Entrevistas
JENS LEKMAN
MENINO ÍNDIGO
Vaidoso, eloquente e inteligente, não só nas palavras mas ainda nas faustosas canções que diríamos estarem encarcerados com os segredos mais íntimos de Brel, Sinatra e Gainsbourg. A Mondo Bizarre falou com a estrela-cadente em ascensão no universo da pop. O menino de vinte e três anos chama-se Jens Lekman e vem da Suécia.

Jens Lekman não tem o aspecto de dandy recauchutado de Gainsbourg, tão a gosto das meninas francesas, nem tão pouco o toque aburguesado de Sinatra. De facto, o mirabolante mundo de Lekman está à parte e a milhas de tudo o que pode ser gratuitamente óbvio e conotável. Lekman tem graça e habilidade nas histórias que conta e na recuperação da canção para um formato onde é possível espreitar os últimos quarenta anos da história da pop.

Tem lábia e pose de artista, e garantidamente, não os há deste calibre a caírem do céu todos os dias. “When I Said I Wanted To Be Your Dog” é o disco de estreia deste sobredotado, editado pela Secretly Canadian. Aqui cruza-se a geração dos últimos românticos com os psicadélicos, os decrépitos cabarets de Paris e os trovadores, o Maio de 68 e os motins de Gotemburgo, com a facilidade e sabedoria de quem parece ter vivido intensamente todos estes momentos. Não há espaço para dúvidas, Lekman assume-se como uma proeminente estrela em ascensão, como o novo messias da pop. Para o aferir basta entrar no grande salão de festas que é “When I Said I Wanted To Be Your Dog”.

Quem é afinal Rocky Dennis?
Rocky Dennis foi um rapaz desfigurado que teve a sua vida retratada no filme “Mask” de Peter Bogdanovich na década de 80. Eu vi o filme há cerca de cinco anos e fiquei verdadeiramente impressionado com essa trágica história de amor. Escrevi “Farewell Song To The Blind Girl” uma semana depois de ver o filme. Entretanto, alguém se lembrou de pensar que o meu verdadeiro nome era Rocky Dennis, as rádios pegaram nisso e eu tive que despender muito tempo e um EP quase inteiro para separar essa personagem de mim mesmo e desfazer esse terrível erro.

O que é que se passou em 2001 para ser para si um ano tão terrível?
Algumas das minhas canções como “Do You Remember The Riots”, “Mapleleaves”, “Psychogirl” ou “When I Said I Wanted To Be Your Dog” retratam situações que se passaram em 2001. Sinceramente... nesse ano eu pensei que ia morrer. A minha namorada rompeu a sua relação comigo três vezes. Perdi todos os meus melhores amigos e o único amigo que consegui manter ficou aterrorizado quando pensou que eu me estava a apaixonar por ele, e como tal decidiu deixar de me ver. Foi por isso um ano terrível.

Uma das canções do seu disco fala justamente dos motins Anti-Globalização de Gotemburgo e reflecte uma visão muito pessoal sobre o assunto. Estava em Gotemburgo nessa altura? Qual é a sua opinião sobre os factos?
É verdade! Eu estava em Gotemburgo nessa altura. Estava justamente no meio das manifestações quando tudo aquilo rebentou. Se bem que “Do You Remember The Riots” é apenas uma canção de amor trágica. Eu fiquei profundamente afectado pelos incidentes e perdi toda a minha fé na polícia e especialmente nos políticos. Para mim o mais estranho foi terem decidido depois fazer a cimeira noutra cidade, mesmo sabendo que a primeira tentativa tinha resultado nos confrontos. Eu vi imensos amigos meus serem espancados sem qualquer motivo, e o medo era tão intenso. No segundo dia um rapaz desatou aos berros no meio da multidão “eles vêm ali” e as pessoas, como ratos, começaram a trepar umas por cima das outras para saírem das ruas.

Como é que um artista Sueco é descoberto por uma pequena editora independente americana?
Eu cheguei a um ponto em que me senti verdadeiramente frustrado por não conhecer ninguém que gostasse da mesma música que eu. Então decidi enviar algumas canções para a minha editora preferida, a Secretly Canadian. Essa foi até agora a única demo que enviei a uma editora discográfica e eles foram os primeiros a ouvir a minha música. Nem mesmo a minha mãe tinha ouvido as minhas canções até essa altura. A verdade é que não gosto de impor a minha música às pessoas.

Da Suécia tem vindo uma massiva produção pop nos últimos tempos. Como é que interpreta o actual cenário musical no seu país?
Estou um pouco por fora e não tenho muitos conhecimentos para falar sobre isso. Eu não entendo aquilo que as bandas rock fazem fora da Suécia. Não gosto de rock.

