ITHAKA
ALGURES NO HIP-HOP
Darrin Pappas, mais conhecido por Ithaka editou recentemente o seu novo álbum “Somewhere South Of Somalia”. Produzido e editado em Los Angeles, cidade que o viu nascer, relata a uma viagem de dois meses pelo Quénia e a Tanzânia. E como para este rapper/poeta/ viajante, vida e viagem são conceitos indissociáveis, respondeu à Mondo Bizarre sobre África, América, Hip-Hop e Portugal.
Numa entrevista recente, aponta a África como o local de nascimento genuíno do hip-hop. Que aspectos musicais e culturais encontrou para fortalecer esta afirmação?
O primeiro Homem veio de África, e de acordo com o ISC, Istituto de Artes e Ciências,e pela maioria de estudiosos musicais pelo mundo fora, o primeiro uso da batida de tambor deu-se no continente Africano. A alma da tribo eram os seus ritmos, como se de uma grande batida cardíaca comunal se tratasse. Muitas dessas tribos foram cortadas da sua fonte e vendidos como escravos. Privados das suas línguas, nomes e religiões. Mas a batida continua a perdurar. Porquê? Os Afro-Americanos estavam a responder a um chamado primal vindo do seu passado distante quando deram origem ao hip-hop moderno. Infelizmente, estão a ser cortados das suas raízes de novo. Desta vez pelo comercialismo e pela ganância.
“Somewhere South of Somalia” descreve muitas e diferentes estórias que escolheu para descrever a sua experiência, como por exemplo o folclore, o jornalismo de guerra ou a malária. Quando recorda aqueles dois meses, qual a estória/tema que mais reemerge?
A canção “Mwajuma” (18ª faixa do álbum) foi a mais pessoal, porque se tratava de uma pessoa muito especial com que me relacionei na minha viagem. O nome dela não era mesmo Mwajuma, mas a “Mwajuma” tornou-se para mim quase como uma segunda mãe...uma das poucas pessoas que senti que realmente me compreendeu em toda a minha vida, apesar de ser de um mundo completamente diferente. Juntávamo-nos todos os dias durante uma hora da manhã quando ela ia fazer as suas compras diárias. Nunca me cansei das suas estórias, ela tinha tido uma triste e trágica vida, mas estava sempre bem disposta...a maioria das minhas canções são baseadas em realidade, mas assim que as escrevo, os sentimenots que sinto por dentro passam para uma forma musical. Não preciso de viver mais com esses sentimentos, com a excepção da Mwajuma. Cada vez que canto esse tema, tenho um “flashback” da noite em que estava a partir dos arredores de Nairobi de volta para o aeroporto para deixar a Africa. E a “Mwajuma” saiu de sucapa da casa onde trabalhava e caminhou 3 km às escuras, até à paragem de autocarro na aldeia de Karen para se despedir de mim de novo...estava a chorar. Foi a única vez que a vi sem estar a sorrir ou rir…ela não chorava pela minha despedida mas pela sua vida inteira. Talvez ela nunca tivesse chorado antes. Chorava pelos seus filhos, pelo seu marido falecido e por ela mesmo...e por toda a humanidade. Eu vislumbrei todo o universo nos seus olhos naquela noite. Ela faleceu no Verão de 2001 e a família para qual ela trabalhava nem se deu ao trabalho de me notificar. Mas um vizinho dela escreveu-me. A carta demorou onze semanas até chegar a L.A. Posteriormnte, eu e o Conley Abrams voltamos atrás e mudámos o fim do tema para incluir a sequência eulógica de quatro versos. Quis colocar uma foto dela no livrete do CD, mas por respeito eu mais tarde optei por não fazê-lo.
Entre todas as experiências que esperava encontrar em África, houve alguma que o supreendeu?
Onde estive (Quénia e Tanzânia), fiquei supreendido por ver quão segregado aquilo ainda está. Muito colonial. Quase não há casamentos mistos. Muito Preto e Branco. Nada de crianças mulatas. Muitos latifundiários brancos ainda se comportam como se tivessem o direito de possuir escravos ao tratar os seus criados como cães. As pessoas das tribos gostam da oportunidade de ter um emprego, mas a situação é completamente explorada pelos ricos. A hostilidade entre as próprias tribos também foi inesperado. Há tumultos e mortes frequentes. A vida é barata. As pessoas morrem constantemente por assassinato, doença e acidentes de trânsito. A taxa de mortalidade é cerca de 80 vezes superior a Portugal! A Malária ainda é um grande problema e obviamente a SIDA também. Na River Road (onde o tema “River Road” tem lugar) prostitutas com estados já avançados de SIDA, esqueletos com mini-saias e batôn estão constantemente a tentar levar-nos para as salas de sexo.
Levando em conta o desejo dos músicos Afro-Americanos de procurarem as suas raízes espírituais em África e dos artistas africanos admirarem o estilo-de-vida glamoroso do hip-hop na América, como descreveria estes dois pontos de vista tendo estado em contacto com ambos os mundos?
