Entrevistas
HOT WATER MUSIC
“Emo-ções” Fortes
O caminho percorrido pelos Hot Water Music está cheio de pedras e cardos. Em oito anos de vida conseguiram contornar obstáculos e vencer as barreiras que uma qualquer banda tem de superar. Depois de alguns anos passados em várias editoras pequenas, conquistaram o coração de Brett Gurewitz e agora passam a figurar no catálogo da Epitaph. Depois de "A Flight and a Crash" ter mostrado a vontade de chegar mais longe, "Caution" é a confirmação de que os Hot Water Music são uma das bandas mais emo-cionantes da actualidade. O baterista George Rebelo falou à Mondo Bizarre.

De onde vem o nome Hot Water Music?
É o título de um livro de Charles Bukowski, que o Chris (Wollard; voz-guitarra) estava a ler quando precisámos de um nome para a banda. Achámos que seria interessante porque não nos ligava a nada em especial e foi o único com o qual concordámos os quatro.

Como era a cena punk de Gainesville quando formaram a banda? Na altura a Florida era mais conhecida pela sua cena de death metal...
Nós vivemos a três horas de Tampa que era a capital do death metal, e Gainesville tinha uma boa cena de punk, liderada pelo No Idea - um fanzine que acabou por se tornar numa editora -, e por algumas bandas como os Radon e os Spoke que tocaram um pouco por todo o lado e gravaram alguns discos. Era um sítio que nos inspirava. Havia um clube punk rock por excelência chamado Hardback, onde toda a gente tocava e onde gravámos um disco ao vivo. Era uma cidade universitária bastante criativa, e foi aí que aprendemos como ser uma banda.

E como foram os primeiros passos fora da vossa cidade? Foi difícil arranjarem concertos noutras cidades e noutros estados?
Simplesmente compramos o “Book Your Own Fuckin’ Life” e marcamos a digressão. Esse foi o ponto de partida. Alguns concertos aconteceram, outros não. Conhecemos pessoas empenhadas que organizavam bons concertos e outras que só faziam as coisas para entrar nos concertos à borla. Foi duro mas muito divertido. Tínhamos entre 18 e 20 anos e para nós foi uma experiência nova porque nunca tínhamos estado fora da Florida e de repente estávamos a tocar na Califórnia.

Que bandas vos inspiraram para formar os Hot Water Music?
Nós tínhamos backgrounds diferentes. Eu gostava de Iron Maiden e bandas do estilo mas depois passei para o jazz. Não consumi punk rock até ao 11º ano. Vivia perto da cena mas nunca me interessei muito pelo punk, estava mais interessado no meu círculo de amigos, em praticar bateria e escrever algumas músicas. Não ia a muitos concertos nem percebia muito sobre a atitude punk. Houve muitas coisas que nos fizeram formar uma banda, mas a principal era o nosso amor pela música.

Normalmente os Hot Water Music são conotados com o movimento emocore. Concorda com esse “rótulo”?
Eu acho que é uma rótulo ridículo, nós somos uma banda de rock: temos um baterista um baixista, dois guitarristas e duas vozes. Provavelmente é por cantarmos sobre assuntos reais, com os quais lidamos no dia a dia, o que nos faz um pouco emocionais...

O tema “Remedy”, que abre “Caution”, o vosso novo álbum, começa com uma frase extremamente forte (“I need a remedy of diesel and dust, something I can taste with the things I can trust”) que se reflecte no resto do disco. Qual é a mensagem que tentam transmitir?
Há medida que vamos evoluindo como seres humanos somos confrontados com vários assuntos e situações que achamos que devem ser falados. O Chuck (Ragan; Voz-guitarra) ou o Chris seriam as pessoas mais indicadas para responder já que são eles que escrevem as letras. Basicamente as letras também podem ser uma maneira de ultrapassar um determinado problema. Acima de tudo queremos que as pessoas à nossa volta cresçam, seja mental ou espiritualmente. Depois dos nossos concertos muitas pessoas vêm ter connosco e falam de como algumas letras os ajudaram a ultrapassar determinados problemas, uma depressão, etc, que os nossos temas os ajudaram a recuperar a força necessária para ultrapassar as barreiras da vida. Eu sinto a mesma coisa que eles. Quando me sinto em baixo também preciso de algo que me anime e vou à procura dessa força na música ou nos meus amigos.

