Entrevistas
THE ICARUS LINE
DEMÊNCIA CONTROLADA
Caso o leitor se impressione com descargas directas aos neurónios, por vezes pouco utilizados nas lides rock, e seja atreito a tonturas ou vertigens, passe à próxima folha. E não ouça os Icarus Line. Ou ouça e diga, sem patrocínios nem borlas, “Eu ouvi!!”. Ouviu sim senhor, ouviu algum do melhor rock que se faz actualmente. Em “Up Against The Wall” do novo álbum “Penance Soiree” Joe Cardamone canta “Why can’t I get some free”. Não sabemos a que se refere ele mas apostamos em algumas hipóteses: energia, raiva, inspiração, sexo, loucura. Joe e o resto da banda devem ter estes condimentos na ementa para servir a todos os que os ouvirem. Com energia de sobra para poder dar 1 kg por cada Nokia que se venda, rezem para que alguém se lembre de os trazer cá. A raiva que se sente a cada impulso de “Penance Soiree” (e também no excelente álbum estreia “Mono”), com rock que bebe nos Stooges, Cramps ou Murder City Devils é inspiração para manter a (vermelha e bem vermelha) chama acesa depois de tantos concertos e peripécias vividas desde 1999. Sexo é coisa que certamente ajuda ao descontrole que parece reinar no mundo dos Icarus Line e a loucura, que espreita nos discos e principalmente nas explosivas actuações do grupo. O que segue é o testemunho calmo e racional dos Icarus Line, através das palavras de Aaron North, um dos guitarristas da banda. Depois é verificar a demência patente na rodela de “Penance Soiree”, um dos discos rock de 2004.

“Mono” teve uma fraca distribuição, o vosso manager roubou-vos dinheiro, a Buddyhead (a editora de Aaron North) cresceu, vários elementos saíram da banda, e até rezam as crónicas que entregaram uma demo a um A&R com uma música de 20 minutos. Ser membro dos Icarus Line nunca se torna aborrecido, pois não?
Nós tentamos manter as coisas interessantes mesmo que elas ameacem tornar- -se rotineiras ou pouco estimulantes. Não sei, mas muitas vezes, parece que se abate o espectro de uma nuvem negra por cima da banda. Nunca consegui perceber bem porquê.

Agressividade Stooges, incluindo saxofone à "Funhouse", com imaginário Cramps. Pode ser uma maneira de vos apresentar a alguém?
Suponho que sim. Cada pessoa tem uma opinião única em relação àquilo a que nós soamos e isso é bom. Se toda a gente conseguisse definir o nosso som como “soa a Gang Of Four” ou “soa a Joy Division” ou qualquer outra coisa, isso pareceria uma redundância e significava que andávamos a perder o nosso tempo. Não vale a pena fazê-lo se já foi feito. Especialmente se antes foi feito melhor.

“Mono” é um diamante em bruto enquanto que “Penance Soiree” é um diamante lapidado com perfeição, tornando-o assim ainda mais cortante e belo. Concorda?
”Mono” funcionou como um documento de como a banda soava ao vivo na altura, um pouco como uma Pollaroid. “Penance Soiree” é como um quadro. Algo que foi pensado numa perspectiva diferente, algo mais do que simplesmente “a guitarra do Aaron à esquerda, a do Alvin à direita, sem overdubs, sem segundos takes”. Por isso assim como este difere do primeiro, o terceiro irá diferir deste.

Acha que a escolha do produtor Alan Moulder (My Bloody Valentine, Jesus & Mary Chain) veio dar mais espaço à música dos Icarus para esta respirar?
Na realidade o que o Alan fez foi ajudar-nos a organizar as diferentes camadas que já tínhamos criado. Nós sabíamos exactamente como queríamos soar. Ele é muito bom a produzir, pois conseguiu que os sons que pairavam no ar, ou nas nossas cabeças, viessem ao de cima no disco.

No novo disco parecem ter uma confiança adicional, um controle mais apertado sobre o que fazem. Diriam que o disco é um "upgrade" ao som dos The Icarus Line?
Eu diria que o som é mais dinâmico no seu todo, em vez de ir direito à garganta a toda a hora. Apercebemo-nos melhor de como misturar tudo com diferentes tempos, efeitos, diferentes elementos de percussão, etc. Passaram três anos desde “Mono” e o facto de termos passado muito tempo em digressão contribuiu para que crescêssemos como músicos.

