Entrevistas
HOLLY GOLIGHTLY
BONECA RETRO
Holly Golightly anda há quase uma década a fazer discos que misturam a os blues, a folk, o garage-rock e muita, muita pose retro cheia de charme. O seu novo álbum, “Truly She Is None Other”, é mais sofisticado e pop do que os seus antecessores.

Pode parecer mentira, mas Holly Golightly (o nome da personagem principal de “Boneca de Luxo”, de Trumam Capote, que na verão cinematográfica de Blake Edwards é interpretada por Audrey Hepburn), é mesmo o nome desta inglesa de 37 anos. Entre muitas outras coisas, a sempre elegantemente vestida Holly, foi condutora de camiões e uma das Thee Headcoatees, uma “all-girl garage band” criada por Billy Childish. Um dia, ainda parte integrante das Headcoatees, Holly ganhou coragem e decidiu editar os seus próprios discos. Desde então lançou nove álbuns (oito de originais e um de versões), mantendo-se fiel à sua mistura de standars, versões de canções quase desconhecidas e originais de sabor antigo. E não, Holly Golightly não foi descoberta pelos White Stripes. Miss Golightly desfaz qualquer equívoco nas linhas que se seguem.

Quando é que começou a interessar-se por música?
Toquei piano e guitarra na escola mas fiquei muito frustrada porque não podia tocar rock’n’roll. Tocava muita música folk e piano clássico mas esse não era o tipo de barulho que eu queria fazer. Depois passei muitos anos sem tocar guitarra. Até que, um dia, tive um parceiro que tocava guitarra e como havia sempre muitas guitarras espalhadas pela casa, peguei numa delas e recomecei a tocar. Mas só comecei a escrever as minhas próprias canções aos 24 ou 25 anos.

Quando lançou o seu primeiro álbum as pessoas estavam à espera de uma coisa semelhante às Thee Headcoatees ou...
Sim, estavam à espera que eu soasse como elas, mas não soava. Algumas pessoas disseram-me que tinham gostado e que eu tinha feito um bom trabalho. Outras diziam: “Não é como as Headcoatees, não gosto.”. As reacções foram muito diferentes. Mas [o meu disco], por ser diferente, também agradou a muitas pessoas que nunca tinham ouvido falar das Headcoatees. Trouxe-me um tipo diferente de ouvintes.

Além das Headcoatees e da sua carreira a solo tem trabalhado com muita gente. Colaborou com Dan Melchior e cantou com os Mudhoney e os Rocket From The Crypt. O que retêm dessas experiências?
É muito lisonjeador quando nos pedem para fazermos algo mesmo que seja um pouco diferente do nosso próprio trabalho. Eu não gostava de fazer um concerto inteiro com canções dos Mudhoney ou dos Rocket From The Crypt, mas há alguns pontos de contacto e consigo detectar aquilo que é território comum e me permite ganhar algo. Fiz bastantes concertos com os Rocket From The Crypt e aprendi muito com eles sobre andar numa digressão a sério.

Como é que acabou a trabalhar com os White Stripes?
Conheci-os há muito tempo atrás. Estávamos na mesma editora, a Sympathy For The Record Industry. Vivi na costa Oeste dos Estados Unidos durante algum tempo, toquei muitas vezes com eles e, com o passar dos anos, tornámo-nos amigos. Mais tarde eles vieram aqui [a Inglaterra], fazer a sua primeira digressão e eu apresentei-os a algumas pessoas e mostrei-lhes alguns lugares. Um desses lugares foi o estúdio Toe Rag. Como somos amigos há muito tempo e eu estava no estúdio quando eles estavam a gravar [“Elephant”], e o Jack surgiu com aquela canção [“It’s True That We Love One Another”], acabou por ser uma coisa natural.

Gostou da canção? É uma bela maneira de fechar “Elephant”.
Gostei muito. Dá um toque diferente ao álbum.

O Toe Rag é o estúdio onde tem gravado todos os seus álbuns. O que a atrai naquele espaço? O material vintage, as pessoas que lá trabalham ou o facto de ser muito barato?
Eu e o Liam [Watson, o dono do Toe Rag] somos velhos amigos e quando eles abriram o estúdio fiz a contabilidade deles durante uns tempos. Um dia, depois de uma sessão de gravação de Mickey Hampshire [músico e produtor britânico, membro dos Milkshakes], reparei que tanto eu como ele tínhamos algum tempo livre. Foi tudo por brincadeira, por sermos amigos e nos encontrarmos ali os três. Vi o estúdio crescer e não gostava de gravar em nenhum outro lado. Eu e o Liam já nos conhecemos tão bem que durante as gravações já quase não precisamos de falar. Limitamo-nos a deixar as coisas correr.

