Entrevistas
JOHN PARISH
Liberdade Instrumental
O conceituado músico, compositor e produtor John Parish, associado a nomes como PJ Harvey, Eels ou Giant Sand, fala-nos um pouco da sua actividade musical, sendo o mote o seu mais recente disco “How Animals Move”.

O “How Animals Move” é essencialmente um disco instrumental. O que o atrai na música instrumental, a sua estrutura mais livre, o não estar condicionada a uma letra?
Penso que sim. É engraçado porque não sei a razão que me levou a trabalhar essencialmente em música instrumental. Em parte foi porque estava farto de cantar e não o queria fazer novamente, porque na banda onde estava há alguns anos era eu o vocalista e escrevia todas as letras, e em muitos casos escrevia muito mais letras do que compunha música, logo foi uma grande mudança para mim começar a compôr música instrumental. Mas em relação às letras cheguei a um ponto em que achei que já tinha dito tudo aquilo que queria dizer, e não me apetecia dizer as mesmas coisas por outras palavras. Comecei então a escrever música sem letra e de facto achei que tinha um formato mais livre. Libertou-me não estar sujeito a um refrão, em termos de tempo não estás restricto, podes fazer tanto peças de trinta segundos como de dez minutos e todas parecem funcionar bem se a música for boa. Achei que foi uma experiência muito libertadora.

Muitos músicos dizem que é muito mais complicado escrever letras que fazer música...
Penso que é. Se reparar na maioria das letras de rock são bastante medíocres, mas se for um bom vocalista safamo-nos muito bem a cantar letras que sejam medianas e as pessoas gostam se o som da voz for fabuloso, algo que a mim também me seduz.

Mas nunca sente a necessidade de compôr música com aquela magia mais pop?
Sim, por vezes sinto. Suponho que é por isso que inclui no disco algumas canções, particularmente o tema “Airplane Blues”. Não queria que o disco fosse algo sisudo, quis que tivesse uma certa alegria desde o princípio ao fim. Eu gosto de música pop, logo quis que houvesse esse elemento neste disco, de alegria, bem como outros momentos mais melancólicos.

Fale-nos um pouco acerca do processo de composição destas músicas. Havia algum sentimento especifíco que quis expressar ou os temas fluíram naturalmente?
Diria que todos surgiram de um modo bastante instintivo, nunca quis conscientemente captar uma determinada atmosfera, ia sim tocando aquilo que o ambiente do momento me ia sugerindo. Para mim isso é a coisa mais importante do disco, a emoção e a atmosfera. Mas nunca pensei em fazer uma determinada peça que transmitisse um ambiente espacial, ou denso... Apenas escrevia a música que me soava certa naquele momento, e mais tarde, ao compilar as coisas e juntá-las de modo a que me soassem bem, em ordem, onde tudo se sustém mutuamente.

Como atribuí titulos às canções? Obedece a um processo lógico ou casual?
Algumas delas têm alguma lógica em função da geografia ou da cronologia, ou seja, onde estava nesse momento ou aquilo que se passava na altura em que estava a escrever a música. O tema “Spanish Girls” é evidente disso, porque começou com o registo de umas raparigas espanholas a cantarem.Logo, por vezes dou-lhes títulos imediatos para me lembrar do que são, por exemplo, se estou a trabalhar numa série de coisas ao mesmo tempo, escrevo “spanish girls” e automaticamente me lembro que aquela peça é a que tem as raparigas espanholas a cantarem. E por vezes esses títulos ficam. Tal como a música “El Marion” que foi escrita numa vila muito pequena ao pé de Granada com esse nome. E a peça “Without Warning His Heart Stopped Beating” foi escrita enquanto eu estava a ver um filme bastante mau que estava a dar na televisão em casa (risos). Era um desses filmes sentimentalões, acerca de um sujeito que morreu sem motivo aparente e por alguma razão peguei na guitarra ao mesmo tempo e foi quando surgiu essa melodia. Então penso que escolhi esse título porque era disso que o filme tratava, e gostei do título. Outras vezes é muito mais arbitrário, escrevo a música sem ter um título para ela durante muito tempo. E outras vezes tenho títulos sem ter uma música, escritos no meu caderno de notas, quando penso que são bons títulos para aplicar futuramente a canções. Por exemplo, o título “Absolute Beauty is an Absolute Curse”, era um desses que existia por si próprio, sem música. Até que um dia fiz essa peça com violinos da qual gostei muito e como não sabia como lhe chamar, folheei o meu caderno e deparei-me com esse título que achei que se aplicava.