Julgo que grande parte da comunidade internacional de hip-hop procura na América uma espécie de liderança. Infelizmente, a América (a comunidade hip-hop em particular) não olha para o resto do mundo em busca de inspirações específicas. Por vezes notam-se alguns exemplos, mas a mairoia da América continua presa numa mentalidade pro-consumismo....tornando-se vítimas da “Máquina de Sonhos USA”. Quando se trata de um miúdo a crescer no bairro, é compreensível tentar procurar uma vida melhor, mas existem pessoas por cá a fazer montantes ridículos de dinheiro nesta indústria, pessoas que têm a influência para marcar a diferença, e mesmo assim só falam de rodas cromadas, diamantes e traseiros redondos. Assim temos milhões de pessoas a tentar melhorarem-se…decorando-se do exterior para o interior, e não ao contrário. Em África não há a opção de nos tornarmo-nos vítimas da moda, a maioria das pessoas vivem sem as necessidades mínimas. Não há outra opção se não serem mesmo genuínos.
Que lições poderiam os artistas de ambos estes mundos tirar uns dos outros, tanto musicalmente como mentalmente?
Penso que à parte das técnicas de profissionalismo e produção, os artistas africanos têm pouca coisa a aprender dos seus ricos parentes americanos. É verdade que as cidades americanas são perigosas, mas nada que se compare com as favelas africanas. Pertencendo à capital mundial de entretenimento e media, as pessoas nos E.U.A, começam a acreditar na sua própria treta e imagem. Há um sentido falso de dureza por aqui…. Veêm-se demasiados filmes. Pensam que são fortes porque primem gatilhos, mas tentem ficar sem comer durante uma semana para que os vossos filhos não morram à fome...Isso sim, é força.
No tema “What U Gotta Do”, diz que “L.A. is the hunter, Lisbon is the net”. Descreva esta ideia.
Antes de deixar L.A. senti-me aprisionado pelo sítio, tanto fisicamente como criativamente. Demasiada familiariedade. Os mesmos lugares. Os mesmos rostos. Depois de ver tanto do mesmo, senti-me cego. Os lugares e rostos estranhos são os meus melhores amigos. Portanto fui-me embora. Desisti dos estudos. Vendi todas as minhas merdas e comprei um bilhete de ida até Lisboa. Lisboa foi a grande aventura da minha vida....ainda estou a tentar perceber o que me aconteceu por aí. Mas como qualquer outro lugar, depois de ver os mesmos rostos e locais durante anos a fio comecei a sentir-me claustrofóbico de novo. Estava na hora de partir, mas hei de voltar certamente a Lisboa para passar um bom bocado. Tenho um problema em ficar em sítios durante longos períodos... já não quero viver num lugar específico. Tenho de estar sempre em fuga.
Tendo realizado alguns projectos em Lisboa, e agora em Los Angeles, quais são as vantagens/desvantagens de produzir música em cada uma dessas cidades?
Acredito que é muito difícil generalizar as condições de gravar por cidades, os discos são feitos por indivíduos. Há grandes estúdios por toda a parte e grandes produtores e músicos. Gande parte da minha experiência tem sido independente, nada de executivos de editoras, nada de limousines, de strippers ou champagne ou quem quer que seja a dizer-nos o que devemos fazer. Adoro estar no estúdio, umas poucas pessoas a fazerem a sua cena. Conhecemos bem as pessoas ao fazer um álbum....às vezes demasiado bem. Mas trabalhar com Conley Abrams, foi algo grandioso, aprendi muito com ele, não só sobre produção mas sobre a vida. Ele ensinou-me a paciência. Em relação à parte empresarial da coisa, gostei do “à vontade” da indústria musical Portuguesa. Se precisarmos de falar com alguém pelo telefone, qualquer pessoa, músicos, produtores, executivos, etc... podemos pelo menos conseguir falar com eles dentro de vinte e quatro horas. Em L.A., só para arranjar o número de telefone de alguém é praticamente impossível, normalmente ficamos espetados a falar com os seus agentes ou as suas seis secretárias. É um stress. Imaginem, ainda não conheci o presidente da Khalifa, a editora com que estou a trabalhar.
Quando passou por Portugal, e iniciou a sua carreira discográfica, vivia-se uma época muito interessante e criativa no movimento de hip-hop português. Neste momento, o hip-hop está a alastrar para um público mais vasto e mais jovem. Que aspectos únicos, pensa que poderá o hip-hop “made in Portugal” trazer ao mundo?
A base de talento em Portugal é tão forte e criativa como em qualquer outro país, mas para que o hip-hop português tenha alguma presença no exterior, precisa de ser distribuído noutos lugares. Durante a minha estadia em Portugal, isto simpesmente não acontecia. Das minhas observações e experiências pessoais, as editoras estão a falhar. Não são suficientemente persistentes em promover o artista nacional no plano internacional. Recomendo que não se assine contractos internacionais com editoras Portuguesas. Assinem um direito de uso em Portugal e deixem o resto dos territórios em aberto, depois promovam-no no resto do planeta, começando pelo Brasil! Ponham-se na Web, encontrem distribuídores independentes e estações de rádio por esse mundo fora e enviem-lhes CD’s. Arrisquem. Em relação à múisca em si, mantenham-na Portuguesa. Não faz mal usar o Inglês de vez em quando, mas mantenham-se fiéis às vossas raízes....é algo exótico para o resto do mundo. Portugal é considerado uma local exótico e místico, aproveitem-se disso. Em relação a L.A., há uma estação independente por aqui chamada KCRW, julgo que o site deles é o KCRW.org Já lhes enviei muitos cds portugueses e eles tocaram quase todos. Cerca de um milhão de pessoas ouvem esta rádio diariamente. A morada deles é: KCRW, c/o NIC HARCOURT, 1900 PICO BOULEVARD, SANTA MONICA, CA 90405, USA
Vasco Rebelo
(Mondo Bizarre # 10)
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