Entrevistas
JON SAVAGE
“NO MEU ENTENDER A INGLATERRA DEVIA ESTAR MAIS PRÓXIMA DA EUROPA.”
Jon Savage, um dos mais importantes críticos ingleses das últimas décadas e historiador oficial do punk britânico, dá uma rara entrevista à Mondo Bizarre a propósito dos seus dois últimos projectos, as compilações “England’s Dreaming” e “Meridian 1970”.

Nascido em 1953, o movimento punk inglês arrancou-o de uma carreira na advocacia, já depois de se ter licenciado em literaturas clássicas em Cambridge. Começou por criar o seu próprio fanzine, London's Outrage, no fim de 1976. Contemporâneo da idade de ouro dos weeklies ingleses, escreveu para os já extintos Sounds e Melody Maker, mas rejeita enquadrar-se na geração de Julie Burchill ou Danny Baker, estando a sua prosa mais próxima de Greil Marcus com quem partilha o gosto por um estilo analítico e uma elaborada perspectiva histórica. O seu livro “England’s Dreaming: Anarchy, Sex Pistols, Punk Rock, And Beyond” é o estudo definitivo sobre o punk, ousando usar um estilo literato na procura das raízes do fenómeno e fazendo um enquadramento histórico da Inglaterra dos anos 70 e dos movimento sociais que o precederam. Se nada mais tivesse escrito, este livro bastaria para registar a sua marca na historiografia do rock. Mas Savage tem dado provas de grande versatilidade, estando à vontade tanto sobre as origens do hip-hop como sobre temas fora do universo da pop. A prova disto mesmo é o livro que se encontra a escrever sobre a juventude entre 1895 e 1945 e as duas recentes compilações que seleccionou para as editoras Trikont e Forever Heavenly. Enquanto “England’s Dreaming” pretende ser a banda sonora do livro com o mesmo nome, já “Meridian 1970” é um apanhado de faixas obscuras de artistas mais ou menos mainstream do princípio da década de setenta, tendo como denominador comum uma influência declarada da folk e da country norte-americana. Ambas se caracterizam pela fuga às escolhas óbvias e são altamente recomendáveis. Com a trágica morte de Ian MacDonald, com Nick Kent a viver em Paris e Simon Reynolds em Nova Iorque, Savage mudou-se para o País de Gales e continua a ser um dos críticos britânicos mais estimulantes da sua geração.

O que o levou a interessar-se por música? Quais foram os primeiros discos que comprou?
O meu avô era um apaixonado por jazz e blues e passou-me o seu entusiasmo pela música americana. A minha antena começou a rodar em 1962, quando tinha nove anos. Adorei o Del Shannon e os Everly Brothers, e depois, claro, fui totalmente apanhado pelos Beatles e pelo British Beat, em 1963. Penso que o primeiro disco que alguma vez comprei foi "Little Town Flirt" do Del Shannon. Em meados dos anos sessenta ofereceram-me todos os álbuns dos Beatles e o primeiro disco que comprei eu próprio foi o “Greatest Hits” dos Byrds, em 1967.

Continua a comprar discos? Se sim, qual foi o último que adquiriu?
Ainda me enviam CDs promocionais, mas compro muito vinil de discos antigos, dos anos 60 e 70. Os últimos discos que comprei foram: “Volume III”, da West Coast Pop Art Experimental Band; “Songs From A Stallion”, de Robbie Basho e uma bootleg de Neil Young And Crazy Horse de Março de 1970. Os CDs mais recentes foram “Diamond Head” de Phil Manzanera (em segunda mão) por causa do fantástico “Miss Shapiro” do Brain Eno. Antes desses tinha comprado “To All Things What They Need”, o novo álbum dos A Guy Called Gerald, e três ou quatro discos de Six Organs Of Admittance.

Sente-se atraído por esta nova vaga de pós punk que engloba bandas tão diversas como Radio 4, LCD Soundsystem, Block Party, etc?
Em teoria, sim. Na prática, quando as ouço, a minha mente divaga e então vou buscar o CD de “Only Fun In Town” dos Josef K ou “You Can’t Hide Your Love Forever” dos Orange Juice. O meu problema com o rock é que, apesar de se manter tão retro, eu já ouvi as fontes destas novas bandas em primeira-mão e não tenho a inocência necessária para as apreciar devidamente. Tenho 51 anos e não 21.

Tem um passado muito diferente (é licenciado em Direito por Cambridge) do dos outros principais “scenesters” punk. Isso permitiu-lhe ter uma visão única sobre o movimento punk?
Sou licenciado em Clássicas (Latin, Grego e História Clássica) e fiz Direito como pós-graduação profissional. Antes de entrar em Cambridge vivi durante dezoito anos no ambiente pop-saturado de Londres Ocidental. Era fã de pop antes de me graduar e, ao contrário de muitos outros, nunca achei que essa fosse uma parte da infância que devia ser deixada de lado. O que ganhei [com a licenciatura e a pós-graduação] foi a visão a longo prazo. Fui atingido pelo punk a um nível emocional e visceral nos primeiros 10 segundos em que vi os Clash ao vivo, mas a educação ajudou-me, mais tarde, a ver que aquilo era importante e de que modo era importante. Sentado nas escadas do Roxy, apercebi-me que estava a testemunhar algo histórico. Também me ajudou a escrever e a estruturar um livro muito longo [“England’s Dreaming”]. Mas a emoção é o elemento vital. As pessoas tendem a pensar que se se tem miolos se é desprovido de emoções. É óbvio que não é assim.

