Entrevistas
JOSEPHINE FOSTER
FOLHAS DE FIM DE INVERNO
Jospehine Foster foi salva do esquecimento por Devendra Banhart, que em 2004 a colocou na compilação “Golden Apples Of The Sun”, ao lado de vários notáveis da badalada folk reciclada: Vetiver, Joanna Newsom, Iron & Wine ou Six Organs Of Admittance.

A cantautora não tem, porém, as boas maneiras e o feitio manso de um Sam Beam, por exemplo. A sua voz, comparada à de Grace Slick (Jefferson Airplane) e Vashti Bunynan, revela marcas de uma conturbada passagem pela escola de ópera e pode oferecer resistência.

Psicadelismo e Idade Média são outras das coordenadas da obra de Josephine Foster, que no ano passado lançou pela primeira vez um disco em nome próprio, em CD. Aquela que é também conhecida como a metade feminina dos Born Heller estreia-se em Portugal no final deste mês, com uma pequena digressão que a levará ainda a Espanha, para um concerto em Vigo.

Com a Mondo Bizarre, Josephine Foster falou do próximo disco e abriu o apetite para os vindouros espectáculos, nos quais actuará também o guitarrista inglês James Blackshaw, discípulo da escola Fahey. Aos leitores, a cantora deixa uma derradeira explicação: está com um dedo magoado e quis poupar nas palavras, tecladas nesta entrevista por e-mail, para se apresentar em plena forma à guitarra, muito em breve no Porto, Famalicão e Lisboa.

Está prestes a actuar em Portugal pela primeira vez, em promoção do seu mais recente álbum, “All The Leaves Are Gone”. O que podemos esperar desses espectáculos?
Vou tocar as minhas próprias canções – há músicas inéditas, algumas delas a incluir no álbum “Hazel Eyes, I Will Lead You”, que está para sair… e outras do “All The Leaves Are Gone”. E basicamente é isso! Só tenho duas mãos e um corpo… Por isso, em certos casos vou tocar uma versão mais despida [das músicas], se comparada com a canção gravada. Mas como elas foram criadas dessa forma, originalmente, [fico] mais perto da alma das canções, de qualquer maneira.

Vem a Portugal acompanhada do guitarrista britânico James Blackshaw. Ele vai juntar-se a si em palco, ajudando-a a reproduzir a intensidade do álbum?
Bem, o James só me vai acompanhar numa ou duas canções. Somos companheiros de viagem, pelo que essas coisas fazem parte da diversão e camaradagem! Vou tocar sozinha todo o tempo, excepto nesses momentos. Quanto a reproduzir a intensidade de “All The Leaves Are Gone”, não é essa a minha intenção. Como já disse, vou tocar canções, ou pretendo tocar canções que fui eu a escrever, algumas mais rock. Penso que a intensidade é uma coisa relativa – a quietude é tão reveladora como o barulho mais extraordinário. E, na maior parte dos casos, escrevi as minhas canções de forma a que sejam bastante flexíveis. Para mim, isso é o mais importante, na verdade. Se faço uma canção que é de tal forma específica de um certo ensemble, então estou presa a uma circunstância fora do meu controlo. De facto, tento criar uma canção que esteja para lá de um disco, de uma banda, da minha voz, da minha vida – isso ultrapassa todos estes factores, é como mandar uma pedra ao sol… Não pertence a ninguém, mas mesmo assim todos podem partilhá-la, se assim o entenderem.

Tornou-se mais popular depois de Devendra Banhart incluir uma das suas canções, “Little Life”, numa compilação chamada “The Golden Apples Of The Sun”. Identifica-se com os outros artistas que aparecem no disco?
Bem, certas pessoas são atraídas por vibrações, todos os músicos o são. Em que é que as vibrações desta compilação são diferentes? A maior parte das coisas é calma e acústica, acho eu… Sinto verdadeiramente que a compilação reflecte as reais paixões do Devendra, é a sua escolha de canções e músicos. De alguma da música que está naquela compilação gosto mesmo muito. A maior parte dos artistas é obscura, como eu, por isso também me identifico com eles nesse aspecto.

