HOT HOT HEAT
CALOR DO NORTE
“Make Up The Break Down”, o álbum que os Hot Hot Heat editaram no ano passado, e que tarda em chegar ao mercado nacional, é um disco quente, saltitante, pintalgado de vermelho vivo e amarelo dourado. A conversa com Paul Hawley, o baterista do grupo.
Aviso à navegação: o texto que se segue é uma brincadeira em torno do modo altivo como os americanos tendem a olhar para os canadianos. Escrito por um americano sobre uma banda canadiana, os Hot Hot Heat, é um exemplo do quão divertido falar de música pode ser.
Ó Canadá, por onde havemos de começar? OK, admitamos que, de vez em quando, os americanos vos dão como um dado adquirido. Por vezes até vos magoamos e até temos vergonha de admitir que tendemos a abusar. Sabemos que não é muito simpático da nossa parte fazer piadas sobre a vossa moeda e que as graçolas sobre os vossos penteados afectaram imenso o vosso subconsciente colectivo. E fomos longe demais quando roubámos as vossas equipas de hóquei em gelo. Mas estamos arrependidos.
Sim, estamos arrependidos de termos gozado com o campeonato de futebol canadiano, que agora reconhecemos estar à altura do campeonato de futebol americano. E os vossos sotaques? Já não os achamos parolos. Às vezes são giros, mas em geral são totalmente sexy. E os Sloan? Vocês têm razão. São muito mais pop que os Beatles alguma vez foram. E prometemos nem sequer falar do que se passa nas vossas costas: chamar-vos ferro de sininho, “giffertitea” e fazer anedotas sobre a terra dos canadianus, que só percebe quem é cidadão naturalizado dos Estados Unidos (e tem que se ter nascido aqui – e não no Dakota do Norte – para as compreender realmente). Estamos muito, muito arrependidos.
OK, pronto, apanharam-nos. Estamos a mentir. Nem nisso somos bons, pois não?
Mesmo assim continuam a aguentar connosco. Aliás, o mais certo é adorarem os yankees. Sim, devem adorar o etnocentrismo, as piadas patrioteiras e o imperialismo económico. Que mais poderia explicar a vossa dádiva dos Hot Hot Heat ao mundo? Não, os americanos não conseguem arrepender-se de serem completos idiotas, nem conseguem desculpar-se sinceramente pela poluição que a suas indústrias modernas e superpoderosas lançam para o vosso lado da fronteira. Isso nós já percebemos. Ou, pelo menos achamos que sim.
Aqui continuámos a desperdiçar gasolina nos nossos carrões, a entupir artérias e a carregar na celulite com as nossas refeições extra-calóricas, a mandar diplomaticamente o mundo civilizado à merda e a fazer todas as burrices ao nosso alcance. Afinal de contas, somos a única superpotência. Mandamos em tudo. Desenvolvemos a bomba atómica, o computador, os Strokes e os White Stripes. Viva a supremacia do Tio Sam.
Mas não, vocês têm estado silenciosamente a preparar-se para nos derrotar. Os Hot Hot Heat superam-nos na corrida ao armamento do rock’n’roll, que um exército de jornalistas musicais ingleses semi-analfabetos nos levou a crer que estava finalmente ganha. Não, a ameaça para a nova ordem mundial do rock que eles instituíram não vem deste lado dos lagos, mas do Norte. O disco “Make Up The Breakdown”, dos Hot Hot Heat, é tudo o que os americanos julgam poder produzir. Tem o lado rock cru dos Stripes e a atmosfera super-cool dos Strokes. Até se nota que mergulhou nos programas de rock britânicos, e os seus riffs e atitude vêm de todo o lado, dos Cure aos Rolling Stones. O travo pop desprende-se dos seus teclados e das suas harmonias vocais ao mesmo tempo que guitarras insistentes e importunas e ritmos cheios de garra pegam no lado sexy do rock, esmigalham-no e atiram-no de volta na nossa direcção. Esta é uma receita super cool e única.
“Sempre nos sentimos um pouco isolados”, diz Paul Hawley (bateria). “Em primeiro lugar, geograficamente, devido ao sítio de onde vimos. Lá não existe uma cena rock ou punk estabelecida. Há também o factor canadiano, do qual os europeus e os americanos já ouviram falar e que pode ser uma pau de dois bicos. Há bandas com as quais sentimos alguma familiaridade, como Moving Units e Radio 4, e gosto do que os Hives e os Strokes andam a fazer, mas não sei se nós somos como algum deles. Nós somos apenas uma banda.”
Dizer que os Hot Hot Heat (a Hawley juntam-se o vocalista/teclista Steve Bays, o baixista Dustin Hawthorne e o guitarrista Dante DeCaro) são apenas uma banda é como dizer que a Old Glory [N.R. Old Glory é o nome da bandeira dos Estados Unidos] é apenas uma bandeira. Ou dizer que o McDonalds é apenas uma multinacional assustadora e não tem respeito pela decência humana! Ou que a Courtney é apenas uma junkie egocêntrica que alimenta uma carreira em declínio! Desculpem mas é difícil não nos sentirmos orgulhosos dos feitos americanos. Tentamos não embaraçar países cuja maior realização é apenas um serviço nacional de saúde eficiente ou uma taxa de criminalidade que adoraríamos ter.
