HOWE GELB
Enganar a Própria Mente
Howe Gelb esteve recentemente, e pela primeira vez, no nosso país. Trouxe-nos a sua singular capacidade de (des)construir canções de forma hábil e descontraída, fruto da forma como se deixa levar pela música. O concerto e o seu mais recente álbum a solo, “The Listener”, foram alguns dos motes da conversa.
Howe Gelb é uma grande referência no cenário musical alternativo (seja lá o que isso for), mantendo, desde há vinte anos a esta parte, uma prolífera carreira artística, que goza, contudo, de pouca visibilidade, o que não deixa de ser, segundo Gelb, o resultado das escolhas que cada um faz. Escolhas essas, que sempre respiraram originalidade e mistério nos Giant Sand, formação que iniciou com o já falecido Rainer Ptacek, e que desde há uns anos partilha com Joey Burns e John Convertino (também membros dos Calexico). Não são de descurar também as suas participações nos OP8 ou Band of Blacky Ranchette. Nem, tão pouco, as inúmeras colaborações com outros músicos, tendo sempre por base o deserto do Arizona. Tudo isto sempre com uma criativa carreira a solo em pano de fundo.
Porque chamou ao disco “The Listener”?
É para vocês, é bom chegar ao ouvinte, e também já tinha a capa do disco [N.R. a capa tem um desenho de um boneco de auscultadores]. (risos)
Considera “The Listener” o seu álbum mais espontâneo até à data, visto ter sido parcialmente gravado na Dinamarca com músicos que conheceu por acaso?
Conhece a palavra serendipismo? Significa o que quer que aconteça ao longo do caminho. Acho que há demasiado ego relacionado com fazer grandes planos, como se disséssemos que as coisas vão ser assim, que se pode controlar o destino. Mas pode-se desenvolver a consciência de que tudo vai correr bem, se deixarmos o destino controlar-nos.
Mas não existe pelo menos um momento em que o destino e os planos se confundem? Quando, por exemplo, toma a decisão de gravar um disco?
Sim, planeio sempre um pouquinho, mas esforço-me por não o fazer demasiado. Há algum tempo, por altura do terceiro ou quarto disco, comecei a desenvolver esta ideia. Notei que a minha forma favorita de tocar era tentando esquecer que estava a tocar, pois assim ficava excitado com a ideia de que o ia fazer. Tinha de me enganar a mim mesmo. Lembro-me de quando ia ver outras bandas, e, a um dado momento da noite, ficava excitado com tudo aquilo. Apetecia-me subir ao palco e tocar. Pensava, “esta banda é porreira mas quero mesmo subir àquele palco e ser eu a tocar”, pois sabia que mudaria ali qualquer coisa, que o faria de forma diferente. Mas nunca pude fazer isso. Então, pensei que podia usar esse sentimento de excitação nas noites em que sou eu a tocar, em vez de estar preocupado com os pormenores. Foi assim que comecei a tentar enganar-me a mim mesmo.
E decidiu aplicar essa ideia também aos discos?
Sim. Pensei que poderia aplicar isso aos discos. Ir para estúdio sem ter todas as canções escritas. Não ter medo de aceitar esse desafio, porque, nesses tempos, marcávamos sessões no estúdio limitadas em termos de tempo, e gravávamos os discos por algumas centenas de dólares. Ainda assim, tínhamos apenas um ou dois dias disponíveis para os gravar, porque não podíamos pagar mais que isso. Pensei que poderia arranjar outra forma de trabalhar, uma forma que não estava visível noutros discos que escutava, de outras pessoas. Quando era mais pequeno quis aprender a tocar piano porque via que toda a gente tocava guitarra. Pensei, “será que o mundo precisa de mais um guitarrista?”. Há tanta gente por aí empenhada em praticar, e se eu não o fizer?” A única solução para esta atitude é ser-se extremamente confiante. Tem que se acreditar que tudo vai correr bem. Quando comecei a trabalhar desta forma no estúdio, fi-lo inicialmente em apenas uma ou duas canções, e, gradualmente, fui fazendo isto com mais canções. Até que, em certos discos, consegui fazê-lo com todas as canções.