A banda sonora do filme “Rosie” foi o seu primeiro trabalho a solo. Nunca lhe ocorreu fazer discos a solo anteriormente?
A ideia ocorreu-me mas nunca lhe achei grande piada por uma razão qualquer. E a “Rosie” nunca me pareceu ser um trabalho a solo era apenas uma banda sonora. Fiz isso para o filme e gostei muito da música e pensei editá-la, porque eu gosto de comprar bandas sonoras, logo pensei que houvessem pessoas que gostassem de ter esta. Mas não a vi como o iniciar duma carreira a solo, tal como não vejo o “How Animals Move”. É apenas outro disco, sempre fiz muitos discos e por vezes faço-os com outras pessoas, outras é mais uma coisa minha, mas é arbitrário, umas vez é algo mais meu, outras não.

Foi dificil para si fazer a banda sonora para o filme “Rosie” concentrando-se somente nas imagens, sem entender as palavras?
Não tanto como se pode pensar pois mesmo não percebendo as palavras o realizador explicou-me claramente aquilo que pretendia, e falou-me muito sobre o filme, logo sabia sobre o que tratava. Mas depois de o ver tantas vezes foi como se aprendesse uma língua, começava a reconhecer as palavras no contexto. Mesmo ao não falar nada de espanhol, penso que compreendi bastante bem o sentido do filme pela altura em que terminei a banda sonora. De um certo modo foi muito bom trabalhar com aqueles sons, pois gosto da sonoridade daquela língua. E soou muito bem juntamente com a música que estava a escrever. Se fosse um filme em inglês provavelmente estaria mais distraído, pois estava a lidar com sons acima do seu significado, que é algo de agradável.

Gostaria de fazer mais bandas sonoras no futuro?
Sim, gostaria, e fico desapontado por não me terem sido feitas muitas mais propostas interessantes(risos). Já me fizeram algumas propostas, mas para filmes pouco interessantes. Houve um que me interessou, aceitei, mas não houve dinheiro suficiente para o projecto se concretizar. Mas claro que gostaria de fazer mais bandas sonoras.

Aprende muito, tira muitas ideias dos músicos para os quais produz discos?
Sim, aprendo com cada sessão de gravação que faço. Tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas muito criativas. E definitivamente, aprendo muito com eles. Nunca algo tão especifíco como adorar um certo acorde, uma certa percurssão, ou uma forma de gravar de um artista em particular, mas apenas a sua influência. Penso que todos somos apenas uma colecção de influências que de certo modo moldamos àquilo que nós próprios fazemos. Tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas fantásticas.

Mas tem por vezes consciência que está a aplicar uma ideia derivada de uma determinada influência?
Sim por vezes tenho a consciência de que estou a fazer algo que me soa muito a um desses artistas.

Vê-se no futuro a trabalhar exclusivamente como músico ou como produtor?
Espero que não. Espero poder produzir, tocar e compôr, porque adoro as três funções. E sinto que se complementam, e que me iria sentir frustrado se tivesse de abdicar de uma delas.

Como foi a experiência de produzir e depois tocar com os Eels?
Foi óptima. Foi super divertido, pois já era um fã dos Eels, particularmente do “Electro-Shock Blues”, que é um disco fabuloso. A gravação do “SoulJacker” foi mesmo muito rápida, demorou cerca de duas semanas e meia, logo foi muito excitante trabalhar a esse ritmo. E a digressão foi óptima porque o E é um tipo muito divertido e nunca se sabe muito bem o que vai acontecer em cada um dos concertos, o que torna as coisas excitantes.

Numa entrevista aquando do lançamento de “Stories From The Citie, Stories From the Sea” a PJ Harvey disse que o John não tinha gostado muito desse disco. Mas posteriormente acabou por tocar esses temas em alguns concertos dela...
(risos)É verdade que não gostei muito do último disco dela, fiquei bastante desapontado, porque a acho fabulosa, e que no seu melhor escreve pedaços de música fabulosos. E não achei que o “Stories...” fosse um disco particularmente bom. Se fosse de outra pessoa qualquer estaria bom, mas tendo em conta os padrões mais altos dela não o considerei muito bom. Não andei na digressão deste a tocar com ela, apenas apareci como convidado no palco algumas vezes quando ela estava nessa digressão. Não iria em digressão por causa desse disco (risos).

