THE HELLACOPTERS
Subindo ao Céu
Há oito anos que os suecos Hellacopters são vistos como os grandes embaixadores do rock da Escandinávia. Numa altura em que o rock atravessa uma fase de grande popularidade e onde guitarras sujas rimam com sucesso, os Hellacopters respondem com “By The Grace Of God” um disco de rock’n’roll limpo e sofisticado que pouco deve à trepidante sonoridade pop-punk-garage que está na moda. Kenny Höllansson, o simpático baixista do grupo, falou à Mondo Bizarre.
Os Hellacopters já têm oito anos de vida mas parece que foi ontem que “Supershit To The Max” foi editado. Como se sentem quando olham para trás?
É praticamente a mesma coisa. Estamos sempre ocupados a gravar ou em digressão. Por isso as coisas parecem sempre as mesmas desde o primeiro dia. É sempre: “tocar ao vivo e gravar, tocar outra vez ao vivo, voltar a gravar e voltar a tocar ao vivo...”. (risos) Têm sido oito anos muito divertidos.
Conhece o Nick Anderson desde há longos anos pequenos e acabou mesmo por ser roadie dele quando ele estava nos Entombed. O que costumavam ouvir quando eram mais novos? O que vos levou a serem músicos?
Conhecemo-nos no jardim infantil, teríamos aí uns seis anos. Já na altura tocávamos nos tachos e nas panelas e fazíamos os gestos de guitarras imaginárias ao som de alguns discos. Um pouco mais tarde, o Nick recebeu de presente uma bateria e como tinha uma guitarra acústica ensinou-me a tocar. O pai dele é motorista de camiões e aos domingos levava-nos a uma garagem onde podíamos ensaiar. Sempre ouvimos música e acho que sempre quisemos ser músicos. Eu e o Nick começámos por ouvir punk. Coisas como Ramones, Sex Pistols e bandas assim, mas depois o Nick começou a ouvir Metallica e Slayer enquanto eu comecei a ouvir mais punk americano como os Dead Kennedys, Bad Brains e Black Flag.
Os Hellacopters surgiram como um grupo paralelo aos Entombed. Quando é que decidiram concentrar-se a cem por cento na banda e tornar os Hellacopters numa prioridade?
Como tudo o que tem acontecido na vida dos Hellacopters não foi uma decisão pensada, simplesmente aconteceu. Quando demos conta estávamos em digressão a maior parte do ano, por isso nenhum de nós podia ter um emprego fixo. Ninguém contrata um tipo que está na estrada durante duzentos dias por ano. As coisas começaram a acontecer e acho que o Nick foi-se cansando dos Entombed. Ele sentia mais entusiasmo a tocar com os Hellacopters.
No início o vosso som era muito mais high energy rock’n’roll do que actualmente, já que optaram simplesmente por rock’n’roll Porque foram mudando de som?
Eu não vejo nenhuma mudança de som. Aliás tenho alguma dificuldade em encontrar uma banda que seja mais high energy do que nós. Deve haver bandas mais barulhentas e mais rápidas do que nós, como os Monarchs da Austrália e um par de bandas de Detroit, mas para além disso acho que somos das poucas bandas de high energy da actualidade.
Falemos um pouco do novo álbum. Na capa dos “High Visibility” a banda aparece com asas de anjo. O novo álbum chama-se “By The Grace Of God”. Estarão os Hellacopters a tornar-se uma banda religiosa? Porque escolheram esse título para o disco?
(risos) Não, não estamos a tornar-nos uma banda religiosa. Mas a religião e a música sempre trabalharam juntas. Acredito que a primeira música que existiu neste planeta era religiosa. Na criatividade existe sempre a mão de Deus. Existe uma história curta e uma história comprida por detrás da escolha do título. A curta é que vimos isso numa t-shirt. No entanto coloca-se sempre a questão: “e que t-shirt era essa?”. Nós estávamos em digressão com os Quadrajets, do Alabama, e o baterista deles tinha uma t-shirt que dizia “american by birth southern by the grace of god”. Não percebi qual era a piada de um tipo do Sul dos Estados Unidos usar essa t-shirt porque parecia demasiado sério. Mas depois achei-a gira e consegui que ele ma desse. Agora uso-a eu. Pelo menos na Suécia a ironia é maior. (risos). Daí o nome do disco. Ainda assim nós demos um significado diferente à frase, já que é mesmo “by the grace of God” que os Hellacopters ainda existem.
O que é que as composições do Boba Fet e do Robert Dahlquist acrescentaram ao som dos Hellacopters?
É uma pergunta difícil porque todas as canções deles soam como canções dos Hellacopters. No entanto têm um groove diferente da maioria dos temas do Nick.
O Chips K parece ser o produtor ideal para os Hellacopters. Quais são as principais diferenças entre ele e o Thomas Skogsberg?