Acredita que podemos falar de um género chamado free folk ou new weird america, ou prefere pensar que a variedade de influências de cada artista torna a cena demasiado híbrida para ser categorizada?
Isso cabe às pessoas decidir. Eu sei aquilo de que gosto e o de que não gosto, mas por detrás disso, não existe um significado mais profundo. A variedade de influências é enorme, claro. Mas eu não tenho nada a ver com isso. O meu interesse passa por criar e tocar música, não analisá-la e categorizá-la.

A sua música tem sido comparada à obra de Jefferson Airplane, Vashty Bunyan e Shirley Collins. Foram esses os artistas que a inspiraram a fazer música?
Os Jefferson Airplane foram uma influência muito grande para mim. Sempre me senti atraída por cantores altamente expressivos que me façam mesmo vibrar. Que me entusiasmem e emocionem. Além disso, a música deles era uma mistura encantadora de heavy e medieval. Abalou-me muito. A Shirley Collins ouvi pela primeira vez há muito pouco tempo, apenas porque me compararam a ela. É uma cantora poderosa, acho que ela é do caralho. E depois a Vashti, [conheci] através do Devendra. É muito meiga e contida, muito sagrada. Mas, até ao presente momento, não é uma influência [no meu trabalho].

Ao ouvir as suas canções, por vezes penso também numa versão feminina de Robert Plant (Led Zeppelin). Considera a associação lisonjeira ou ofensiva?
Penso que é um elogio muito, muito simpático.

Diz que é uma desistente da escola de ópera. No entanto, a influência das aulas ainda se nota na sua voz. O que a fez desistir de estudar ópera? Ainda ouve ópera, em casa ou nos teatros?
Então não! Ouço e canto ópera sozinha. Não tenho dinheiro para ir à ópera, mas requisito discos na biblioteca (áudio); de vez em quando também compro um ou outro, em vinil, na loja de penhores, acaba por ficar mais barato! Deixei de estudar e fazer vida da ópera porque aquele não é o meu mundo. Foi feito para aqueles que estão interessados em muitas, muitas regras e formas, o que a mim me inibiu de me exprimir. Sentia-me atraída, apenas, pelos grandes vibratos, pelo corpo e pela alma. E pela beleza da música e pela representação nas peças absurdamente emotivas. Eu queria SER música, e a maneira de criar som, na ópera, permite isso. É como os “cantores de garganta” de Tuvan. Trata-se de manipular vibrações e “overtones”. No entanto, eu queria fazer vibratos, mas a ópera impõe-te tantas regras, de tom, de dicção. É uma arte altamente rigorosa – e perfeccionista. [Tinha de gastar] aquele tempo todo para aperfeiçoar os meus dotes de linguagem, e o facto de ter de memorizar as coisas roubava-me tempo criativo [do qual] precisava para compor. Além disso, gosto de cantar fora de tom, sinto que tenho o direito de o fazer e que ninguém me pode proibir disso.

A Josephine pertence também ao duo Born Heller. Quais as diferenças entre fazer música a solo e trabalhar numa banda?
Bem, é mais divertido actuar ao vivo com uma banda, especialmente se as pessoas da banda forem como o Jason [Ajemian] nos Born Heller, ou o Brian e o Rusty nos Supposed, porque eles são improvisadores, e podemos criar [nova música] in loco, o que é delicioso. Acontece uma comunhão musical divina com o público, que depois a completa com a sua energia e, muitas vezes, com a sua participação. Numa situação ideal, desejamos que as pessoas percam o controlo das suas mentes e dos seus corpos, e que transcendam a sua forma terrena connosco – que sintam a beleza [da música] através do som, ou que nós as façamos mexerem-se, dançarem, baterem palmas, etc. Quanto a tocar sozinha, tenho menos experiência. É bom fazer um disco sozinha, porque sei o que quero e não tenho de negociá-lo com outras pessoas. É simples. Tenho ideias muito distintas sobre o som [que quero fazer], e quando não gosto do que uma pessoa está a fazer numa canção, não consigo ficar calada. Por isso, é importante confiar musicalmente, de forma implícita, nas pessoas com quem colaboro, para que elas sejam capazes de trazer surpresas e eu queira integrá-las numa canção, ao invés de tentar mudar o rumo das coisas.