Organizou a compilação “Meridian 1970”, um disco de cantores e compositores à margem e de canções perdidas de início da década de 70. Comparativamente, as canções escolhidas para este projecto são mais inesperadas do que as incluídas em “England’s Dreaming”. Esta foi a sua maneira de reavaliar o princípio da década de 70 como uma época interessante para o rock?
Foi mais uma viagem emocional para me recordar daquilo de que realmente gostava por volta de 1970, quando tinha 16/17 anos. Começou com alguns amigos meus, da mesma idade, que também passaram pelo punk. Estávamo-nos a rir da mais recente propaganda punk, a qual, se nela acreditarmos, diz que nessa altura andávamos todos a ouvir os Stooges e os MC5. Não andávamos. Apesar de eu gostar de Velvet Underground e da Nico (em particular de “The Marble Index”), em 1970 também andava a ouvir rock da Costa Oeste, folk rock britânico, e o material mais “fora” dos cantores e compositores que se pode ouvir em “Medirian 1970”. Oitenta por cento das escolhas são, de facto, favoritos meus de há 35 anos atrás e as restantes porque se encaixavam no todo. Além do mais, é muito estúpido pensar que porque eu gostava de punk não podia gostar de Leo Kottke. Tal como muitas outras pessoas, eu queria ser hippie antes de ser punk. O que actualmente me enerva é o facto de, para muitas pessoas, o punk se ter tornado um estilo fundamentalista e imutável tal qual o dos Teddy Boys em 1977.

Se, neste momento, compilasse um CD cápsula-do-tempo (tipo “Meridian 1970” ou “England’s Dreaming”) que bandas entrariam? Seria muito diferente da compilação “England’s Dreaming” que o ano passado fez para a Trikont?
Se se refere a uma compilação exclusivamente com discos de 2005, pouca coisa, aparte música electrónica. Se fala de um CD-R com discos de que gostei nos últimos tempos, incluiria temas de Six Organs Of Admittance, P.G.Six, The Tower Recordings, Jack Rose, Josef K, West Coast Pop Art Experimental Band, Aphex Twin, Chocolate Watch Band, Jack Nitzsche, etc. De qualquer modo vou organizar outra compilação para a Trikont, sobre música estranha, alegre e excêntrica, do início dos anos sessenta em diante. Coisas como “Do You Come Here Often?” dos Tornados ou “Kay Why” dos Brothers Butch. Estou também a falar com a Heavenly acerca de uma outra compilação.

Porque criou “England’s Dreaming" para uma editora alemã e porque lhe deu o mesmo nome do que ao livro?
Pediram-me para a fazer. Dei-lhe o mesmo nome que ao livro para ajudar a vender o livro. Quis fazê-la porque adoro a música. Foi como transpor a música de “England’s Dreaming” para CD, que era uma coisa que sempre quis fazer.

Também criou uma compilação virtual em cassete para a Mojo [edição nº 122, Janeiro de 2004], que é uma espécie de homenagem à sua “Post Punk 01”, da Rough Trade. Quais são as principais diferenças entre ambas, para além do facto de uma delas ser virtual?
Acabei por não ser eu a organizar realmente a da Rough Trade. A compilação da Mojo existe em CD (eu tenho uma), e é bastante melhor do que a outra. Mas nunca se consegue a compilação ideal devido a restrições de licenciamento, etc. A industria musical está a destruir-se com coisas como ter que se pagar 250 libras a um advogado apenas para ele procurar qualquer coisa num arquivo. É por isso que as pessoas gravam os seus próprios CD-R e descarregam MP3. Como sempre acontece, a tecnologia ultrapassou a capacidade da industria musical a controlar. Além do mais, como já disse, o novo pós punk não me convence. Pelo menos não o suficiente para o colocar lado a lado com discos que me dizem muito como “Home Is Where The Heart Is” dos Public Image Limited.

Como selecciona as bandas e os temas para cada compilação?
Primeiro por aquilo de que gosto e depois pelo que consegui obter. Começa-se com uma lista de nomes e tem-se outros tantos em reserva para se usar quando não se consegue a(s) primeira(s) escolha(s). Por exemplo, os Sex Pistols. O John Lydon não nos queria dar nada. Não fiquei aborrecido com isso pois já toda a gente ouviu os Sex Pistols. Assim, em vez deles, escolhemos os Bizarros, os Devo e os Metal Urbain e a compilação soa na mesma fantástica. O critério principal é esse: é uma coisa que ouvirias? Adoro ouvir o “England’s Dreaming” no carro, é absolutamente fabulosa. De qualquer modo eu estou sempre a fazer compilações por tema ou por ano.

