GRANT LEE PHILIPS
ENCANTO E SIMPLICIDADE
Grant Lee Phillips fala sobre alguns aspectos da sua carreira e sobre “Virginia Creeper”, o último disco do autor, que só agora foi editado em Portugal. Grant Lee revelou-se tal qual a sua música, gentil, simpático e disponível. Ficou a promessa de um possível encontro com o público português, talvez lá para Outubro.
Aos vinte anos de idade, Grant Lee Phillips mudou-se de armas e bagagens para Los Angeles, cidade onde iniciou os seus estudos nocturnos numa escola de Cinema. Por essa altura dedicava à música apenas e só os seus curtos fins-de-semana A década de oitenta traria a Grant Lee o primeiro reconhecimento público da sua carreira musical com os Shiva Burlesque, um caldeirão de psicadelismo oriental, blues e country rock, onde já despontava o talento e versatilidade do artista. Mas seria a década de noventa a revelar a verdadeira força criativa de Grant Lee Phillips como força motriz principal dos Grant Lee Buffalo, banda que deixaria um importante legado, particularmente com “Fuzzy” e “Mighty Joe Moon”, respectivamente em 1993 e 1994. No pico da fúria grunge, a música dos Grant Lee Buffalo reavaliava o cenário de uma outra América e deixava marcas e pistas para os que se seguiram. Em 1998, os Grant Lee Buffalo desaparecem, altura em que o músico se decide por uma carreira a solo assinando “Ladies´ Love Oracle” como o seu primeiro disco em nome próprio. Vieram a seguir “Mobilize” e recentemente “Virginia Creeper”.
O que é que mudou na sua carreira desde que os Grant Lee Buffalo acabaram?
Mudou quase tudo. Com os Grant Lee Buffalo a situação era muito mais confortável porque fazíamos parte de uma editora grande, que nos proporcionava quase tudo e fazia todo o trabalho. Depois disso, na minha carreira a solo, passei a ter muito mais trabalho, passei a ter que fazer um pouco de tudo e a ter um papel muito mais interventivo, até fora do simples contexto de escrever música e canções. É um dos aspectos que muda quando se passa de um editora multinacional para uma editora independente, que obrigatoriamente acaba por provocar grandes mudanças na nossa vida.
Sente-se mais confortável agora, fora do fora do contexto de uma banda, para escrever as suas canções?
Bem, eu sempre escrevi sozinho, e é estranho porque sempre que tive a tentação, ou a curiosidade, de me sentar para escrever com outras pessoas deparei-me com um processo muito complicado. Digamos que as minhas canções são quase como uma conversa entre mim e uma parte escondida de mim mesmo, muito pessoais portanto. Mesmo considerando que uma banda é quase uma família e que por esse motivo deveria ser fácil escrever com as pessoas que a compõem e também por que se passa uma grande parte da nossa vida com elas.
Aparece na capa de “Mobilize” com um insinuante chapéu à Napoleão. Estava a tentar conquistar o mundo nessa altura?
(Risos) Essa fotografia foi tirada numa festa de máscaras onde eu apareci vestido de Napoleão. Na altura apenas pensei nisso como uma piada, mais tarde pensei mesmo em mudar de emprego e agradou-me de facto a ideia de me vir a tornar um grande imperador... sem ninguém para me fazer frente... excepto eu mesmo. (risos)
Numa determinada altura da sua vida sentiu-se dividido entre a música e o cinema. O que é que o fez escolher este caminho?
Bom, quando cheguei a Los Angeles para entrar para a escola de cinema, já tinha algum background não só nas artes visuais e no teatro, mas também na música. Los Angeles pareceu-me o sítio ideal para tocar com uma banda e a minha ambição e desejo de tocar já eram tão fortes, que acabei por deixar todas as outras coisas para trás e torná-las apenas recordações. De qualquer forma penso que existem muitos paralelos entre a música e o cinema, mesmo na música que faço penso que isso é evidente.
Concorda que “Virgínia Creeper” é o seu disco mais intimista e também o que está mais focado nas raízes de um imaginário mais tradicionalista?
Não tenho a certeza se este disco está focado nas raízes de alguma coisa. Concordo que “Virgínia Creeper” soa mais natural pela forma como foi gravado, pelos próprios arranjos e também pela utilização de mais instrumentos acústicos. Há certos aspectos e possibilidades da tecnologia que preferi deixar para trás, mesmo a guitarra e o piano eléctrico soam como uma espécie de relação humana, penso que as canções deste disco cresceram de uma forma quase solitária e o complemento que é dado pela banda é apenas o suficiente como suplemento às letras das canções. Por isso não há qualquer muro entre o ouvinte e as canções, justamente por considerar que este disco é basicamente uma relação humana e talvez por isso mais intimista.
Há em “Virgínia Creeper” inúmeras referências femininas, como “Calamity Jane”, “Mona Lisa” ou “Josephine Of The Swamps”. Há alguma razão especial para isso?
Nem por isso. É apenas mais uma das imensas possibilidades que se tem quando se faz um disco. E eu sempre escrevi sobre personagens e na voz de personagens. Quando se escreve canções para um disco a dada altura temos que nos distanciar do que estás a fazer, e aí começas a ver as coisas a submergir naturalmente. Esse sempre foi o caminho mais lógico para mim.
Porque escolheu “Hickory Wind” um clássico de Gram Parsons para fechar o seu novo disco?v
É uma boa questão. A resposta mais honesta é porque me apaixonei por essa canção. Digamos que cabe no imaginário das minhas próprias canções. A ideia surgiu quando ainda estava a trabalhar no disco, antes do estúdio e comecei a tocá-la com a Cindy Wasserman. Senti necessidade de a gravar apesar de saber que ainda vai ser tocada e gravada por muito mais pessoas dúzias e dúzias de vezes, então decidi tratá-la e adoptá-la como se fosse uma das minhas. É uma canção maravilhosa.
Paulo Coelho
(Mondo Bizarre # 19)
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