Penso que é o facto do Chips trabalhar mais como um produtor do que o Thomas. Quando se trabalha com o Thomas ele consegue um som especial, sabe muito bem o que está a fazer e concentra-se bastante no seu trabalho. Por outro lado, se o Chips ouve uma coisa aparece sempre com uma ou duas ideias para melhorar o tema. Mesmo que seja retirar ou acrescentar alguma parte à música. Pode até ser um ritmo de pandeireta, ou uma pequena alteração da linha do baixo. Nesse aspecto ele tem um grande ouvido artístico e comunica muito bem com o Nick.
Qual é a influência de Chips no novo som da banda?
Penso que ele alargou algumas das coisas que fazíamos. Como produtor ele consegue captar o melhor de nós e isso é excelente.
“By The Garce Of God” é mais calmo e mais melódico que “High Visibility”. Acha que chegou a altura de abrandar as coisas?
Eu não vejo as coisas dessa maneira, apesar de termos percebido bastante cedo que havia alguma melancolia e escuridão neste disco. Quem está numa banda não pensa muito como é que um tema soa, é mais como se toca esse tema. Muita gente acha que cada disco que editamos é mais calmo que o anterior. Mas quando essas pessoa nos vêm ao vivo percebem que os temas são os mesmos de sempre e tocados da mesma maneira. Se no estúdio tivermos sorte, conseguimos dar uma maior dinâmica aos temas. Ao vivo soamos sempre da mesma maneira e os novos temas também.
O desenho da capa do disco parece denotar uma certa instabilidade…
Não acho. Quando gravamos o álbum tínhamos 22 temas e desse lote podíamos ter feito três discos diferentes. Podíamos ter feito um disco de up beat punk ou um disco depressivo e aborrecido ou podíamos fazer o que fizemos, ou seja, cobrir todos os estilos. Temos temas up beat, mid tempo boogie, rockers, down beat, etc. Das ideias que tínhamos acho que esta é a selecção mais “justa” e que ilustra o nosso espírito quando gravamos o álbum.
Durante anos os Hellacopters editaram pela White Jazz. “High Visibility”, lançado a dois anos, foi o vosso primeiro para a Universal. “By The Grace of God” também saiu pela Universal. Acha que valeu a pena terem assinado com a Universal?
Acima de tudo uma editora é uma editora. E é difícil dizer se valeu a pena ou não porque andaríamos na estrada, de autocarro, quer estivéssemos na White Jazz ou na Universal. Como banda fazemos o que sempre fizemos. O que se passa com a Universal é que, especialmente na Escandinávia, a Universal tem uma influência maior sobre as rádios, os canais de televisão e os outros media. Para nós isso funciona muito bem na Escandinávia, onde numa semana e meia já vendemos cerca de 20.000 cópias de “By The Grace Of God”. Para mim isso é fantástico mas difícil de acreditar porque nunca me tinha acontecido. Duvido que isso tivesse acontecido se não fosse a experiência das pessoas da Universal. Por outro lado nós somos uma banda fácil de vender na Suécia porque já existimos à tanto tempo. As pessoas já reconhecem o nosso nome e as rádios já nos dão uma certa credibilidade. Como disse anteriormente, sempre fizemos as nossas coisas e entretanto a Universal apareceu e fizeram o papel deles que é vender mais discos. Não sei de valeu a pena, mas pelo menos tenho um disco de ouro em casa. (risos).
No entanto, “High Visibility” foi editado nos Estados Unidos pela Gearhead, uma pequena editora pertencente à revista com o mesmo nome. Porquê?
Não sei se isso aconteceu por falta de vontade da Universal europeia porque era suposto eles fazerem com que o disco fosse editado na América, fosse na casa mãe ou numa das subsidiárias. Talvez os americanos não estivessem muito interessados. No entanto eu estava com esperança que o disco fosse editado pela Gearhead, porque o Mike LaVella tem feito muito por este tipo de música quer na América quer na Europa. Ele foi a pessoa que mostrou os Hives aos americanos, e com o dinheiro que ganhou das vendas dos discos dos Hives editou outra banda sueca chamada Demons. Ele trabalha de uma forma muito positiva com o pouco dinheiro que recebe dos discos.
E quanto a “By the Grace Of God”, sairá nos Estados Unidos pela Universal ou vai ser também editado pela Gearhead?
Não faço ideia. Do “High Visibility” só fizemos uma digressão americana, e gostava de fazer outra antes de poder dizer alguma coisa. De qualquer maneira gostava que o novo disco também fosse editado pela Gearhead. No entanto se o disco fosse editado pela Universal americana também seria uma boa solução já que talvez mais pessoas passassem a conhecer os Hellacopters, já que nem toda a gente conhece a Gearhead, e poderíamos fazer digressões a uma escala maior. E decerto que se o nosso nome crescesse isso iria ajudar a Gearhead a ficar conhecida e a vender os discos deles. Acima de tudo queremos continuar a tocar e a gravar o que queremos e acaba por não ter muita importância quem nos edita.