Como conheceu os músicos dinamarqueses que participaram em “The Listener”?
Um dia, fui com a minha família a um café-restaurante. Quando olhámos para o menu vimos que o sítio era demasiado caro para nós e viemo-nos embora. Algum tempo depois, um amigo disse-me que o tal café-restaurante passava Giant Sand quase todas as noites. Que, depois das dez da noite, depois do jantar, o dono do café se reunia com os amigos e passava Giant Sand.
Acredita no destino?
Acredito que a natureza tem uma fluência. Flui para um lado qualquer ainda que não saibamos para onde, como um rio que corre para o mar, ainda que cada pingo de água não saiba para onde se dirije.
Aquele meu amigo apresentou-me a um dos membros da banda dinamarquesa Under Byen, que costumava ir ao café-restaurante. Ele disse-me que iam tocar, e convidou-me para os ir ver. Eu fui e achei que eram bons. Conheci os restantes membros e descobri que todos eles conheciam os Giant Sand, e disse-lhes que talvez gostasse de gravar qualquer coisa. Então, comecei a ir tocar semanalmente ao café-restaurante para arranjar dinheiro para o meu jogo de póquer aos sábados, e para poder experimentar canções novas, pois estou sempre a compor coisas novas. Pensei que um concerto semanal me obrigaria a tocar e a compor canções novas e foi o que aconteceu. E tinha fãs que me iam ver e se estavam a habituar às canções. Então, uma rapariga disse que conhecia um estúdio nas traseiras da casa dum amigo dela. O estúdio era muito bom e lá gravámos umas canções.
Quando tempo esteve na Dinamarca?
Cinco meses. No estúdio estive apenas um dia e meio.
Teve saudades do deserto?
Não. Especialmente naquela altura, porque era Verão, e Tucson é muito quente nessa época do ano. Fico muito lento e nunca faço grande coisa. Notei que na Dinamarca fazia muito mais coisas. Passei muito tempo com o meu filho e adorei. Foi estranho, porque usava sweat-shirts em pleno Julho!
Notou grandes diferenças no modo de vida americano e dinamarquês?
Apercebi-me de que se tem a cabeça sempre cheia de coisas e de que quanto menos entenderes a língua, menos povoada ela fica. Há uma certa beleza em não perceberes o que as coisas querem dizer. Um pouco parecido com o tempo em que vivia no meio do deserto, antes de ter uma família. Não que não adore a família, mas é uma morte lenta e bela. Há muita distracção. Demoro imenso tempo a fazer uma canção, com os miúdos e tudo mais. Preciso de tempo para estar sozinho, o que nem sempre se proporciona. Na Dinamarca, quando andava nas ruas e não percebia as pessoas, sentia-me sozinho.
Mas está farto de viver no deserto?
Adorei passar aquele tempo na Dinamarca. Mas, no fundo, gostava era de voltar a viver mesmo no meio do deserto como antes. Estou é farto da cidade no deserto. Vivo em Tucson, onde as pessoas estão separadas, onde temos o deserto por todo o lado, até na areia e nos cactos do nosso quintal. Nunca chego a sentir falta do verde porque ando muito em digressão. Toda a gente fica chateada quando chove, mas eu adoro, porque sinto falta da chuva. Já vivi em Joshua Tree, sozinho. Noto que estar casado não faz bem parte da minha natureza, logo, terei de me esforçar para que resulte. Isto porque trabalho muito melhor sozinho. Mas aprendes a lidar com isso, e as coisas são melhores depois. Acho que não há outra forma de solucionares a questão, se acabares com outra pessoa acontecerá exactamente o mesmo. E os miúdos são tão engraçados...
Quando diz que acredita no destino, isso não será uma forma de justificar o absurdo?