Trabalha já há algum tempo com os músicos com que gravou “Truly She Is None Other”. Considera-os os acompanhantes perfeitos para o género de música que toca?
Mais uma vez, é um círculo de velhos amigos que entendem perfeitamente o que eu faço. Faço muitas coisas com outras pessoas e dou muitos concertos na América mas nem sempre os meus rapazes me acompanham, excepto o Bruce que toca bateria. Tenho mais dois músicos na Costa Oeste, que raramente tocam música eléctrica pois fazem parte de uma banda de bluegrass, e às vezes metade dos Greenhorns também toca comigo.

Como conheceu os seus músicos americanos?
Foi quando vivia na Costa Oeste. Estava a viver em São Francisco e eles também moravam na cidade. Um deles é do Texas e o outro da Pensilvânia. Eu editei um disco pela editora a que pertence a banda bluegrass deles e queria dar alguns concertos. Por isso, perguntei-lhes se queriam tocar comigo. Eles aceitaram mas foi uma coisa estranha e única porque eles nunca tinham tocado em salas maiores do que bares nem usado amplificadores.

É mais conhecida na América do que em Inglaterra, não é?
Totalmente! E porquê? Porque aqui eu não toco. (risos) É muito raro tocar aqui, mas também nunca tento marcar concertos por cá... A maioria dos sítios daqui onde eu gostava de tocar já fecharam. Durante 10 anos toquei uma vez por mês com as Thee Headcoatees, mas como tenho um emprego, sou responsável por uma instituição de assistência social, não perco tempo a procurar concertos por aqui. Se me convidarem, o que é raro, aceito.

Mas se tem um emprego, como faz para ir em digressão pela América?
Tiro dias. (risos) Trabalho a contratos que posso terminar e retomar quando me apetecer. (risos)

Sente que desde que cantou com os White Stripes as pessoas dão mais atenção à sua música?
Bem, pelo menos há mais pessoas a verem o meu nome na contracapa do álbum deles. Se isso levar uma mão cheia dessas pessoas a pegar nos meus discos quando os vêem nos escaparates, ou a compra-los, acho que foi uma boa exposição e não vejo nada de mal nisso. Por outro lado, acho que poucos fãs dos White Stripes gostarão daquilo que faço. Mas é possível que comprem um dos meus álbuns apenas porque eu entro no disco dos White Stripes. Pelo menos é o que eu faria, pois costumo comprar os discos das pessoas que cantam nos álbuns dos meus artistas favoritos.

“Truly She Is None Other” é um disco mais trabalhado a nível de detalhes do que os anteriores.
Quais são para si as maiores diferenças entre “The Main Attraction” e “Truly She Is None Other”? Tive que gravar este disco de modo diferente porque não tinha a possibilidade de o gravar em dias seguidos. Teve que ser um Sábado aqui, uma Quarta-Feira à noite acolá, etc. Isso permitiu-me ter mais tempo para me concentrar em cada uma das canções, uma vez que tive que as ir trabalhando individualmente, em vez de ir para o estúdio e fazer tudo de uma só vez. Por isso tive muito mais tempo para pensar no modo como as queria fazer. Acabou por haver canções de último minuto, mas muitas delas foram peças nas quais fui trabalhando ao longo dos anos. As versões foram escolhidas por serem canções que eu há muito desejava tocar e para as quais finalmente consegui tempo suficiente.

Tende a tocar muitas versões. Como as escolhe e quão importante é para si mostrá-las a quem as ouve?
Algumas versões são canções que eu adoro há anos. Muitas delas são totalmente obscuras e, que eu saiba, nunca foram versionadas. Com um bocadinho de sorte alguém há-de reparar nos créditos dos discos, de aperceber-se que essas canções não são minhas, de ir à procura dos originais e descobrir uma mão cheia de excelentes e ignorados músicos. Acaba por ser uma espécie de passa a palavra, de modo de divulgação de canções que considero interessantes. Mas as minhas versões são muito diferentes dos originais porque as toco como se das minhas próprias canções se tratasse.

Lorena Star
(Mondo Bizarre # 16)