Uma das curiosidades do vosso contrato com a Universal é permitir a edição de singles por outras editoras. Até que ponto a edição de singles é importante para os Hellacopters? Quando sairá a segunda parte de “Cream of The Crap”, o CD que agrupa os vossos primeiros singles?
Os singles sempre tiveram um papel importante naquilo que nós nos tornamos. Já devemos ter uns 40 singles editados, e depois desta digressão vamos voltar a pegar nos masters dos singles para compilarmos o segundo volume do “Cream Of The Crap”.
Alguns dos vosso singles, em especial aqueles que se tornaram mais difíceis de se encontrar têm sido pirateados. O que pensa disso?
Por um lado é estúpido porque algumas pessoas pagam mais por esses discos do que o que nos custou a gravá-los. Acho que não vale a pena as pessoas gastarem 150 dólares por um single pois a música não é assim tão boa... No fundo são pessoas que estão a explorar os miúdos que gostam de música e essa é uma das razões porque editamos a compilação “Cream Of The Crap”. Se as pessoas não estiverem interessadas nos singles apenas por causa do vinil de cor ou por serem de tiragem limitada, então podem encontrar uma parte dos temas desses singles nessa compilação.
Mudemos de assunto. As letras dos vossos temas nunca aparecem nos discos. Porquê?
Se incluirmos as letras nos discos, as pessoas têm mais tendência para as analisarem do que para as ouvir. Se as pusermos no disco pode parecer um pouco pretensioso da nossa parte, tipo: “olhem o que temos para dizer”. E nós não somos assim, não temos esse tipo de atitude. Limitamo-nos a preencher as melodias com palavras. É claro que tentamos que essas palavras façam sentido mas nós somos uma banda de guitarras e as letras estão lá para acompanhar a música. Pessoalmente não acho que as letras sejam assim tão importante e penso que só confundem as pessoas. Se estas quiserem ouvir as letras com atenção e descobri-las na internet, tudo bem, mas nós não somos o Bob Dylan por isso não me parece que faça sentido termos as letras nos discos.
Ao longo da vossa carreira têm tido a possibilidade de tocar com alguns dos músicos e grupos que admiram. Qual a pessoa ou a banda que mais vos encantou?
Para ser franco penso que melhor foi quando estivemos em digressão com os Dictators e os Nomads. Foi a primeira vez em que achei que estávamos a fazer algo importante. Estávamos ainda no princípio e isso foi algo de grande para nós. Mais tarde quando tocámos com os Kiss ou os Black Sabbath também foi um pouco confuso porque estávamos a tocar em estádios. Depois fizemos parte de uma digressão pela Escandinávia que incluía também o Wayne Kramer, os Nomads e os Powder Monkeys , e que vai ficar na minha memória durante muito tempo.
Há pouco referiu que uma das primeiras banda que descobriu, juntamente com o Nick, foram os Ramones. Foi por isso que participaram recentemente num tributo aos Ramones? Eles foram assim tão importantes para vocês?
Muito importantes. Eles foram uma das primeiras bandas que ouvi. Os Ramones devem ser uma das maiores influências das bandas de guitarras. Não acredito que exista uma banda de guitarras que nunca tenha ouvido um disco dos Ramones. Como banda, o que fizeram e durante o tempo que o fizeram, são um grande exemplo para qualquer banda.
Acha que a existência de uma cena rock’n’roll tão activa na Escandinávia se deve ao caminho anteriormente traçado pelos Hanoi Rocks, The Nomads e Union Carbide Productions?
Sim. Essas três bandas influenciaram toda uma geração de músicos e isso ainda se nota hoje em dia. Os Union Carbide Productions transformaram-se nos Soundtracks Of Our Lives, os Nomads ainda existem e continuam a influenciar as novas gerações. Miúdos com quinze anos ouvem os Nomads como eu os ouvia quando tinha a mesma idade. Isso é óptimo!
E quanto aos Hellacopters, ao fim destes oito anos, até que ponto é que acham que são uma banda influente?
Não é algo em que pensemos muito ou tenhamos muito interesse que aconteça, mas quando tocamos tanto e por tantos sítios acredito que existam pessoas que nos vejam e queiram fazer uma banda à nossa imagem, e isso é interessante. Não acredito que aconteça isso com a Britney Spears (risos). Acho que é um aspecto muito importante da tradição de música ao vivo, o facto de se poder inspirar as pessoas.
Para terminar a pergunta “clássica” destes últimos meses: como vê esta eufórica “nova visibilidade” do rock’n’roll?
Prefiro que isso aconteça à desgraça que era (e ainda é) a MTV. Pelo menos é música de qualidade feita por pessoas e não por computadores. Prefiro ver isso em todo lado do que nu-metal ou a Britney Spears.
Hugo Moutinho e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 13)
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