No seu disco usa imensos samples. Fale-nos um pouco dos seus métodos de composição.
Na verdade eu não gosto nada de falar acerca da maneira como gravo ou componho a minha música. Acho que isso se torna chato e corrompe a imagem da música como algo verdadeiramente mágico. Prefiro que as pessoas me imaginem com um velho gravador numa floresta rodeado por um monte de fadas a cantar, do que me imaginem sentado no meu estúdio em casa. Quando eu tinha dezassete anos não podia aspirar a contratar uma orquestra, então comecei a usar samples de cordas de bandas sonoras e discos antigos. Quando se tem dezassete anos é suposto ficar-se feliz com uma guitarra, um baixo ou uma bateria. Eu, nessa altura, estava a entrar no mundo de Scott Walker.

Já pensou que “You Are The Light” é uma canção com potencial para ter sido (ou ser) um enorme êxito nos concursos da Eurovisão?
Poderia ter sido há vinte anos atrás. Neste momento já não há boas canções nos concursos da Eurovisão. Eu vi recentemente o Johnny Logan a tocar para vinte bêbados numa pequena vila na Suécia... foi uma coisa tão triste... eu não quero tornar-me naquilo que ele é!

E quanto a todas as mulheres que povoam as canções do seu disco? São reais? Apenas sonhos? Ou são a imagem da sua mulher perfeita?
São reais. Mas nem todas são raparigas pelas quais me tenha apaixonado. Sílvia por exemplo é a rainha da Suécia. Ela é verdadeiramente velha e tem todos aqueles horríveis valores conservadores... eu nunca embarcaria num romance com ela. Lisa é a minha melhor amiga e como tal nunca a beijaria sob pena de arruinar a nossa amizade. Quando conheci Julie não sabia muito bem como falar com ela, então comecei a escrever a canção para me obrigar a fazer as coisas que dizia como comer batatas fritas na baía, ou passear com ela junto às cerejeiras.

E continua a procurar um casamento feliz? Falava a sério quando disse que cortaria o seu braço direito para ser amante de alguém? Pensando bem, o seu braço direito não lhe fará falta para tocar guitarra?
Ha! Ha! Ha! Fui completamente sério acerca do braço direito. Na verdade o braço direito não é assim tão importante para tocar guitarra. Ouvi uma história acerca de um rapaz que tinha um braço de macaco em vez de um braço normal e tocava ainda melhor que todos os outros guitarristas. Não... não ando à procura de uma esposa, estou mais interessado em encontrar alguém com quem partilhe a minha vida, ou pelo menos parte dela.

Ao ouvir a sua música fica-se com a sensação de que terá uma rica e variada colecção de discos. É verdade?
Algumas pessoas podiam chamar-lhe demasiado variada. Eu gosto do tipo de coisas que as pessoas habitualmente atiram para o caixote do lixo, ou daquelas que encontro nas feiras. Eu cresci pouco interessado em música contemporânea, prefiro aquelas canções que por serem suficientemente antigas possam ter um novo significado para mim.

Gostaria que fizesse um breve comentário sobre as seguintes personalidades. Serge Gainsbourg, Beck, David Ackles e Nina Persson.
Sobre Serge Gainsbourg não sei quase nada...mas gosto daquela canção com a rapariga que ri. Sobre Beck não sei mesmo nada. Há uma canção de David Ackles que eu adoro e que se chama “One Night Stand”. A canção começa com o David inclinado sobre o piano, como se estivesse inclinado sobre a sua amante, cantando com a sua voz mais melosa qualquer coisa como “Well good morning, how ya doing honey? I gotta tell you I´ve never met a girl so funny”. Claro que isto fez com que a maioria das pessoas ficassem com vontade de lhe atirar as mãos ao pescoço. No entanto, a seguir o David muda drasticamente dizendo à sua amante que terá que partir para Buffalo para vender a sua alma por oito dólares por semana. É hilariante e muito belo. Nina Persson parece-me ser simpática, canta de uma forma clara e cristalina. Penso que os Cardigans escreveram algumas canções adoráveis no início... mas sinceramente não me consigo lembrar dos títulos.

Vai partir para os Estados Unidos para uma pequena digressão. Quais são as suas expectativas?
Provavelmente não vou passar do aeroporto por não ter uma permissão de trabalho. Por favor... não publiquem isto até eu chegar lá ! (risos)

Paulo Coelho
(Mondo Bizarre # 21)