Entrevistas
IRON & WINE
VOLTAS DA VIDA
A Mondo Bizarre esteve à conversa com Samuel Beam, que é o mesmo que dizer com Iron & Wine, sobre o seu disco de estreia “The Creek Drank The Cradle.

Samuel Beam, o homem por detrás do nome Iron And Wine, sempre viu no cinema e na produção a sua vida profissional. A música era um hobby a que nas horas livres se dedicava. Um inesperado telefonema da Subpop levou à edição de “The Creek Drank The Cradle”, o primeiro álbum de Iron & Wine. “The Creek Drank The Cradle” é um belo disco, feito de esparsas canções sobre a frágil voz deste residente de Miami, mas originário da Carolina do Sul.

Porque escolheu adoptar o nome de Iron & Wine e não utilizou o seu próprio nome, correndo até o risco de as pessoas pensarem que se trata duma banda de heavy metal (risos)?
(risos) Primeiro porque acho Iron & Wine bem mais interessante que o meu próprio nome. Também acho que as palavras se enquadram na música: o contraste entre as duas palavras, o contraste que está implícito na música, uma vez que tento fazer música bonita - mas as letras nem sempre são bonitas. E está relacionado com o ego. (risos) Prefiro que as pessoas se preocupem mais com a música pela música do que com o artista.

Nas referências da imprensa a Iron & Wine fala-se frequentemente duma forte presença do imaginário sulista. Acha que isso é algo de inconsciente ou antes um certo escapismo à vida urbana de Miami?
Por acaso cresci na Carolina do Sul. Só estou em Miami há cerca de três anos e já faço música há muito tempo. Portanto, acho que não é uma forma de escapismo. Não tem tanto a ver com o local onde me encontro.

Como gravou as canções que estão incluídas em “The Creek Drank The Cradle”?
Em casa, no meu computador. É um hobby que tenho há muitos anos. Depois, a Subpop ligou-me a dizer que estava interessada em editar as canções. Ouviram o material que tinha composto ao longo dos anos e seleccionaram [o que mais lhes agradou].

Foi estranho para si receber essa chamada da Subpop? Existem muitas pessoas que passam a vida à procura duma oportunidade. Sentiu que teve a sua naturalmente?
Sim, foi muito estranho. Até me sinto um pouco culpado por isso. Existem pessoas que passam a vida à espera dum contrato.

A música é para si uma prioridade?
Bem... sim, é o que acabei por fazer, em termos profissionais, sem o saber (risos). Mas gosto tanto de fazer música como cinema. Actualmente, parece, em termos profissionais, ser muito mais fácil fazer música.

Uma vez que a escolha das canções para “The Creek Drank The Cradle” foi aleatória, porque escolheu esse título?
É uma frase duma das canções. Achei que era uma passagem com que as outras canções se relacionavam.

É verdade que passa muito mais tempo a escrever as letras que a compor as melodias?
Compunha as melodias sempre primeiro, até porque é bem mais fácil estar a escrever uma letra para inserir numa canção que escrever uma canção para uma letra. Mas, sim, demora muito mais tempo a escrever letras.

Como tem sido a reacção das pessoas e da imprensa ao disco?
Penso que tem sido muito boa, têm sido muito porreiros.

Li que estava a ter algumas dificuldades em transportar a sonoridade do disco para o palco, pensa que já se está a habituar a tocar ao vivo? Sim, é algo de novo para mim. Gosto muito, mas é uma experiência nova para mim. Tenho tocado muito nos últimos dois meses e meio, penso que me estou ainda a adaptar, mas cada vez me sinto mais à vontade. É uma experiência muito diferente de gravar.

Gostaria de vir a tocar num colectivo ou aprecia mais essa vertente songwriter?
Andei em digressão com uma banda e gostei muito. Foi uma experiência nova. Estou habituado a trabalhar com outras pessoas em cinema. Como a música era um hobby, acabei sempre por fazê-la sozinho, nos meus tempos livres. Nunca tive uma banda. Mas achei muito divertido tocar numa banda em digressão e ser apenas uma das partes daquilo que se ouve no disco.

Gostaria de gravar com uma banda?
Vou gravar no Verão, penso que vou convidar alguns amigos para tocarem comigo. Ainda estou a compor as canções. Penso que compor na totalidade, com outras pessoas, não, mas trocar ideias em termos musicais, e elas trazerem qualquer coisa às canções, claro que sim.

Gostaria, por exemplo, de utilizar guitarras eléctricas?
Talvez, ainda não tenho guitarra eléctrica mas comprei um mandolin.

Muitas outras canções suas não constam do disco. Irão ser editadas?
Sim, estamos a fazer um EP com cinco dessas canções [para sair] no Outono. E as outras talvez as inclua no próximo disco. Não sei...

Como se sente a tocar canções que para si não são uma novidade, algumas que compôs há muitos anos?
É estranho, tudo é estranho. Pensares que a tua vida vai numa direcção e de repente constatares que vai noutra muito diferente. Mas é bom.

Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 15)