Os Hot Hot Heat são um tesouro nacional e a banda está por conta própria. É como se todos os marcos do rock – Strokes, Hives, Stripes e quem quer que seja -, levassem até aos Hot Hot Heat. Desta vez é certo e sabido que não estamos a mentir. O rock pode ser glorioso. Em especial quando se aventura por novos caminhos, um feito que os Hot Hot Heat conseguem ao mesmo tempo que soam estranhamente familiares, o que, se calhar, advém das inúmeras influências que lhes servem de inspiração.
“Saltita de mod rock para rock, para pop, para rock de estádio, para new wave e musica clássica, e grunge e música de dança.”, diz Hawley. “Temos gostos muito variados e não ouvimos as coisas por pertencer a um determinado género ou porque alguém nos disse que era cool. Não sei... quando nós os quatro nos juntamos para compor, as coisas são sempre diferentes.”
Ao contrário de muitos outros discos, “Make Up The Break Down” está livre de ter coisas só para encher. Talvez seja óbvio, mas, quando se tem um disco assim, é muito mais provável ter-se um disco fantástico entre mãos do que quando se tem um recheado com oito faixas de lixo.
“Temos consciência que muitos discos apenas têm uma boa canção, ou dois singles, e que o resto é palha e que as pessoas ficam lixadas porque gastaram dinheiro ou perderam tempo a descarregar a canção e depois soa mal”, refere Hawley. “Uma pessoa sente-se como que enganada pela banda, como se a banda, ao ter apenas um bom single, nos estivesse a atirar areia para os olhos. Nós não queremos fazer as pessoas sentirem-se assim.”
É claro que isso é relativamente mais fácil quando um álbum só tem 10 temas – um número anormalmente baixo uma vez que os quase 80 minutos de um CD dão às bandas mais espaço. É certo que um alinhamento curto é peculiar (se se quiser ser picuinhas também o é ter um baterista a dar uma entrevista), mas, quando os resultados são os aqui alcançados, isso é uma questão secundária.
Talvez devessemos esperar um desvio à norma por parte dos Hot Hot Heat. A banda já passou por muitas fases e o melhor é não nos prendermos à sua presente encarnação. Passaram de uma banda sem guitarras, livraram-se do vocalista que tinham e acabaram com o actual som sexy e rock que se ouve em “Make Up The Breakdown”. Ainda assim, a fluidez é quase um problema e teve que ser controlada para que “Make Up The Breakdown” não soasse demasiado fragmentado.
“Temos várias canções e ideias que havemos de usar um dia”, explica Hawley. “Acho que nos contivemos um bocado porque tínhamos demasiadas ideias. Se se usam demasiadas ideias, ou demasiadas canções, o álbum não soa como um todo e
fica-se com uma sensação esquisita quando se ouve. Fica sem mistério.”
E o que faz a América quando é confrontada com um grupo como os Hot Hot Heat? Bem, tenta rouba-los. A banda ainda vê a Columbia Britânica como a sua terra natal mas já faz parte da indústria musical americana, com um EP e um álbum na Sub Pop e, no futuro, na Warner, por quem assinaram no início de Outubro.
Para muitas das bandas o salto de uma pequena e pouco conhecida indie como a Ohev, que editou os primeiros álbuns dos Hot Hot Heat, para a Sub Pop seria o coroar de uma longa carreira. Neste caso é apenas mais uma fase de uma curta carreira. Não façam confusão: a banda saldou as suas dívidas com as pequenas editoras, mas isso não significa que seja menos apta para grandes voos.
“No que a isso diz respeito parece que estamos a avançar como devíamos, com tudo feito da maneira certa.”, diz Hawley. “Se recuar e olhar para o que está a acontecer, é de doidos. Se me falassem de uma banda que avançou tão depressa como nós o estamos a fazer, ou a quem tudo está a acontecer, diria que estavam a dar passos em falso. Sinto-me contente porque este tipo de coisas são raras e porque tem havido muita gente a acreditar em nós. Trabalhamos no duro para ter esse respeito e essa confiança.”
Bem, Canadá, entre a cabeça de alce e os Hot Hot Heat, nós, os parvos dos americanos, podemos finalmente gostar de ti. Podes não o saber, mas nós gostamos de ti. Como de um frágil meio-irmão mais novo que é alvo do nosso abuso. Sim, não é lá grande coisa, mas não ouvem o México queixar-se, pois não?
Matt Schilld
Exclusivo: Aversion.com/Mondo Bizarre
Tradução: Frederico Mendes e Raquel Pinheiro
Adaptação: Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 14)
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