Em breve, vai lançar um novo disco, chamado “Hazel Eyes, I Will Lead You”. É muito diferente dos trabalhos anteriores? Os The Supposed vão voltar a acompanhá-la, como em “All The Leaves Are Gone”?
Neste álbum, não. Vai ser bastante diferente do mais recente, mas será bastante parecido com o meu trabalho mais antigo, só que essas coisas nunca as gravei. É mais pastoral e gentil do que o trabalho com os The Supposed, é menos sobre relações e sentimentos e mais sobre Deus e a Natureza e um Código Divino.

Nunca sente vontade de fazer algo mais contemporâneo? Ao ouvir a sua música, sentimo-nos numa viagem no tempo pelos anos 60 e 70, ou até mesmo pela Idade Média.
Não penso nesses termos. Gosto do que é intemporal. Há muita coisa nos anos 60 e 70 que é intemporal, tal como nos séculos XII, XV e XVII. Simplesmente, há sons, harmonias, ganchos que eu aprecio.

Como é que as pessoas que nunca ouviram a sua música reagem, quando a vêem tocar ao vivo?
Alguns choram, outros falam por cima da música, uns dizem que eu pareço uma freira e outros, como tu, que pareço o Robert Plant! Eu aceito todas as reacções.

A sua música consegue ser ao mesmo tempo sinistra e infantil, perversa e litúrgica. Há algum local onde gostasse especialmente de tocar ao vivo? Estou a pensar numa igreja antiga, por exemplo.
Sim, exactamente. Sou adepta da ressonância natural. Regra geral, odeio clubes e microfones. Aprendi a cantar tirando partido de uma sala e do espaço, não de um microfone. A princípio, quis começar a cantar por ter ouvido alguém cantar numa igreja. Foi mágico. Tive sorte, porque a maior parte das coisas que os cantores de ópera cantam e as igrejas produzem é uma merda secante. No entanto, nos passados dois anos, aprendi a usar um microfone. No começo passei-me, porque cantar ópera ao microfone soa uma merda. Por isso, a princípio e para compensar, lutava com a minha voz e sentia-me muito insegura em relação ao vibrato, à sua amplitude. Hoje, conheço melhor o meu instrumento e posso criar sons de que gosto usando um microfone, se precisar de o fazer.

Uma última pergunta. Os seus primeiros discos foram lançados em CD-R; “All The Leaves Are Gone” é o primeiro a chegar às lojas, em CD. O que sente em relação a esta mudança?
Antes do “All The Leaves Are Gone”, já tinha editado em CD com os Born Heller e outra banda antiga, por isso este não é o primeiro. Penso que é bom que mais pessoas tenham acesso à música, através da distribuição; no entanto, fico doente quando penso no plástico que se gasta para fazer um CD. Não estou em paz com o desperdício causado pelo fabrico. Anseio por uma forma que não se degrade tão rapidamente. Acho que, se vamos criar matéria, ela deve ser feita para durar e ter qualidade, e causar o mínimo de efeitos secundários nefastos para a Terra. Ao mesmo tempo, é estranho que tenha de comprar a minha própria música à editora discográfica, mas todas as coisas neste planeta constituem mistério, e eu estou habituada a isso.

Lia Pereira
(Mondo Bizarre - Março 2005)