Organizou várias compilações, muitas delas acerca do punk e do pós punk. Acha que chegará uma altura em que se tornará redundante fazer esse tipo de compilações?
Não porque neste momento há tanta música disponível que as pessoas precisam de um guia para se orientarem. A economia pop é muito diferente do que era no final dos anos setenta. Naquela altura os discos eram descatalogados ou não estavam disponíveis e era preciso trabalhar e pesquisar para encontrar coisas. Agora quase tudo está disponível pois o CD é um excelente investimento para as editoras. Música antiga a preços novos igual a bom resultados para as editoras. Mas agora a pop tem uma história, quer se goste ou não dela, e ainda existem por aí muitas preciosidades esquecidas.

Qual é para si a grande atracção do período punk e pós punk? O que faz com que essa época se destaque?
Experimentação; Liberdade; Independência; Faça Você Mesmo; Psicadelia Mutante; Ausência de investimento corporativo; Inexistência de patrocínios da Nike; Descarga de Energia; Actualmente é tudo muito predeterminado e as pessoas olham para o final dos anos 70 e não acreditam como era possível aos fãs de pop criar a sua própria economia e levarem-na até onde levaram. Pode-se ouvir essa autodeterminação na música. Foi o último grande período antes da mediatização e da recuperação total: a sociedade do espectáculo aconteceu. Quando eu tinha 22 anos, ver David Bowie em “The Man Who Fell To Earth” sentado em frente a uma parede de ecrãs de televisão parecia muito excitante, agora que temos todos estes canais de televisão isso não é uma tremenda seca?

Quais são os seus singles e álbuns de punk e pós punk favoritos?
O primeiro álbum dos Ramones. O primeiro álbum dos Saints. Os primeiros quatro singles dos Sex Pistols e os seus lados B. Todas as faixas de “England’s Dreaming”, o que quer dizer que também gosto muito de punk da Costa Oeste. Os Sleepers, os Wire, os Subway Sect. Todos os temas da compilação da Mojo. A caixa “Heart And Soul” dos Joy Division que eu organizei em 1997. As reedições que tenho tocado ultimamente são “Are Amateur Wankers” dos The Perfects (obrigatória para todos os interessados em pós punk) e “The Only Fun In Town” dos Josef K.

“England’s Dreaming", o livro, cobre um tempo que a nível político e social foi, em Inglaterra, tudo menos um sonho. Cultural e musicalmente a Inglaterra da altura estava mesmo a sonhar?
Sim, porque a Inglaterra ainda estava a sonhar com o facto de ter ganho a Guerra. O Jubileu de Prata foi uma tentativa de reavivar o sonho do Império. Era uma mentira tão descarada e tão nostálgica que nos pareceu quase fascista.

Se a Inglaterra de então estava a sonhar, o que aconteceu ao sonho?
Tornou-se num pesadelo e nós éramos as pessoas que davam corpo a esse pesadelo. Era esse o propósito. Por isso é que toda a gente odiava os punks que estavam, a um nível muito importante, a dizer a verdade: que a Inglaterra estava fodida. Actualmente, o problema do país é que continua apegado à ideia de que é uma potência mundial e daí o envolvimento com a cruzada do Médio Oriente de Bush. Isso nunca teria acontecido se a Inglaterra não estivesse, económica e espiritualmente, presa à América. No meu entender a Inglaterra devia estar mais próxima da Europa. Devo dizer que já não vivo em Inglaterra, vivo no Pais de Gales, o que faz toda a diferença.

Vista de fora a Inglaterra moderna parece ser um país economicamente forte, com uma industria musical pujante, mas não muito estimulante. Como vê neste momento a música popular inglesa?
Extremamente aborrecida. Kaiser Chiefs igual a revivalistas britpop. Os Blur eram uma merda quando andavam por aí, por isso o que é que se pode dizer de uma fotocópia dos Blur? Quero música que soe como se tivesse sido feita em 2005 e não noutro ano qualquer. O que quer dizer, em grande parte, música electrónica. Mas a atenção voltou a deslocar-se para os grupos de guitarras, mas ninguém fez nada realmente novo nesse campo desde os Nirvana ou My Bloody Valentine em 1991. O problema é que não há underground porque os media lá chegam demasiado depressa.

E em relação à imprensa? O New Musical Express é uma sombra do que foi no passado, o Melody Maker está morto e revistas como a Mojo, que são bastante boas, não arriscam nada.
Bem, isso é um sintoma do que foi dito atrás. Não discordo com o que diz, mas diria que esse não arriscar atravessa todos os media mainstream – estão lá todos os sinais habituais: os objectivos das Relações Públicas ou do jornalista que se considera mais importante do que o sujeito.

Está de algum modo envolvido na adaptação cinematográfica de "Touching From A Distance" (a biografia de Deborah Curtis sobre Ian Curtis)? Quais são os seus sentimentos em relação ao projecto e o que pensa de Anton Corbijn ser o realizador?
Não estou envolvido. Conheço a Deborah Curtis e desejo que o projecto corra bem. Sou capaz de estar envolvido num projecto televisivo sobre os Joy Division, mas ainda estamos em fase de negociações.


António Alves e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 22)