Porque gostam de escrever canções mais longas do que a generalidade dos grupos rock, com várias mudanças e variações internas?
É mais desafiante. Existem mais 9.783 bandas no mundo a fazer musiquitas rock. Se é isso que as pessoas querem, que ouçam essas bandas. Se não for esse o caso nós oferecemos uma alternativa.

A última faixa de “Penance Soiree”, "Party The Baby Off", soa a uma típica faixa de começo de álbum/concerto. Porque a guardaram para o fim?
O último álbum acaba como um música muito longa, com uma batida lenta, tipo épica, como muitas bandas costumam fazer. Pensámos que seria mais interessante finalizar o álbum duma maneira mais forte e assim surpreender os ouvintes.

O som do baixo está mais proeminente neste disco. Há alguma razão para isso? Concorda se lhe dissermos que existem algumas semelhanças a nível vocal entre vocês e os Black Rebel Motorcycle Club no tema “Caviar”?
Hmmm... não... No tema “Caviar” eu imaginava uma voz mais Stone Roses ou Jane’s Addiction. Não sei, na realidade nunca ouvi Black Rebel Motorcycle Club, por isso não imagino. No que diz respeito ao baixo, penso que neste disco todos os instrumentos soam mais “in your face”, não obedecem tanto às típicas regras do álbum rock como no anterior.

Notam-se mais momentos "calmos" neste disco, como se combinam eles com os mais intensos, até da fase "Mono", ao vivo?
Nós já não tocamos músicas do “Mono” ao vivo. Fizemo-lo durante três anos. As pessoas que querem saber como soavam as músicas de “Mono” ao vivo deviam ter ido a um desses concertos. É como agora, se as quiserem ouvir que se mexam, daqui a três anos não as devemos estar a tocar.

Em Reading o que mais me impressionou na vossa actuação foi o completo estado de sítio em que vocês transformaram a tenda. Isso deve-se à vossa completa entrega em palco, fruto da paixão de tocar ao vivo. Como é que aguentam uma digressão a tocar assim todas as noites?
Não aguentamos. Passamos muito tempo cansados e deprimidos e querendo fazer algo que não seja tocar. Mas logo que subimos ao palco e começamos o concerto, apercebemo-nos que aqueles 45 minutos são os únicos momentos em que temos a oportunidade de fazer algo que verdadeiramente interessa. Já tivemos tantos concertos desinspirados como bons concertos.

Em 2002 vocês viraram de pantanas o palco do Radio One Stage no Festival de Reading. Com o que contam este ano?
Esperamos que seja alguma coisa de jeito.

Não posso deixar de mencionar o episódio ocorrido em 2002, no Hard Rock Café, no festival South By Southwest (mostra de bandas onde os Icarus Line se inseriam), que se realiza no Texas. Nesse dia partiu com violência uma moldura que continha a guitarra do falecido Stevie Ray Vaughan e tentou ligá-la ao amplificador. Visto Stevie Ray Vaughan ser natural de lá, a reacção ao seu acto não foi muito boa. Esse acontecimento é melhor que um cartão de empresa e mostra um pouco da atitude dos Icarus perante regras e limites institucionais. Porque agiu daquela maneira?
Não sei. Se tivesse sido um acto premeditado estaria implícito que eu estava a agir de forma racional. Quando se toca ao vivo sabe-se que se estamos a pensar muito no que se está a fazer não sai nada de jeito. Deve ser mais acerca de não pensar e simplesmente ser uma reacção natural à música que está a ser tocada.

Qual o disco que mais tem ouvido ultimamente?
Bob Dylan "Bringing It All Back Home".

Como fã mais que certo, o que pensa desta reunião dos Stooges?
Já os vi e gostei. Foi melhor do que estava à espera. Sempre fui mais fã dos tempos do Ron Asheton como guitarrista nos Stooges, por isso fiquei contente porque era essa formação e não a do “Raw Power”, que é o disco deles que eu menos gosto.


Nuno Proença e Pedro Miguel Guimarães
(Mondo Bizarre # 19)