Entrevistas
JANE
MÚSICA DA DANÇA PARA CABEÇAS ESQUISITAS
Na sexta edição do festival Cosmopolis irão estar presentes alguns dos nomes fundamentais de música electrónica actual. Ao lado de bandas portuguesas como os The Gift, Rafael Toral e Plaza estarão projectos como Telepopmusik, Oval, Icarus e Jane. Um cartaz muito diversificado, que garante uma mão cheia de belos concertos e que irão animar a cidade de Lisboa durante a primeira semana de Outubro. No dia 6 de Outubro (na Galeria Zé dos Bois) irão actuar os Jane, projecto dos músicos Noah Lennox (membro dos Animal Collective e também conhecido por Panda Bear, que reside actualmente em Lisboa) e pelo DJ nova-iorquino Scott Mou. Com um álbum acabado de lançar (“Berserker”, recentemente aqui criticado), os Jane revelam-se por possuidores de uma sonoridade única, algures entre o techno, o som espacial do rock dos anos 70 e a improvisação típica de uma geração a que se convencionou chamar New Weird America. Por ser um projecto que aposta na espontaneidade da performance, o concerto dos Jane promete ser uma experiência única e imprevisível, onde os sentimentos irão ter uma parte fundamental no que se irá ouvir.

Quando ouvi “Berserker” pela primeira vez, o que me veio imediatamente à cabeça foram os Neu!. Talvez porque a vossa música apela à dança mas tem qualquer coisa que vai directamente à nossa cabeça, embora estando longe do krautrock. Qual foi a vossa motivação quando começaram o projecto?

Scott Mou – Ambos concordamos de início que uma das motivações para criar os Jane era fazer música com as qualidades da música de dança que gostamos, mas adicionando o tipo de qualidades que, para nós, faltam na música de dança. Qualidades como: espontaneidade (vida), emoções “não-emprestadas” e a possibilidade de qualquer coisa poder acontecer numa dada altura. Tenho que frisar que não desejamos soar a ninguém, mas sim desejávamos combinar elementos que significam muito para nós, mas que não ouvimos em mais lado nenhum. Tem elementos do techno, mas muitas vezes refiro-o como o techno “errado”. Eu admito com satisfação que bandas de krautrock, particularmente Can e Faust, são algumas das minhas bandas favoritas, juntamente com os The Fall, Royal Trux, Red Crayola e This Heat. Essas bandas fizeram-me rever a minha percepção das possibilidades de som. Os singles dos Orchestral Manouvers In The Dark têm lados b fantásticos e são também uma ligação do passado. Neu! também é excelente, mas devo dizer que, comparado com Neu!, sentimos uma maior afinidade com o sentimento triunfante dos primeiros dois álbuns dos La Dusseldorf. Respondendo à questão, sim, o seu sentimento está correcto, mas é claro que há muitas motivações que são essencialmente pessoais.

Porque dizem na capa do CD que ainda não acabaram?

Noah Lennox – Eu saí de Nova Iorque onde o Scott vive e é difícil continuar quando estamos tão afastados. A nossa música tem tudo a ver com estarmos juntos para sair. Toda a música que fizemos foi feita depois de sairmos à noite, de falarmos, e a música sempre pareceu como que uma continuação dessa experiência. As nossas melhores canções avançam lentamente e naturalmente como se estivéssemos a conversar com as nossas mãos e os nossos instrumentos. Queríamos música que encorajasse as pessoas a sair e a estar com amigos.

Trabalham muito com texturas deixando as estruturas mais próximas das canções mais de parte. “Berserker” é muito estratosférico, quase ruído ambiente para relaxar após um concerto de rock. Isso apareceu espontaneamente ou foram inspirados por trabalhos anteriores de outros artistas?

SM – O focus na textura não significa que a estrutura da canção não seja importante. Apesar de todas as faixas serem de facto espontâneas, ainda há uma ênfase especial na estrutura típica de uma canção, no padrão.

NL – Eu posso ter algumas frases que me parecem boas ou importantes para mim, e talvez o Scott tenha alguns discos ou partes de discos que são importantes para ele, mas na maior parte a música é completamente improvisada. O nosso método é muito natural, apesar de termos falado um pouco em fazer música para pistas de dança que não fosse típica ou normal. Não posso contudo falar em um ou dois discos que nos possam ter dado inspiração para isto.