Acredito mais no destino do que no ego a tomar controlo. Certas pessoas querem imensas coisas, tudo o que eu quero é... Não preciso de chegar a um destino. Eu gosto da própria viagem. Não tem nada a ver com o que está bem ou o que está mal. O que é certo, respeitável ou hediondo. Tem que se ser capaz de fazer isso. Com a idade não sei se serei capaz de o fazer, e é com isso que tenho andado preocupado ultimamente, porque as minhas costas andam a doer-me bastante. Isso está relacionado com a arte de te manteres vivo. Ou seja, tens de fazer dinheiro suficiente para poderes continuar. Como os tipos velhos, o Bob Dylan e os Rolling Stones, que continuam a tocar, podendo assegurar a sua subsistência.
Não acha que existe uma certa hipocrisia nisso?
Não. De certa forma, eles como que conseguiram comprar, eliminar, o processo de erosão. Está relacionado com a forma como viajam, com os locais onde ficam. Sentes sempre algo a deteriorar-se. O difícil está em continuar, custe o que custar, sem se sentir esse peso. O que quero dizer é: à medida que envelheces tens que fazer uma certa porção de bom trabalho, que cative um determinado número de pessoas e que te permita continuar a trabalhar. Mas, ao mesmo tempo, não quero fazer nada que seja para agradar só aos outros. Tem que ser algo que eu próprio ache bom. Isto porque não gosto da maior parte das coisas que oiço na rádio ou na MTV. E são essas coisas que geralmente são muito populares.
Mas não censura esse tipo de música?
Não. É todo um outro assunto, um outro negócio. Não considero que um seja melhor que o outro. Apenas penso que se deve considerar aquilo que realmente se quer fazer, o que é que te faz feliz e te satisfaz. Esse tipo de música não tem que ser só cinismo ou puro marketing. Há pessoas que parecem ficar de facto felizes a ouvir esse tipo de música, e isso é tudo o que interessa.
Voltemos a “The Listener”. Como foi cantar “Lying There”, disco com a sua mulher?
Foi óptimo, muito bom. Foi engraçado pô-la a trabalhar daquela forma. Eu gosto muito da voz dela. O melhor seria gravar um disco à volta da voz dela, para que tivesse de vir comigo em digressão.
Considera “The Listener” um disco alegre?
O mais feliz que consegui fazer, com ritmos alegres.
Com um gostinho pelo tango?
Sim, adoro esse tipo de ritmos de piano, e raramente os oiço por aí, daí que os tenha experimentado neste disco. Gosto muito de ritmos cubanos, dessa abordagem ao piano. Parece que se toca a si mesmo, tem muito movimento.
Há pouco falava no calor do deserto. O calor influencia muito o seu ritmo de trabalho?
Sim, sou muito preguiçoso. Tenho de me enganar a mim mesmo em vez de arranjar uma forte disciplina, no sentido de teres de fazer isto ou aquilo. Aprendi isso no póquer. O póquer lida com os piores elementos da natureza humana: mentir, enganar, ganância, dinheiro, competição, ego. É tudo horrível. Mas existem duas coisas muito boas. Uma é que nos sentimos daquela forma, em vez de agirmos daquela forma. Mente-se e faz-se tudo aquilo, mas genuinamente. A outra, a que mais me fascina, é que se fica entusiasmado de olhar para um baralho de cartas. As batidas cardíacas aumentam, sente-se qualquer coisa na pele. Isso chateia-me até certo ponto, e tento convencer-me a não voltar a jogar. Porque, por exemplo, quando bebo café, às tantas até me enjoa o facto de ficar nervoso. Mas é o café que provoca aquele efeito. No póquer não, está tudo na tua cabeça. É isso que me fascina.
Os símbolos provocarem esse efeito?
Exactamente! São símbolos e os símbolos não têm significado. A não ser que se diga à mente o que eles significam. Pode-se aplicá-lo então a outras coisas. Podemos assim enganar-nos a nós próprios. Mas o simples facto de o sabermos serve de ensinamento. Não vou dar nenhum exemplo, porque cada um tem de arranjar os seus próprios exemplos.
