Entrevistas
THE HYDROMATICS
TRÊS ACORDES E UMA NUVEM DE FUMO
Desde há 30 anos que Scott Morgan é um nome de culto na cena rock'n'roll de Detroit. A propósito da edição de "Powerglide", o segundo álbum dos Hydromatics - banda formada em conjunto com Nicke Anderson, dos Hellacopters - a Mondo Bizarre falou com uma das lendas vivas do rock.

Começando nos anos sessenta, Scott Morgan liderou os psicadelicos The Rationals, que partilharam palcos com os MC5 e os Stooges. Nos anos setenta formou os Sonic's Rendezvous Band (SRB), onde militava tambem Fred "Sonic" Smith, dos MC5, e após a dissolução destes os Scott's Pirates e a Scott Morgan Band. Já nos anos noventa esteve nos obscuros Dodge Main, com Wayne Kramer (outro MC5) e Deniz Tek (Radio Birdman). O seu último projecto, e o melhor desde os dias da Sonic's Rendezvous Band, responde pelo nome The Hydromatics. Por alturas do primeiro álbum, "Parts Unknown", contavam com Nicke Anderson, dos Hellacopters, na bateria, e dois elementos dos holandeses The Nitwitz. Para o novo "Powerglide", e porque a agenda dos Hellacopters não lhe dá descanso, Nicke teve de ser substituído por outro músico holandês. A mistura de high energy rcock'n'roll com soul continua, no entanto, altamente recomendável!

Como surgiu a ideia de formar os Hydromatics com o Nicke dos Hellacopters? É verdade que inicialmente apenas queriam regravar alguns clássicos dos Sonic's Rendezvous Band com uma produção mais adequada?
Conheci os Hellacopters em Nova Iorque em Setembro de 1998. Tocámos juntos em alguns concertos e fizemos ainda uma sessão de gravação com o produtor Daniel Ray no estúdio Baby Monster. Daí resultou o tema "Downright Blue", incluído no single editado pela SubPop, tendo sido também incluído na compilação de singles dos Hellacopters, "Cream Of The Crap", editada este ano. Quando eles voltaram aos Estados Unidos, em Dezembro desse ano, eu e a minha namorada, Maureen, fomos em digressão com eles durante alguns dias. O Nicke Hellacopter chamou o Tony Slug de Chicago e sugeriu que fizéssemos um disco juntos. A sessão foi marcada para Fevereiro seguinte no estúdio Yland, em Amesterdão, com o Evert Kaatee e o Theo Brouwer dos Nitwitz. O Nicke e o Tony queriam gravar algum material dos Sonic's Rendezvous Band que nunca tinha sequer chegado ao estúdio e escrevemos também dois temas novos para preencher o resto do álbum. Foi também através dele que conseguimos um contrato com a White Jazz Records de Estocolmo.

Como foi trabalhar com ele?
O Nicke e eu entedemo-nos bem desde o início. Ele e o resto da banda mantiveram-se em contacto desde então. Eu nem sabia que ele tocava bateria até ele dizer que queria ser o baterista... Claro que ele também compôs canções, tocou guitarra e co-produziu. O Nicke teve que abandonar o projecto porque era impossível dividir o seu tempo entre as duas bandas, já que os Hellacopters têm uma agenda muito preenchida. A última vez que o vi foi quando os Hydromatics tocaram na Suécia, em Outubro. Ele e o Strings foram DJs no nosso concerto e passaram imensa música soul que têm vindo a coleccionar. Agora são os Soul Brothers.

O vosso primeiro álbum para a White Jazz incluía diversas canções dos SRB. Que temas eram de facto dos SBR? Como foram escritos os restantes temas, foram compostos por todos os membros dos Hydromatics ou era material antigo que nunca tinham utilizado?
Os temas dos SBR eram o "Earhty", "Dangerous", "Heaven" e o "Getting There is Half The Fun". O "Baby Won't Ya" é uma versão dos MC5 do "High Time". E o tema "7 Come 11" é do Ricky Carter dos Weathervanes". Ele era um amigo nosso que morreu num desastre de automóvel uns anos antes das sessões começarem. Originalmente era um tema country rock que alterámos de forma a se enquadrar na sonoridade da nossa banda. Os Horns acrescentaram também imensas coisas a essas duas faixas, o que fez o "Baby Won't Ya" soar como se tivesse sido retirada do "High Time". Para além disso, cada um de nós trouxe dois temas novos para gravarmos. O Nicke e o Tony apenas tinham música e só completaram as letras aqui em Amesterdão.