Como é que escrevem os vossos temas? Passam muito tempo a desenvolver os temas ou é algo mais instintivo?
Normalmente as coisas começam com uma ideia, é muito raro alguém aparecer com a música toda, e a partir daí trabalhamos à volta dessa ideia até acharmos que encontrou o caminho que queremos. Começamos sempre pela parte instrumental e depois acrescentamos as letras. Mas já houve alturas em que o Chris ou o Chuck apareceram primeiro com a linha vocal e depois acrescentaram as músicas. Para o último disco escrevemos muitos temas na estrada. Aproveitámos o sound check e os tempos mortos para escrever e desenvolver algumas ideias.

Alguém escreveu que tanto o álbum anterior, “A Flight And A Crash”, como o novo “Caution” traduzem na perfeição a “energia dos vossos concertos incendiários”. Era este o tipo de som que procuravam para os Hot Water Music?
Esse foi sempre o nosso objectivo. Até conhecermos o Brian McTernan, que produziu os dois últimos discos, nunca tínhamos conseguido passar para os discos a nossa energia ao vivo. Nos últimos dois álbuns passámos mais tempo em estúdio e o facto de também termos crescido como músicos e de nos sentirmos mais confortáveis em estúdio ajudou ao resultado final. O Brian sabe perfeitamente aquilo que queremos e como agora temos algum tempo e algum dinheiro para fazer as coisas bem feitas, isso traduz-se no resultado final dos discos. Nos outros álbuns não tínhamos tanto tempo para fazer as coisas. Gravávamos a bateria, o baixo, as guitarras e as vozes e misturávamos logo a seguir. Era tudo feito um bocado à pressa.

Quem desenhou o vosso logotipo?
Foi um amigo nosso chamado Scott Sinclair, ele é um artista fantástico. Quando o conhecemos ele andava numa escola de arte e gostava muito da banda. Fez-nos alguns desenhos que utilizamos, não apenas como logotipo mas também nas capas dos nossos discos.

As capas dos vossos discos são tão características que quase não é necessário olhar para o nome da banda...
Isso não foi premeditado mas ainda bem que acontece. O trabalho dele às vezes pode parecer um pouco estranho, mas é bom saber que as pessoas o identificam com o nome da banda.

Ele faz os desenhos a partir de uma ideia transmitida pela banda ou depois de ouvir os temas?
Na maior parte das vezes ele fala com o Chris e com o Chuck para perceber o conceito das letras e depois traduzir essas informações em imagens. Às vezes ele recebe uma gravação do disco, outras vezes não, mas penso que o mais importante são as pistas que o Chris e o Chuck lhe dão.

Depois de alguns anos em editoras pequenas assinaram pela Epitaph em 2000. Como é que as coisas aconteceram, já que os Hot Water Music não eram propriamente uma banda desconhecida?
Em 2000 nós fizemos parte da Warped Tour, e a pessoa que estava no stand da Epitaph, perguntou se não tínhamos material novo para ele ouvir já gostava do trabalho da banda. Passámos-lhe um CD com algumas demos que ele deu ao Brett Gurewitz. O Brett gostou tanto que dois dias depois estava num avião para vir falar connosco. Ele mostrou um interesse tão grande que nos fez sentir muito bem. E não nos deixou assinar o contrato sem antes conhecer-mos toda a equipa que trabalha na Epitaph, para que tivéssemos a certeza que nos iríamos sentir confortáveis a trabalhar com eles.

Provavelmente alguns dos vosso fãs mais ferrenhos chamaram-vos vendidos, só porque assinaram por uma editora da dimensão da Epitaph. Acha que com essa atitude as pessoas preferem que as bandas fiquem para sempre num círculo fechado de admiradores?
Eu acho que esse tipo de pessoas gostam de ter as bandas no bolso, e não querem que mais ninguém saiba da existência delas para sentirem que fazem parte de alguma coisa especial. Quando eu era apenas um fã de música ficava contente quando uma banda de que eu gostava crescia. Não acho que isso signifique que a banda se vendeu lá porque queremos os nossos discos nas lojas, melhores digressões e podermos gastar mais algum dinheiro na gravação dos discos para que soem da melhor forma possível.

