Entrevistas
JIMMY EAT WORLD
DE VOLTA AO GRANDE TEMPO
Deixando para trás editoras e conceitos, os Jimmy Eat World gravaram "Bleed American" apenas com o objectivo de registar os temas em que estavam a trabalhar. Sem pressões exteriores, a banda rompeu barreiras e alcançou uma liberdade criativa que se traduziu no melhor e mais directo trabalho da sua carreira. Já depois da sua edição e após os acontecimentos de 11 de Setembro, a banda decidiu encurtar o nome do álbum para "American".

Se há coisa capaz de inflamar a maioria dos artistas não pop é fazê-los falar das suas queixas em relação às entidades corporativas que fazem da indústria musical moderna uma realidade. Quase todas as bandas de filiação independente têm o dia ganho se o passarem a dizer mal dos esquemas das multinacionais. Por sua vez, quase todas as bandas de grandes editoras olham esses mesmos esquemas como um negócio que assenta num leva-e-dá para ambas as partes.

O caso dos Jimmy Eat World (JEW) é totalmente diferente. A sua música é conotada com o underground mas sempre esteve ligada a multinacionais. Primeiro com um par de gravações para a Capitol Records e agora com o novo álbum, "Bleed American" a ser editado pela Dreamworks. O quarteto, originário do Arizona, sente-se como peixe na água nesse mundo das grandes companhias: "tudo está a correr pelo melhor", diz Rick Burch, o baixista dos Jimmy Eat World, enquanto reflete sobre a mudança da banda para a Dreamworks. "Tudo na nossa vida é diferente dos tempos da Capitol. Agora há uma máquina a funcionar em pról de um objectivo e antes as coisas eram mais relaxadas", refere.

Para algumas bandas que comem, vivem e respiram o espírito independente, tal declaração é, muito certamente, uma heresia que quebra a regra número um do modo de vida indie: "não gabarás as corporações". Deixem lá isso! Para a banda de Rick Burch (baixo), James Adkins (voz/guitarra), Tom Linton (guitarra/voz) e Zach Lind (bateria), não faz sentido andar a arrancar cabelos por uma qualquer questão ideológica sobre a importancia da libertação da Máquina, pois estão muito satisfeitos com a sua invulgar posição.

No entanto, nem sempre as coisas são fáceis para os Jimmy Eat World. Os seus discos anteriores acabaram por colocar a banda como protagonista duma dessas típicas estórias de terror tão normais do mundo das majors. Ainda que o álbum anterior, "Clarity", tenha permitido à banda uma audiência maior do que o público punk-rock universitário, os JEW não ficaram satisfeitos com os (poucos) esforços da Capitol. A má relação da banda com a sua anterior editora terminou numa viagem, que se queria amigável, ao quartel-general da companhia em Nova Iorque.

"Chegamos lá, e enquanto caminhávamos pelos corredores, toda a gente perguntava se podia ajudar, se estavamos lá para ver alguém. Não faziam a menor ideia de que pertenciamos à editora", resmunga Burns, logo voltando à carga, "tinham autocolantes e posters de tudo o que é banda mas nada dos Jimmy Eat World. Houve gente que pensou em assinar a banda, pois pensavam que estavamos lá à ver se conseguiamos um contrato. Foi absolutamente hilariante, mas, na altura também assustador. Viravamo-nos uns para os outros e perguntavamo-nos o que se passava. Aqueles quatro anos foram como andar na universidade. Ficamos a saber que eles eram tudo o que uma editora não devia ser."

As coisas tornaram-se tão más com a Capitol que quando os JEW tiveram a oportunidade de se libertarem fizeram-no sem pensarem que não tinham outro abrigo para a sua música. De repente, o grupo encontrou-se sem editora e a tentar retomar o tempo perdido. Para algumas bandas seria um golpe fatal mas para os Jimmy Eat World foi uma lufada de ar fresco.