A versão de "Baby Wont't Ya", é um tributo à cidade de Detroit?
Quando o Fred "Sonic" Smith e eu estávamos ainda nos SRB, ele escreveu a letra do "Baby Won't Ya". Sempre gostei muito dessa canção e fiquei contente por ter a oportunidade de a gravar, porque segue a mesma linha do "Baby Let Me Follow You Down", uma velha canção de blues. Tudo aquilo que fazemos é um tributo à música de Detroit, e isso inclui os MC5.

Tanto no primeiro como no segundo disco dos Hydromatics, está presente uma forte componente soul. Isso está de algum modo relacionado com a influência da Motown? Nos anos setenta muitos músicos "sofreram" essa influência.
Sim, Detroit sofre imensas influências de música negra. Tudo começou realmente quando a empresa Ford Motor começou a oferecer cinco dólares por dia a quem trabalhasse nas suas fábricas de Detroit. As pessoas afro-americanas mudaram-se para aqui por causa desses empregos, e tornaram-se a classe média desta região. A cena de jazz, desde o swing ao bebop, floresceu muito ao que se seguiu a cena de blues. Desenvolveu-se para o rhythm & blues nos anos 50, e posteriormente em soul, quando a Motown começou em 1960. Recomendaria um livro intitulado "Before Motown" (University of Michigan Press), de Lars Bjorn e Jim Gallert. Este diz-nos como a sonoridade da Motown se formou, os Funk Brothers, os músicos das sessões da Motown, eram todos músicos de jazz locais. Toda a música de Detroit, incluindo os The Rationals, os MC5, os Stooges, o Mitch Ryder and The Detroit Wheels e o Bob Seger, possuíam fortes influências de música negra. Nos Hydromatics levámos essa influência mais longe ao adicionarmos metais e vozes femininas no novo disco. A música soul tem sido uma enorme influência para mim desde a altura em que pertencia aos Rationals até agora.

Em "Powerglide" incluiram um chamado "RIP R'N'R". Acha mesmo que o rock está morto?
Claro que sim, embora esteja sempre a renascer. A ideia é mesmo essa, escrever uma verdadeira canção de rock'n'roll, com todas as influências do rock desde os anos cinquenta, e dizer o que se passa. "The corporation put you in your grave" (a corporação colocou-te na tua sepultura). Deu conta da referência ao "Summertime Blues" de Buddy Holy em "You got to fade away"? E a "It will stand" dos The Showmen? A indústria continua a dizer que o rock está a voltar, mas na maioria dos casos não se verifica, a não ser que se tenha em conta umas quantas bandas como os Hellacopters, os Zen Guerrilla, e algumas bandas independentes, especialmente de Sidney, na Austrália e da Escandinávia. Mas isto seguramente não ocorre às grandes editoras.

No novo disco ha alguma canção até aqui desconhecida dos SRB?
Não gravámos nada que não tenha sido lançado nos álbuns ao vivo editados pela Mack-Aborn. Penso que essa situação se possa contudo alterar no próximo disco. No entanto há uma faixa escondida no "Powerglide"…

Está a falar de "Starvin"?
Sim, esse é um tema que escrevi quando estava a tentar compôr material para mim próprio ou para os Hellacopters. Foi um tema muito diferente que acabou por surgir. Quando gravámos o "Powerglide" sugeri a possibilidade de o incluirmos como faixa bónus, single ou lado B. Tive mesmo de convencer a banda de que o poderíamos mesmo fazer. Penso que o resultado foi positivo. É uma mistura de James Brown e Marvin Gaye com os Stooges. Na realidade, é uma das minhas canções favoritas, talvez por ser um grande fã de música soul. Os metais e as cantoras resultaram igualmente bem.Toquei inclusivé guitarra slide, orgão e acrescentei algum feedback. Penso que o Evert se divertiu imenso com a produção.

Porque é que gravam apenas na Holanda? É mais fácil em termos logísticos?
Começámos a gravar lá, porque o Tony e o Theo já lá se encontravam, e eu e o Nicke deslocávamo-nos para lá. Acabámos por voltar porque todos nós gostámos muito dos estúdios Yland, e em especial do seu dono, Evert Kaatee. É fantástico trabalhar com ele, até porque alcançamos os resultados pretendidos.

