Entrevistas
IKUE MORI
GUIADA POR ESPÍRITOS
Já passaram quase 30 anos desde a Nova Iorque que um dia nos lançou um novo olhar sobre o rock, uma nova forma niilista de o entender, com ligações à avant-garde artística, a que se convencionou chamar no-wave. No centro da no-wave estava um grupo chamado DNA, banda constituída por Arto Lindsay, Ikue Mori e Robin Crutchfield (que acabou por dar o lugar a Tim Wright, membro dos Pere Ubu). Com o fim do movimento, os músicos que nele participavam dispersaram-se e Ikue Mori alguns anos depois surgiu como uma das figuras mais importantes da música improvisada e da música electrónica. No próximo dia 13 de Agosto, acompanhada por Sylvie Courvoisier e Susie Ibarra no projecto Mephista, Ikue Mori volta a actuar em solo português, desta vez no âmbito do festival Jazz em Agosto na Fundação Calouste Gulbenkian. A propósito deste evento, a Mondo Bizarre trocou algumas impressões com a japonesa.

Em 1977 uma jovem japonesa com parcos conhecimentos musicais e vontade de seguir uma carreira artística muda-se para Nova Iorque. Apenas com vontade de ficar um pouco de tempo na cidade, as circunstâncias acabaram por conduzir a resultados surpreendentes, como a própria explica: “Quando vim para Nova Iorque em 1977 era apenas uma turista. Depois conheci todos os músicos No-Wave e comecei a tocar em bandas 3 meses depois. Depois disso não voltei a ir ao Japão durante 6 anos”.

A influência da no-wave e da banda de que Ikue Mori fez parte – os DNA, juntamente com Arto Lindsay, Robin Crutchfield que posteriormente trocou lugar com Tim Wright – é estrondosa, tendo sido crucial para bandas como os Sonic Youth. Recentemente a compilação “DNA On DNA” mostrou às novas gerações o tipo de som radical que se fazia no virar da década de 70 em Nova Iorque. Em relação a esse passado, Ikue Mori acha “espantoso que os miúdos adolescentes conheçam o movimento No-Wave, adoro isso” e justifica em parte isso com o facto dos pais também terem ouvido os DNA.

Com o fim do movimento, Ikue passou por alguns projectos próximos do rock, até que tudo mudou depois de conhecer o saxofonista John Zorn (dono da editora Tzadik e mentor de projectos como Naked City, onde militaram músicos como Mike Patton). A esse respeito Mori esclarece que “depois dos DNA se separarem por volta de 1982, conheci John Zorn que me introduziu no mundo da música improvisada. Acho que foi um processo bem súbito, porque não conhecia a diferença entre improvisar e jamming antes disso.” .

A transição para a música improvisada foi, portanto, bastante influenciada por John Zorn, assim como por músicos como “Fred Frith, Tom Cora, Wayne Horvitz, Jim Stanley, Derek Bayley...” . Com o passar do tempo, Ikue Mori ganhou novos interesses e apercebeu-se da importância dos instrumentos electrónicos. Sem nenhuma paixão especial pela bateria, gradualmente abandonou este instrumento abraçando as “drum machines” e os computadores. E apesar da sua carreira a solo (gravou 7 álbuns desde 1989), a presença de músicos com Zeena Parkins tem sido uma constante na sua carreira: “São todos bons amigos, com boas vibrações uns pelos outros (inspiração, respeito e apoio) e isso é muito importante para trabalhar de um modo agradável. ”.

Apesar de ter estado afastada do Japão durante 6 anos, agora volta à sua terra natal todos os anos, trabalhando com músicos como Aki Onda e Otomo Yoshihide (que no ano passado deu um concerto fantástico no festival Jazz em Agosto, na companhia do saxofonista Mats Gustafsson). E se a companhia dos amigos vivos é muito importante, o mundo espiritual está igualmente presente em Ikue Mori. O novo álbum “Myrninerest” é baseado na pintora Madge Gill, que se sentia guiada por um espírito com o nome Myrninerest.

A esse respeito, Mori não tem dúvidas, dizendo que é sempre guiada por algum espírito quando cria uma obra artística. Indo um pouco mais longe, Ikue Mori ainda se considera uma artista antes de ser uma música, demonstrando o apego que tem a diversas formas de expressão artística, como a pintura. E foi com uma promessa de “improvisação extra-ordinal” para o concerto de Mephista que terminou a curta conversa com Ikue Mori, algo que poderá ser averiguado este sábado na Fundação Calouste Gulbenkian.

César A Laia
(Mondo Bizarre - Agosto 2005)