A revista Magnet disse que eram a melhor banda punk do planeta e a Alternative Press teceu-vos grandes elogios. Acham que finalmente este tipo de música está a chegar a outro tipo de pessoas ou simplesmente as pessoas começaram a pegar nela por causa de bandas como os Jimmy Eat World, Promise Ring ou Rival Schools?
Isso acaba por ser normal. Qualquer banda de um estilo que se torna mais conhecida acaba por puxar outras bandas com eles. Durante muito tempo este era um estilo de música underground que se movia dentro dos fanzines mas com uma certa abertura dos media as coisas começaram a mudar.

Os Hot Water Music passam bastante tempo na estrada. Até que ponto é que isso é desgastante em termos emocionais, mesmo para uma banda que adora andar em digressão a maior parte do ano?
Este ano só tivemos cerca cinquenta dias sem concertos... O resto do ano estivemos sempre na estrada, por isso neste momento estamos a precisar de um intervalo a sério. Depois desta digressão vamos parar com os concertos durante três meses e aproveitar as férias para estar com a nossa família. Durante as digressões existem altos e baixos, mas eu adoro tocar ao vivo e adoro quando estamos em cima de um palco a receber toda aquela energia de quem está lá para nos ver. O reverso são os tempos mortos, que são um pouco aborrecidos, como passar-mos muitas horas a guiar, etc. Nós tentamos sempre combater o tédio lendo ou ouvindo música. São duas coisas que podemos facilmente fazer na carrinha e que nos ajudam a passar o tempo.

Em 1997 estiveram parados durante algum tempo. O que levou a esse intervalo?
Esse foi um dos grandes pontos de viragem na vida da banda. Foi um caso típico de desgaste emocional e físico. Na altura estávamos constantemente em digressão e chegou a uma altura em que já não sentíamos nada. Nós formámos a banda à volta da amizade que tínhamos uns pelos outros e nessa altura parecíamos uns estranhos. Parecia que os concertos se tinham tornado numa obrigação, num trabalho normal que tinha de ser feito para pagar as contas. Por isso decidimos parar, por acharmos que a amizade se estava a perder. Nós estávamos na Europa quando isso aconteceu e quando voltamos, passado um dia já estávamos todos no mesmo bar a beber e a divertirmo-nos. Foi uma daquelas situações em que o facto de termos atingido o limite das nossas forças se virou contra nós. Com esse intervalo aprendemos bastante como lidar uns com os outros. Tivemos que bater no fundo para perceber como são as pessoas que nos rodeiam. Quando voltamos estávamos mais fortes que nunca.

Ainda têm projectos paralelos à banda? Até que ponto é que as outras bandas em que tocam vos ajudam a descomprimir dos Hot Water Music?
Neste momento não tenho porque a minha outra banda acabou há pouco tempo, mas normalmente todos costumamos tocar com outros músicos. O Chris tem uma banda chamada The Crows, o Jason tem uma banda chamada United. O Chuck costuma fazer coisas acústicas e eu costumo tocar aqui e ali. Acima de tudo é uma boa maneira de crescermos como músicos, trocando experiências e aprendendo com outras pessoas.

Conseguem viver do que ganham com a banda?
Não é fácil porque temos que viajar muito para poder viver da música, mas é aquilo que queremos fazer. De qualquer maneira Gainesville é uma cidade barata e podemos ter uma vida confortável. Se vivêssemos em Nova Iorque ou noutro lugar provavelmente teríamos de ter empregos normais para pagar as contas e não poderíamos andar tanto tempo em digressão.

Ainda tratam pessoalmente de todos os aspectos relacionados com a banda ou já arranjaram um manager?
Curiosamente esta digressão é a primeira que fazemos com um manager. Até agora, o Jason era quem fazia de manager, mas chegou a um ponto em que se tornou demasiado pesado. Ele também compõe por isso deve concentrar-se nisso, a tocar baixo e a divertir-se. A banda requer cada vez mais atenção e as às vezes as coisas tornam-se muito stressantes. Ao arranjar-mos um manager aliviou-nos desse peso e faz com que nos possamos concentrar naquilo que temos de fazer. O nosso manager é um amigo nosso de longa data, e apesar de só estar connosco há dois meses está a tornar as coisas muito mais fáceis.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 13)