Entrevistas
THE IMMORTAL LEE COUNTY KILLERS
ALABAMA BLUES EXPLOSION
Estiveram em Coimbra no passado mês de Janeiro. Diz quem os viu que, ao vivo, são bem mais fulgurantes que em disco. Quem não os pôde ver terá, então, que se contentar com “Love Is A Charm Of Powerful Trouble”, o seu novo álbum. Chetley “El Cheetah” Weise, o guitarrista-vocalista dos Immortal Lee County Killers falou à Mondo Bizarre.

Chetley “El Cheetah” Weise, fez, durante anos, parte dos Quadrajets, uma banda de garage rock de Opelika, Alabama. Um dia achou que os Quadrajets já não tinham mais nada para oferecer ao mundo e começou uma aventura só sua. Ou quase. Como companheiro de viagem, Chetley, convidou Doug “The Boss” Sherrard. A parelha começou a ensaiar num pequeno barracão de armas em Lee County, Alabama. Não tardou muito para que o grupo, cujo nome é uma junção do nome da terra que os viu nascer, do seu herói favorito (Jerry Lee Lewis) e da vontade de viver para sempre de Chetley e Doug, tivesse músicas suficientes para gravar um álbum. “The Essencial Fucked Up Blues”, o álbum de estreia dos Immortal Lee County Killers, é um disco cheio de ruidosas e sujas músicas, infectadas belos blues, que corroem a alma do ouvinte. Doug “The Boss”, deixou a banda após algumas suadas digressões, sendo o seu lugar ocupado por J.R.R. Token, o último baterista dos Quadrajets. Chetley e Token embarcaram em mais algumas quentes digressões e gravaram o segundo álbum dos Immortal Lee County Killers, “Love Is A Charm Of Powerful Trouble”, que não foge ao género blues-punk do grupo.

Cresceu em Memphis, Tennessee. A cidade, e a sua longa tradição musical foram um factor determinante para se dedicar à música? Com que idade é que começou a tocar?
É engraçado porque a minha primeira guitarra não foi comprada mas alugada. Aluguei-a quanto tinha catorze anos. Julgo que comecei a tocar mais tarde do que a maioria das pessoas. Os meus pais gostavam de música mas não coisa a que ligassem por aí além. Tinham um par de discos do Elvis, alguns discos de dixieland, um do Tom Jones e era tudo. Mas em Memphis há, de facto, uma herança musical dos blues, do rock e da soul. Os Sun Studios eram numa das pontas da cidade, a Stax Records na outra ponta e muitos bluesmen vinham para Memphis , para tocar na rua Bill, que, na época, era uma atracção turística. Eu ouvia esses tipos de música na rádio, nos discos que os amigos me emprestavam e também ouvia vários dos bluesmen que tocavam na rua. Havia um em particular, chamado Ben Perry que eu ia ouvir muitas vezes. Ele tocava com uma guitarra construída por ele e com um amplificador feito a partir de caixas de cartão de produtos de mercearia. Também comprei o meu primeiro disco de blues, “Lonesome Blues”, de John Lee Hooker, na rua Bill.

Que idade tinha quando começou a frequentar os bares de blues de Memphis? As suas idas a esses bares influenciaram o som dos Immortal Lee County Killers?
Quando tinha quinze anos, comecei a ir a alguns bares de blues, em Memphis, que me deixavam entrar, mais os meus amigos, mesmo sendo menores. Íamos ver o Albert King tocar para dez pessoas e éramos os únicos miúdos brancos na assistência. Tínhamos quinze anos e eles alimentavam-nos a Jack Daniels e Coca-Cola sem sequer pensar no que faziam.

Deixou mesmo o seu doutoramento em Economia por causa da banda?
De facto, deixei a escola de Economia por causa da banda. Penso que queria algo mais do que a maioria das pessoas. Desde os meus tempos de estudante de Economia que passava todos os fins-de-semana ou férias a tocar ao vivo. Mais tarde, quando já era professor, faltava à aulas todas as sextas-feiras por causa dos concertos. Ou seja, os meus estudantes tinham um fim-de-semana de três dias. Era o único negócio onde os clientes (os estudantes), ficavam contentes por o negócio fechar à sexta-feira. Mas sempre assegurei que aprendessem o suficiente de segunda a quinta.

Boss, o anterior baterista dos Immortal Lee County Killers, com quem gravou “The Essencial Fucked Up Blues”, o vosso primeiro disco, abandonou o grupo e este novo disco foi já gravado com Token, um novo baterista. O que é que o Token trouxe à banda? É muito diferente trabalhar com ele?
Ambos são excelentes bateristas mas as suas personalidades e o seu modo de tocar bateria são diferentes. O Boss tocava sempre no ritmo. O Token é muito mais “solto”, consegue tocar à volta de um ritmo, é muito dado à improvisação. Por vezes, viro-me, e ele está a tocar um ritmo no suporte do microfone. Mesmo no disco consegue ouvir-se que ele, por vezes, toca nos suportes dos tambores em vez de tocar nos tambores em si. Em termos de personalidade somos muito parecidos. Às vezes, quando não nos lembramos de parte das canção, e ficamos a pensar que o outro vai partir na direcção oposta, o outro acaba por seguir o mesmo caminho. Com o Boss era como ir ao Espaço sem ele perder o ritmo, porque é excelente a manter o tempo.