A banda fez algumas digressões, juntou os seus singles numa compilação que foi editada o ano passado pela Big Wheel Recreation, conseguiu reunir o dinheiro necessário para a gravação de "Bleed American" e foi para estúdio enquanto estava livre das exigências artísticas que, por vezes, as editoras impõem às bandas. Só quando tudo estava concluido em estúdio é que os Jimmy Eat World começaram à procura de uma nova editora com uma abordagem estilo pegar ou largar. Ou seja, quem pudesse pagar o disco e satisfazer as demandas da banda ficava com o trabalho. Ainda que isso já tivesse sido feito por algumas bandas não é uma maneira muito comum de se ir à procura de editora, nem nada que as ditas apreciem particularmente. "Muitas vezes, a editora, se vai investir dinheiro e energia num projecto, gosta de saber que está envolvida desde o início. Eles até preferem ter uma palavra a dizer e acham estranho não tomarem parte no processo de gravação", diz Burch.

Depois de um ano à procura de editora e a marcarem reuniões com tudo o que era companhia, independente ou multinacional, os JEW decidiram-se pela Dreamworks. E mesmo sendo a Dreamworks uma empresa de um dos grandes grupos transnacionais, uma das etiquetas da Disney, Burch afirma que o facto de durante a gravação o grupo ter tido uma política 100 por cento "não-editora" faz com que não denotem nenhum dos sinais típicos de interferência das majors: "a gravação foi feita para nós. Não sabiamos se iamos acabar numa multinacional ou numa indie. Costumavamos brincar e dizer que iamos ser nós a lançar o disco. Durante a gravação não existia ninguém para quem trabalhar a não ser nós próprios, o que tornou tudo mais pessoal. Se a glória viesse seria inteiramente nossa, mas se o disco fosse um fracasso as culpas também recairiam inteiramente em cima de nós".

O quarteto não precisava de ter passado muitas noites a roer as unhas de ansiêdade. "Bleed American" é o seu melhor álbum até à data. Mesmo sendo os álbuns anteriores catalogáveis na períferia emo, com as suas melodias calmas, a sua contida sensibilidade pop e as suas letras compassivas, o novo disco atira as restrições inerentes ao género para o caixote do lixo. Em vez do emo seguido à letra nas obras prévias ou do punk pop dos primeiros tempos, a banda surge com o seu trabalho mais directo de sempre. A sensibilidade power pop ainda domina os esforços da banda mas já não se enquadra em nenhuma categoria underground específica. Temas como "Bleed American" ultrapassam totalmente o nicho a que a banda confinara as suas anteriores edições. "Acho que algumas pessoas ficarão surpreendidas. Os meus amigos estavam habituados a "Clarity" e quando lhes coloquei a tocar o novo álbum deram todos um salto", explica o baixista e continua, "demos tudo por tudo e tentamos ser o mais directos que nos foi possível. Ao contrário do álbum anterior, em "Bleed American" mal se carrega no play somos atingidos pela energia da faixa título. Em "Clarity" começavamos por um tema que abria com um orgão muito calmo e que ia crescendo com o galopar da bateria." Muitas bandas, se fossem deixadas com os restos de um contrato manhoso, passariam anos a apresentar desculpas para não seguirem em frente. Os Jimmy Eat World não pensam assim. A banda regressou à plena actividade e embrenhou-se em digressões pelos Estados Unidos, Europa, Austrália e Japão.

Os anos passados na Capitol não terão sido os mais risonhos na vida dos elementos da banda, mas ninguém pretende perder tempo a queixar-se de injustiças passadas: "tentamos aprender com o que se passou. Não se pode andar para trás. Apenas podemos olhar para o que está feito e fazer com que isso funcione a nosso favor.", remata Burch.

Matt Schiel - Tradução: Raquel Pinheiro - Exclusivo Aversion.com/Mondo Bizarre
(Mondo Bizarre # 9)