Como vocês também Robert Fripp e Brian Eno gravaram música ambiental na década de 70. Encontram algumas ligações com a música deles?

SM – Claro. Mais no background do que nos resultados. A ligação é simplesmente a abertura para o acaso, para usar o que estiver à mão, rejeitar o treino standard da música e (no caso do Brian Eno) um bom sentido de estilo.

Apesar da vossa música ser essencialmente electrónica, deixam muito espaço para imperfeições e reverberações. Isso é uma parte essencial do vosso trabalho?

NL – Definitivamente. Não posso dizer que gostamos de fazer erros, mas na maior parte dos casos eu gosto do que eles fazem na música. Eu gosto de ver como um erro pode fazer uma coisa ser mais real e sincera. Usamos electrónicas para tentar fazer emoções muito orgânicas e sentimentos e às vezes eu acho que as coisas ficam um pouco confusas.

As vozes etéreas lembram-me o trabalho a solo do Noah como Panda Bear. Quando cantam é um pouco difícil perceber o que dizem. Será que é porque as palavras não são assim tão importantes para vocês? Usam a voz como um instrumento?

NL – As palavras são muito importantes para mim. Mas eu não me importo se as outras pessoas percebem, ou não, exactamente o que estou a dizer. Às vezes o que canto é embaraçante porque é muito pessoal e sinto-me esquisito por estar a contar a pessoas que não conheço. Mas de alguma forma eu quero contar o que sinto, o que vejo e o que escuto. Gosto que algumas pessoas ponham as suas próprias palavras lá para fazer com que se ajustem com o que sentem que estão a ouvir. A voz é o melhor instrumento que existe. Pode ter palavras, melodia e ritmo tudo ao mesmo tempo se o conseguirmos fazer bem.

O álbum foi lançado na Paw Tracks, que tem editado quase todos os projectos relacionados com os membros dos Animal Collective. Acha que a Paw Tracks é uma editora que procura “outra música” para editar ou é um colectivo de amigos trabalhando juntos com pontos de vista estéticos semelhantes?

SM – Ambas as coisas, mas “estética semelhante” é menos importante que a inspiração. Eu creio que procuramos pessoas lutadoras, não seguidores.

Noah Lennox vive em Portugal enquanto Scott Mou vive nos Estados Unidos. Como é que se conseguem encontrar?

SM – Nós conhecemo-nos em Nova Yorque. Eu tinha uma noite de dj em East Village chamada “Tokyo Lucky Hole”. Um amigo próximo, Dan Hougland, trouxe o Noah para essa noite e apresentou-nos. Eu sugeri que fizéssemos umas faixas juntos uma noite e aproximadamente um ano depois de nos conhecemos e falarmos sobre isso tentamos e gostamos dos resultados. O nosso primeiro disco foi feito no Inverno de 2002 e o nosso primeiro concerto foi na primavera de 2002, como pano de fundo sonora para a instalação de um amigo.

NL – Vamos ter um concerto em Lisboa em breve e essa vai ser a primeira vez que nós tocamos desde há um ano ou quase. Não nos vemos muito actualmente, tenho que o admitir...

Como são os vossos concertos? Que instrumentos usam?

SM – Começamos por usar tudo o que estivesse ao nosso alcance. Samplers baratos, gira-discos, microfones e efeitos. Só depois de fazermos as primeiras canções é que percebemos que estávamos a usar os princípios básicos do hip-hop para fazer música que era filosoficamente fundamentada no hip-hop mas que não soava a hip-hop: apanhando samples e pedaços de música que adoramos para fazer música que amassemos.

NL – O Scott toca gira-discos e eu canto com um sampler, essencialmente. Às vezes muda um pouco, mas normalmente actuamos assim.

Como ainda “não estão acabados”, o que podemos esperar de vocês no futuro próximo?

NL – Não estamos totalmente certos. Vamos tocar aqui juntos durante uma semana e dar um concerto ou dois. Nós gravamos tudo o que fazemos, porque são tudo pétalas da mesma flor... Por isso espero que tenhamos novas canções para editar brevemente.


César A Laia
(Mondo Bizarre - Outubro 2005)