sentimental surreal.”
“Eu tenho um rastilho emocional muito curto. Fico nervoso rapidamente, choro com facilidade e pode ser tudo despoletado por capitosos reclames de televisão ou por me arreliarem... ou por qualquer coisa. Ou como em ’Latte’, que parece que nos apaixonamos só porque alguém nos fez uma boa chávena de café.“
Quer dizer que actualmente prefere café a álcool?
“Há um ano que não bebo álcool.”
Sente-se melhor?
“MUITO melhor.”
Ainda ouve Nick Drake muitas vezes?
“Sim, regulamente. Comprei as suas ’Home Demos’ e tenho-as ouvido bastante.”
De que canções dele é que gosta mais?
‘Black-Eyes Dog’ E a versão dele de ’I’ve Been Smoking Too Long’, que eu próprio toco muitas vezes porque me parece importante. Nunca me canso de ’Fruit Tree’, dos seu lindíssimos arranjos, do seu sentimento, das cordas, do oboé. Certos pedaços dos arranjos de ’I Was Made To Love Magic’. O seu ensemble de instrumentos de sopro é espantoso. É complicado usar esse tipo de instrumentos mas o Nick Drake fez com que resultassem.“
Gosta mesmo de cantar?
“Adoro cantar! Sempre gostei de cantar.”
Ser-se sempre o cantor é a melhor coisa de se estar a solo?
Bem, é algo que ainda estou a desenvolver. Nunca serei um bom cantor mas não essa a questão. Numa crítica alguém disse que o Coxon canta absolutamente para nada e não entendo porque dizem isso. Eu não quero cantar para isso.“
Por que quer cantar?
“Pela minha saúde. Cantar porque posso. Essa foi sempre uma das melhores coisas dos discos do Smog. Ele provou-me que se pode fazer isto, que se pode construir um álbum com dez canções que soam como se tivesse sido feitas num barracão e que isso não importa. Foi um grande incentivo para mim. E acho que, de certo modo, os meus discos são um incentivo para outras pessoas. É uma treta ter que se fazer as coisas lustrosas e em grande num estúdio de gravação elegante.”
Uma vez disse que pensava que os Strokes iam salvar a música pop. Ainda pensa assim?
“Sim, estive a ouvi-los hoje de manhã quando me levantei. São boas canções. Já disse em tempos que as guitarras são a as armas da revolução, e continuo plenamente convencido de que a ganga e o couro continuam a ser as roupas da revolução. Não creio que exista boa música se não for feita por gente vestida de ganga ou de couro.“
Rio-me da piada dele. E ele ri-se comigo. Mas rapidamente me apercebo que ele está a falar a sério – até ele apanhar o casaco e me aperceber que ele lançou uma crítica a ele mesmo, pois está a usar tanto ganga como couro. Volta a dar uma risada abafada e murmura algo como ter que “ir já para casa e fazer mais música do caraças.”
“Mas a sério”, retorque, “Acho muito mais interessante se estiver a ver um monte de punks de pub grisalhos com a cabeça cheia de drogas a fazer uma data de porcarias. Isso é muito mais excitante do que as porcarias merdosas que andam a ser feitas em computadores. Não gosto da ideia de um monte de palermas ricos a mexerem em computadores e a produzirem música de palermas ricos.”
Os Strokes são acusados de ser palermas ricos.
“Bem, eu também sou um palerma rico. Mas, sabe, é... acho que os Strokes ainda comovem, talvez um dia deixem de comover por completo e comecem a fazer discos como os do David Bowie, mas até lá são ok. Começou com o Woody Guthrie e ainda continua.”

Sophie Heawood

Exclusivo Careless Talk Costs Lives/Mondo Bizarre

Tradução: Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 14)