JACKIE-O MOTHERFUCKER
INTUIÇÃO ENTRE A ARTE E A VIDA
Atravessamos tempos confusos, mas há quem ainda ouse soprar alguma poesia. Através da música. É isso que os Jackie-O Motherfucker fazem, sem medo e com compaixão em “Change”, o seu mais recente trabalho. Foi este que serviu de pretexto para uma simples troca de impressões com Tom Greenwood, um dos mentores do colectivo.
Quem tem uma particular inclinação pela limpidez de uma pop perfeita e excelentemente executada dificilmente receberá com agrado as notícias do desenvolvimento de um certo free-rock americano, personificado por nomes como No-Neck Blues Bands, Arco Flute Foundation, Sunburned Hand Of The Man ou Jackie-O Motherfucker. No caso particular destes últimos, recentemente trazidos à ribalta da discussão musical pela revista Wire, muito se tem dito, usando todo o tipo de imagens, metáforas e comparações para categorizar a música que fazem. Não é, contudo, tarefa fácil – principalmente para os europeus – se pensarmos que aquela remonta a tradições anteriores ao punk e encerra histórias da música popular eminentemente americanas.
Devemos, pois, por razões de economia mas também de coerência, aceitar que alguém nos guie por uma viagem ao universo deste grupo nascido em Portland. Convidámos Tom Greenwood, multi-instrumentista do colectivo, e ele aceitou.
Comecemos por Portland. Foi aqui, nesta cidade do Noroeste dos Estados Unidos, que a história dos Jackie-O Motherfucker teve início. O ano era 1994 e, na altura, Tom e Jef Brown realizavam várias sessões de improviso ao longo de inúmeros ensaios. O primeiro entretinha-se na altura como DJ, juntando elementos de dub, techno e drum & bass, sem nunca perder de vista a condição do “turnatable” como voz, mas rapidamente descobriu a vontade de formar um colectivo de músicos. Tal viria a acontecer, mas de forma irregular, entre várias cidades e ao sabor dos acontecimentos. “Qualquer processo que tenhamos encontrado para trabalhar como grupo surgiu da criação musical. Não se trata de uma superestrutura (superestrutura) mas de algo que julgo ancestral, que é sensível à vibração e que podemos discernir noutros grupos que fazem uso desse mesmo tipo de processo intuitivo”, confidencia-nos Tom Greenwood do outro lado do Atlântico.
À medida que o colectivo se foi formando, foram-se também sucedendo as experimentações, os improvisos e as viagens. A abordagem, contudo, manteve-se sempre local, como se realizada a partir de uma ideia de comunidade, ou não fosse para eles a América um país espartilhado, pleno de fendas e reentradas.
Depois, seguiram-se três álbuns, até “Fig.5”, obra de um lirismo revoltado, ou apenas de um abandono que o próprio Tom Greenwood faz questão de defender, desde que tome conta do corpo e da mente. Um abandono que foge aos dogmas do improviso e que, por isso, cede com candura a uma certa ingenuidade não muito distante daquela personificada pelos Godz, por Michael Hurley ou pelos Fugs. É nesse sentido que a música deste ensemble caminha, e foi no trabalho seguinte, “Liberation”, que isso mais se tornou evidente.
Na capa de “Liberation” encontramos a reprodução de uma cartaz retirado do Maio de 68. Greenwood afirma que essa inclusão não é mais do que a consequência de “esboços, de reflexões”. Preencham como acharem indicado, nos vossos próprios contextos. Afinal a melhor arte era aquela que lutava contra o contexto, desde os dadaístas ao fluxus, passando pelos surrealistas”. Esta frase tem algo de irónico mas também de exortante, como se um estranho pudor existisse na postura dos Jackie-O Motherfucker. Basta ouvir as fissuras, os arrepios e os silêncios de “Fantasy Hay Co-Op” ou de “Feast Of The Mau Mau”, temas de “Change” – o trabalho seguinte – para acreditarmos nesse sentimento.
A intuição é, pois, aqui, central, assim como uma certa vontade em quebrar as fronteiras entre a arte e a vida, missão de tal modo esquecida que só certo rock underground a parece ainda querer lembrar.
Pouco interessados na tecnologia como fim, os Jackie-O Motherfucker fazem incidir os seus gestos mais sobre o valor da transmissão, de uma fronteira a outra no caso da inclusão de sons electrónicos e através da solidão no caso das vozes humanas. Porque tudo o que para eles parece simples esconde algo subversivo, mesmo que sem qualquer sinal de militância. Tom Greenwood fala-nos dos mitos que inspiram a música dos Jackie-O Motherfucker – “cantores de blues perdidos na estrada, tipos à deriva, criminosos, homossexuais, toxicodependentes” –, antes de nos revelar o tipo de ambientes onde o grupo gosta de actuar. “Gostamos de grandes espaços, como teatros ou antigas salas. Por vezes, o público dos bares não nos facilita a vida. Nos nossos primeiros concertos encontrámos alegria e desespero. Algumas vezes, chegámos a ser expulsos, noutras, acabámos rodeados por gente espantosa. Estou-me a lembrar particularmente do Fort Thunder, em Rhode Island, que chegou a ser uma imensa utopia. De resto, costumamos atrair artistas de circo, marionetistas, criadores de vídeo e pintores de graffitti. Não sei porquê, vêm até nós como se fossemos ímanes.”
Não que os Jackie-O Motherfucker sejam uma versão aumentada do Flautista de Hamelin que, em vez de atrair roedores, atrai restos da contracultura. Na verdade são eles que seguem as “melodias” por outros deixadas, como Harry Smith, Harry Partch ou Jack Kerouac por entre o caminho que separa a estrada de uma revolução perdida. A nós só resta escolher esse trilho ou outro, pondo os seus discos a tocar.
José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 14)
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