Quais são os padrões mais altos dela?
Diria que o meu disco favorito dela é o “Is This Desire?”, adoro esse disco. Também gosto muito do “To Bring You My Love”, bem como do “Rid of Me”. Esse, com alguns dos temas que estão no “4-Track Demos” teria sido fantástico.Mesmo o “Is This Desire?” penso que ela deixou de fora alguns dos melhores temas, alguns mesmo soberbos que nunca figuraram no álbum. Diria que o meu período favorito foi o de composição desse disco, ela estava a compôr coisas fantásticas.

Seria capaz de produzir um disco para uma banda de que não gostasse?
Seria capaz de o fazer (risos), mas duvido que saísse alguma coisa de jeito. Provavelmente não o faria, nunca o fiz e penso que seria algo muito dificil de fazer. Mas existem razões pelas quais o faria. Por exemplo se se tratasse dum amigo o qual achasse que precisava de ajuda, fazia-o, seria óptimo. Mas não faria se fosse um trabalho meramente profissional, não produziria um artista de que não gostasse, apenas porque era um emprego. Penso que não me sentiria bem comigo mesmo ao fazê-lo. Tem que se gostar do que se faz caso contrário não se pode fazer um bom trabalho. A única forma de produzir discos para mim é confiar nas minhas opiniões portanto tenho que gostar da música.

Fale-nos um pouco da sua experiência de produção com os Giant Sand. Considera-a boa mas algo estranha?
Sim, sim. Eles são uma banda fantástica, o Howe é um homem fantástico e um óptimo músico. Lembro-me sobretudo da forma de gravação deles. Marcámos uma sessão para o meio-dia, estava lá eu e o engenheiro de som e nenhum dos membros da banda apareceu. Mas por volta das 14h00 apareceram o John (Convertino) e o Joey (Burns). O Howe só surgiu por volta das 17h00, com os filhos dele para conversar. Depois tocaram um pouco de piano e de guitarra, pareciam que estavam a fazer apenas uma jam, e passado uma hora ele levantou-se e disse “Até logo!Gravaste isto?” e eu disse que não, que teriam de recomeçar porque não sabia que estávamos já a gravar. E ele disse-me “Ah, é que acabámos de fazer algumas canções...”. Isso fez com que eu e o engenheiro de som montássemos microfones por todo o estúdio para que todo e qualquer instrumento ficasse gravado. E no dia seguinte deixámos as cassetes de gravação a gravar durante todo o tempo que eles tiveram no estúdio. Nunca se sabia quando iria-mos ter algum tema, era uma questão de nos manter-mos muito atentos. Esse foi um momento muito bom. Quando eles deixavam o estúdio eu tentava juntar as peças e deixá-las preparadas para o dia seguinte. Portanto foi assim, era assim que as coisas funcionavam com eles (risos), era óptimo! Penso que foi da melhor música que alguma vez já gravei, portanto isto é algo que estimo porque acho que o Howe é de facto um génio.

Também é fã dos Calexico?
Não tanto como dos Giant Sand. Bem, gosto muito deles, o John e o Joey são bons músicos, mas os Calexico são uma banda mais normal, enquanto que os Giant Sand são especiais. O que é bom, eu digo que são uma banda normal mas eles são uma boa banda, mas os Giant Sand são únicos.

E quanto a formar uma banda sua. Como é que faz? Vai tocando com amigos consoante as preferências e as circunstâncias?
Sim é mesmo isso, assim que juntei a banda, disse a uns quantos em Bristol dizemos, “porque não nos juntamos uma noite destas e brincamos com algumas ideias?”, seria divertido apenas fazer música. E as pessoas começaram a fazer isso, e depois começámos a fazer alguns concertos, a gravar aqui e além um disco. Claro que é difícil porque estes músicos estão todos envolvidos em outros projectos. E juntar muitos músicos fica muito dispendioso para ir em digressão, mas é espantoso que vamos agora começar uma digressão de dezoito dias na Europa.

Que tem ouvido recentemente?
O novo disco dos Wilco que penso estar muito bom. E... milhares de coisas. Na realidade é péssimo porque são sobretudo coisas que nunca chegam a ser editadas, que as pessoas me enviam. Mas também passo por fases em que oiço os meus discos favoritos, o Johnny Cash, os Giant Sand, ou o Howe. Muitas coisas... Tenho também ouvido muito uma compilação da Thrill Jockey “Looking for a Thrill”. Tal como o disco do Pascal dos 16 Horsepower, um disco a solo que é muito bom.

Como está a cena musical de Bristol?
Parece estar de muito boa saúde. Existem imensas bandas aqui, penso que sempre existiram mas desde o sucesso do Tricky e dos Portishead, e dos Massive Attack, a cidade ganhou mais confiança, e desde aí que vêm imensas bandas para Bristol.

Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 13)