Os blues são tramados? São mesmo a música do Diabo?
Não creio que seja realmente a música do Diabo. O Diabo inspirou muitas das canções mas julgo que os blues salvaram mais almas do que mandaram pessoas para o Inferno. No meu caso, tocar blues salvou, sem qualquer margem para dúvidas, a minha alma. Se não tocasse blues há muito que tinha endoidecido.

O vosso novo álbum, “Love Is A Charm Of Powerful Trouble”, tem onze temas, dos quais seis são versões. Acha que tocar música de terceiros é uma coisa típica dos blues? Sente essas canções alheias como suas?
Sim, acho que boa parte do que fazemos mantém-nos ligados às nossas influências e às nossas raízes. Quando tocamos um tema de outra pessoa nunca o poderíamos fazer do mesmo modo que essa pessoa porque não crescemos do mesmo modo que essa pessoa e eu não toca guitarra como essa pessoa. Por vezes, até mudamos um pouco as letras par as canções se parecerem mais com a nossa própria vida. Nunca canto sobre trabalhar numa quinta ou ter estado na prisão porque isso nunca me aconteceu. Assim sendo, mudo um bocadinho as letras (se falarem desses assuntos), para reflectirem a minha vida. E é isso que acontece há muito tempo nos blues.

O amor não passa mesmo de uma fonte de trabalhos?
Não. Fico contente por me perguntarem isso, porque o que o nosso disco diz sobre o amor, no título e nas notas que escrevi no interior do livrinho do disco, é muito mais do que isso. Em “Love Is A Charm Of Powerful Trouble”, a palavra “charm” (feitiço), é usada num sentido positivo. Lendo-se o título uma vez e fazendo-se um interpretação literal do mesmo, pensa-se que é esse o significado, mas o amor pode ser, ao mesmo tempo, um feitiço e a melhor coisa do mundo. As linhas interiores são um bocado ambíguas e abertas a diversas interpretações para que as pessoas as leiam e percam algum tempo a pensar no que aí é referido. O amor pode ser um enorme tormento para um pessoa e um poderoso antídoto contra a loucura para outra pessoa. O amor pode tornar as pessoas loucas, pode estar a um passo de se tornar uma obsessão. Boa parte da nossa música pode soar atormentada e negativa, mas isso é porque pegamos em coisas negativas e transformamo-las numa coisa positiva. Divirto-me imenso a cantar sobre festanças, bebedeiras e rock’n’roll. Essa trilogia define, de certo modo, aquilo que eu disse acima sobre os blues terem salvo a minha alma. Se não fossem os blues eu poderia ter sido um imbecil chapado.

O que é que faz com que os blues e o punk sejam um par perfeito?
Já me fizeram essa pergunta muitas vezes e nunca me é fácil responder. Para mim esses dois géneros parecem-me idênticos. É como tentar explicar porque é que as flores crescem e a chuva cai. Claro que as flores crescerem e a chuva cair é resultado de um processo longo e complexo mas eu nunca penso nisso. Limito-me a ver umas crescer e sentir a outra cair. O primeiro tipo que tocou blues nunca pensou que o que tocava iria acabar na MTV, nas editoras multinacionais, ou no que quer que seja. Tipos como Robert Johnson limitaram-se a pegar numa guitarra e a cantar. As pessoas gostaram do que ouviram e tudo, a partir daí, começou a crescer e a desenvolver-se. Aconteceu exactamente o mesmo com o punk rock. Julgo que o modo como os dois estilos começaram são muito semelhantes. Apenas foram começados por pessoas diferentes, em épocas e circunstâncias distintas.

Antes dos Immortal Lee County Killers fez parte dos Quadrajets, uma banda com formação completa. Acha que um duo é um formato melhor do que uma banda completa?
Essa é uma pergunta difícil de responder. Quando estava nos Quadrajets, uma banda completa parecia-me a melhor maneira de fazer as coisas. Actualmente julgo que um duo é a melhor solução para transmitir aquilo que quero fazer chegar às pessoas. Julgo que há quatro ou cinco anos não seria capaz de o fazer deste modo. Tinha as ideias mas não tinha as ferramentas. Por vezes, é-me difícil passar as minhas ideias para os meus dedos, para minha música, e há ocasiões em que apenas me sai um monte de ruído. Neste momento, um duo, é, de facto, o melhor meio de transmitir as minhas ideias.

Hugo Moutinho e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 14)