Nunca pensaram gravar nos Ghetto Recorders, em Detroit?
Estivémos a falar com o Jim Diamond acerca da possibilidade de gravarmos lá num futuro próximo. Eu tenho outra banda chamada Scott Morgan's Powertrane e como ainda nunca trabalhámos no estúdio seria uma boa ideia gravar lá.

Detroit enquanto uma capital do rock, parece estar a reemergir com os White Stripes à cabeça. Esteve presente na primeira vaga da explosão do rock em Detroit, e está também a presenciar a segunda. Como encara as principais mudanças (positivas e negativas), entre aquilo que aconteceu antes e o que se passa actualmente?
A cena actual é a mais semelhante à dos anos 60 desde há muito tempo. A diferença é que hoje em dia é essencialmente garage rock. Claro que há uma enorme cena hip hop em Detroit, com o Kid Rock e o Eminem como exemplos. A indústria musical também mudou drasticamente desde os anos 60, nessa altura existia um maior investimento nas infraestruturas da indústria local. Hoje, é algo muito mais corporativo, embora pareça haver actualmente um ressurgimento de música independente. Os anos 60 foram os anos da rádio em AM. As grandes estações de rádio de Detroit, como a CKLW, WKNR e WXYZ, todas passavam música local. Isso permitiu um começo de vida mais fácil para as bandas. A CKLW passava uma enorme variedade de música, desde o country à soul, ao rock, tudo junto dentro desse formato. Essa rádio possuía 50,000 Watts e podia ser ouvida durante a noite em toda a zona ocidental dos Estados Unidos. A CKLW tinha também um programa na televisão que englobava no mesmo formato prestações de bandas locais e nacionais, e tinha grande expressão em grande parte da América.

Que bandas da Motown o influenciaram mais? E em relação à Stax, foi também influenciado pelas suas bandas?
Bem, na realidade tudo o que era da Motown influenciou-nos, assim como influenciou o resto do mundo. As suas ideias a nível de produção eram de facto revolucionárias. Usaram a mesma fórmula assembly line que os Auto Plants usam. Eles contrataram miúdos para lhes dizerem que discos preferiam antes de os editarem. Tocavam as cópias masterizadas em rádios de carros, para ver como soavam onde iriam ser maioritariamente escutadas.. Deixavem diferentes cantores cortar demos em cada canção para ver quem faria um melhor trabalho. Utilizavam os melhores músicos de jazz da cidade, e os cantores eram essencialmente talentos locais, que vinham directamente das ruas. Também foram pioneiros na sua própria distribuição independente, possuindo a noção de que se necessita constantemente de um novo lançamento, podendo por isso ir buscar o que os distribuidores já te devem. Em relação à sonoridade, o que me atraía mais era a vertente mais crua, que soasse a rock & roll. É óbvio que era exactamente isso que a Stax fazia, eles possuíam uma fórmula semelhante em Memphis no Tenessee. A banda da casa era a Booker T And The Mg's. Eles não eram músicos de jazz mas sim músicos de rythm&blues, à excepção do Booker. Ele possui uma licenciatura em música da Universidade do Indiana. Vi-os ao vivo em Detroit o Verão passado e conheci-os pessoalmente. Soam melhor do que nunca. Fazemos imensas versões de material da Stax

Já alguma vez foi convidado para produzir outras bandas?
Nunca produzi outras bandas, embora tenha co-produzido uma banda local chamada Cult Heroes. Pediram-me para produzir a banda australiana Bored, mas os custos eram demasiado grandes. Produzo sobretudo os meus próprios discos, mas gostaria de tentar produzir discos de outrém.

É verdade que Ron Asheton (Stooges) e Deniz Tek (Radio Birdman) se vão juntar aos Hydromatics para uma digressão?
Durante a digressão americana, o Ron Asheton só vai tocar conosco em Ann Arbour e Nova Iorque, mas o Deniz Tek vai tocar conosco na América e na Europa. Aliás, devemos estar por aí em Julho. A ideia de tocar com eles surgiu de um concerto que demos juntos em Detroit, em Novembro do ano passado, e que esgotou. Como correu bem decidimos repetir a experiência em mais datas. É fantástico perceber que os Hydromatics estão a crescer para além daquilo que alguma vez sonhámos.

Sicko Savage
(Mondo Bizarre # 10)