Entrevistas
GUTTERMOUTH
Demência Americana
Entrevistar os Guttermouth não é a tarefa fácil. Mark Adkins, o seu mentor, é uma das personagens mais alucinadas da cena hardcore da Califórnia. As suas letras são famosas por colocarem o dedo na ferida de qualquer um sem olharem às consequências. Amados por uns (os fãs) odiados por outros (as suas vítimas), ninguém fica indiferente depois de ouvir os Guttermouth. Como se tivesse acabado de tocar uns quantos speeds, Adkins explica os temas que fazem parte do novo álbum, “Gusto”.

CAMP FIRE GIRL #62: Não sei se aí tem escuteiras, mas aqui elas vendem bolos e coisas assim. Um dia eu tinha decido que ia escrever um tema sobre isso e como estava na secção de ervas medicinais de uma livraria reparei num livro sobre marijuana medicinal. Como por instinto o meu cérebro começou a trabalhar e escrevi esse tema em 10 minutos.

SCHOLARSHIP IN PUNK: Há uma certa dose de verdade nesse tema. Não conheço ninguém que tenha gostado de ira para a Universidade. Para os punks eram os piores anos da vida deles, e apesar de hoje em dia terem bons empregos e uma vida estável, olham para mim e para outros como eu que pegaram na vida pelos tomates e fazemos o que gostamos, com alguma inveja. Viajamos, e não temos que aturar as mulheres deles que são feias e gordas que apesar de terem 29 anos parecem ter 50. Tem a haver com a experiência de uma pessoa normal no liceu.

GUSTO: A definição de “gusto” é gosto artístico. Eu ouvi essa palavra num anúncio comercial em um homem diz numa voz monocórdica: filled with gusto. Imediatamente achei que devia escrever um tema que incorporasse essa palavra e todos aqueles cenários...

VACATION: Eu não escrevi esse tema foi o Derek (Davis) que escreveu, por isso não sei nada sobre ele. Apenas me limito a cantar... (risos)

CONTAGIOUS: Eu estava a ouvir os Kings of Convenience, porque normalmente costumo ir à loja de discos de um amigo meu e peço-lhe para me mostrar o que é que as pessoas estão a comprar no momento e assim saber o que as pessoas pensam... O tema é sobre o non sense. Eu invento tudo. Não somos uma banda política. Não tentamos mudar o mundo com a nossa música.

PEE IN THE SHOWER: É uma canção verdadeira. A minha namorada acha que a coisa mais obscena do mundo é fazer xixi no chuveiro... Toda a gente o faz, mas ninguém fala sobre isso...

WALK OF SHAME: Outro tema que também não escrevi... Se quiserem saber mais perguntem ao Derek quando tocarmos em Portugal. (risos)

MY TOWN: Esta já fui eu que escrevi. Sempre fui muito influenciado pela new wave e por bandas tipo B52’s. Agora tive a oportunidade de escrever um tema nesse estilo, com ideia de que a minha cidade é um sítio perfeito para viver. Obviamente que estou a ser irónico porque tudo na Califórnia do sul é muito falso. Mesmo que as pessoas não tenham dinheiro arranjam maneira de comprar coisas caras só para se mostrarem.

CONTRIBUTION: Mais uma historia verdadeira. É sobre um amigo meu que viveu toda a vida à custa dos pais. Até aos 32 faziam-lhe tudo. Deixavam-no viver em casa deles, lavavam-lhe a roupa, davam-lhe dinheiro sempre que precisava e nunca teve de tomar conta dele. De repente viu-se sozinho no mundo e não sabia como tomar conta de si. Arranjou uma namorada horrível, de quem teve uns filhos horríveis. Vivem todos da segurança social porque ninguém sabe tomar conta de ninguém. Eles pensam que lá porque estão vivos neste planeta o mundo está em dívida com eles. É um nojo...

FOOT-LONG: Eu estava a conduzir e a melodia surgiu-me na cabeça. Tenho um amigo que quando se embebedava costumava dizer ás raparigas: hey baby, I wanna put my hot dog in your bum. Nunca resultava, mas era muito engraçado...

LOOKING OUT FOR #1: Gosto muito deste tema. Escrevi-o em homenagem a uma relação amorosa que tive. Essa minha namorada não gostava que eu viajasse tanto, e não lhe agradava o facto de eu não me querer casar ou ter filhos. Ele achava-me um imbecil por causa disso e eu decidi escrever sobre ela... É outra canção que escrevi no carro. Esta entrevista está a fazer-me pensar... Acabei de me aperceber a quantidade de canções que escrevi no carro.

TWINS: Já a escrevi há uns cinco anos. Na altura era um preguiçoso, a minha casa e o meu carro estavam sempre desarrumados, e descobri alguns versos deste tema quando finalmente estava a arrumar alguns papeis. Cinco anos depois não sei em que estava a pensar na altura. De qualquer maneira tem piada cantar sobre gémeos siameses...

MY GIRLFRIEND: O título original desse tema era “tight girlfriend makes me sick when she’s sucking on my dick”. É uma homenagem disfarçada a uma namorada que eu tive. Mas essa tipa disse que me processava se eu escrevesse um tema sobre ela. Ela era uma daquelas meninas todas perfeitas que até ganhou o trofeu de Miss Long Beach e miss qualquer coisa. Disse que iria danificar a imagem dela...

LEMON WATER: Eu estava em Nova Iorque e toda a gente me dizia para não ir a Time Square porque era uma seca e estava cheia de turistas... Mas como eu também era um turista acabei por ir. Quando estava sentado num bar reparei que as pessoas todas entravam e pediam água com limão. Para mim foi tão perturbante porque no fundo aquilo era um bar e eu era um dos únicos a beber cerveja e a ficar bêbado que decidi escrever a letra num guardanapo...

Pedro Esteves
(Mondo Bizarre # 12)