E não tende a desconstruir isso?
Sim, mas vai-se vai melhorando cada vez mais. Quanto mais se joga póquer, mais significado têm aqueles símbolos. Fica fora do nosso controlo. Disse, há pouco, que no início tentava esquecer que ia tocar. Agora tento-me esquecer do que são as músicas, o que quero tocar. Quero subir ao palco e tocá-las como se fosse a primeira vez. E agora o que acaba por acontecer, e que e está para além do meu controlo, é que isso acontece por si mesmo. Já não tento esquecer, esqueço-me de facto.
Como é que o “Shiver” dos Giant Sand acabou por fazer parte dum anúncio da Coca-Cola?
O engraçado em relação a isso é que eu não concordei, mas achei porreiro. A Thrill Jockey, [N.R. editora dos Giant Sand] tinha-me perguntado, há muito tempo, o que eu achava do facto da minha música ser utilizada em anúncios ou filmes. Disse-lhes que estivessem à vontade. Até porque os anúncios nunca iriam surgir, e adoraria fazer música para filmes. Um dia, ligaram-me a dizer, um pouco a medo: “temos notícias para ti, uma das tuas canções está num anúncio”. Lembro-me que isso coincidiu com a fase em que andava com problemas de relacionamento com o Joey [Burns] e o John [Convertino], e não sabia muito bem o que fazer. Eles estavam-se a safar muito bem com os Calexico e sentia-me um pouco posto de parte. Sentia que tinha de recomeçar. Perguntei qual era a canção que tinha sido utilizada, mas não me souberam dizer, pois eles arranjam uma espécie de agência intermediária para fazer o negócio com a editora, nunca o fazem directamente. Dizem quanto oferecem por uma determinada canção, e essa agência comunica à editora. E nunca confirmaram à editora que o negócio estava fechado. O anúncio, de certa forma, saiu sem que finalizassem o acordo. Fiquei estupefacto quando me disseram que era um anúncio da Coca-Cola e que tinha sido o “Shiver” a canção escolhida. E eu fiquei muito contente, porque o John e o Joey não tinham tocado de todo nessa canção.
Vingança? (risos)
Grande vingança. (risos) Essa canção foi toda feita entre mim e o Kevin Salem [N.R. um reputado cantautor norte-americano]. Lembro-me de, quando a cortámos com o John e o Joey, ter pensado que a canção poderia ficar melhor. Mas eles não a puderam melhorar, pois tinham ido em digressão com os Calexico. E, então, o Kevin, mesmo sem eu lhe pedir, gravou três versões da canção. Melhorou uma delas e enviou-ma de volta. Lembro-me de pensar que estava muito boa. Ele fez tudo. Eu apenas tive de pôr a minha guitarrinha e as vozes. É engraçado para um compositor ver alguém reconstruir uma canção sua. Quando o John voltou, para tocar a parte de bateria, ficou chateado. Foi uma situação impossível. Eu fiquei danado por ele se ter ido embora e, depois, ele quando volta fica chateado. É de doidos! Parece um casamento. (risos) Depois, como que para provar que eu estava certo, a canção tinha ficado melhor com a versão do Kevin. Uma pequena vitória. (risos) Foi bom! Além disso, quando cresci, a música dos anúncios era muito pior. Um terror. Não era apelativa para ninguém que eu conhecesse. Agora é mais colectivo, sentes-te parte da fábrica. Há ainda uma diferença entre cantar um jingle e veres uma canção tua ser utilizada. Eu não escrevi uma canção sobre como é bom beber Coca-Cola. Como nem consigo fazer uma canção com um refrão para passar na rádio, não iria fazer uma canção para um anúncio da Coca-Cola. Faço aquilo que faço e não me importo que vão buscar um fragmento duma canção minha para utilizarem num anúncio.
Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 15)
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