JOSH ROUSE
AMARELO-TORRADO E AZUL-BEBÉ
Depois do excelente “Under Cold Blue Stars”, Josh Rouse resolve agora refrescar a sua música, abraçando outras sonoridades. “1972” (ano de nascimento do músico de Nashville e data de fabrico da sua Fender Telecaster) tem sido aclamado pela crítica graças ao charme irresistível das suas canções, desta vez temperadas com sonoridades soul e pop, resultando num álbum mais alegre e de tom retro. O novo álbum foi o motivo principal da conversa com um dos mais brilhantes escritores de canções do nosso tempo.
“1972” é significativamente diferente dos seus anteriores registos. É mais alegre, positivo, os arranjos são mais elaborados. Quais foram as principais diferenças no processo de composição e gravação comparando com a feitura dos outros discos?
O Brad Jones (produtor do álbum) ajudou-me a escrever e a fazer os arranjos. É a única diferença. Não houve nenhum grande plano. Apenas pus em prática algumas ideias novas. Procuro sempre um bom fraseado melódico para as canções e neste disco quis acrescentar metais e sopros. Simultaneamente, vou aperfeiçoando os textos que às vezes aparecem muito depressa, outras demoram mais tempo.
Como foi a experiência de trabalhar com o Brad Jones?
Ele teve uma grande responsabilidade no resultado final a nível estético, na orientação estilística das canções. Estávamos em sintonia um com o outro, já que a minha ideia inicial era que as canções soassem com um certo toque retro. Eu tinha algumas ideias a nível de arranjos e de produção e ele complementou essas ideias de forma excelente, sabia muito bem como as canções deviam soar.
Até aqui tinha seguido por uma via mais folk-rock. “1972” tem influências de soul dos anos setenta...
Adoro esse tipo de música, especialmente artistas do início dos anos setenta. Sempre fui fã de Marvin Gaye, Al Green, Stevie Wonder...
Esses nomes foram uma influência consciente neste álbum?
Não propriamente. Por vezes dizia ao Brad que adoraria ter, em alguns temas, a tarola a soar como nos discos do Al Green. Gosto desses artistas, mas não consigo cantar como eles. Mas quis transportar esse “feel good” típico desses velhos discos para a minha música.
Algumas pessoas poderão torcer o nariz a este disco por soar tão retro e por se ter virado para o passado...
Não me preocupo com o que as pessoas possam pensar. Nunca se deve ser muito auto-consciente quando se faz música. Apenas deixo a música sair de dentro de mim naturalmente.
Em “1972”, por vezes, a sua guitarra é tocada de uma forma semelhante à da bossa-nova. Conhece muita música brasileira?
Conheço alguns dos artistas mais famosos. Oiço bossa-nova. Não sou um grande conhecedor, não fui muito educado para a música brasileira, mas o que conheço gosto. Usei muitas vezes acordes maiores e os músicos da bossa-nova usam muito esse tipo de acordes.
Todo o álbum é muito anos setenta, da música ao grafismo. A que se deve esse fascínio por essa década?
Eu gosto de discos de inícios de setenta, gosto do tipo de som que essas gravações têm. Gosto de muita coisa dessa altura: música, design... Quis introduzir no meu trabalho alguns desses elementos que marcaram essa década, quis que fossem uma referência no meu trabalho. Sinto alguma nostalgia pelos anos setenta.
“Sparrows Over Birmingham” tem coros gospel. Aprecia esse tipo de espiritualidade na música?
Sim. Essa é uma canção gospel que possui essa espiritualidade. Não oiço muita música gospel, mas a canção surgiu dessa forma. O James Nixon [cantor de gospel] é um velho homem negro que o Brad conhece. A certa altura disse ao Brad que seria óptimo que arranjássemos alguém para fazer um coro gospel para esta canção em particular e ele sugeriu o James, por quem tem uma grande admiração, e como já tinha trabalhado com ele antes, era a escolha ideal.
É recorrente no seu trabalho as canções de amor e histórias sobre pessoas comuns em pequenas comunidades...
Eu escrevo sobre o amor mas também sobre personagens muito diferentes entre si. Escrevo sobre elas na posição de observador. O amor é apenas um dos elementos das minhas letras. Fico contente por as pessoas apreciarem isso, pois a minha intenção é comunicar. No fundo, escrevo sobre o espírito humano e as suas contradições e toda a gente se pode relacionar com isso.
Agora que o rock está de novo em alta, não lhe apeteceu fazer um disco de rock, inspirado pelas novas bandas que apareceram nos últimos anos?
Eu não sou grande apreciador de bandas de rock ou garage rock. Para ser honesto, não oiço esse tipo de música, não faz parte da minha personalidade. Quero dizer, aprecio uma boa canção dos AC/DC, mas não é a minha maneira de sentir, nunca me apeteceu fazer um disco de rock. Eu canto de uma forma calma e sinto-me à vontade a cantar assim. Não gosto de grandes solos e coisas desse género. Esta nova onda rock não me atrai muito.
Musicalmente, considera que o espírito que habitava certo tipo de música dos anos setenta está ausente de muita da música que se faz hoje?
Não há assim tanta boa música hoje em dia, com esse tipo de autenticidade. Gosto de canções bem escritas, com uma boa melodia e uma boa letra. São qualidades que estão ausentes em muita da música comercial actual. Agora há uma grande tendência para fabricar um hit o tempo todo. Claro que continua a haver gente que edita bons discos. Continuo a comprar boa música mas não é comercial. Daquela que se vende às carradas.
No press release de “1972”, escreveu que o Brad Jones queria muitas drogas e mulheres por perto durante as sessões de gravação. Foram fiéis ao espírito das bandas dos anos setenta a esse ponto?
É uma piada, só isso... (risos)
Causa-lhe irritação o facto de algumas pessoas o associarem ao alt. country?
Não ligo a rótulos. Prefiro dizer que é apenas música. Não faça parte desse movimento. Sou americano, vivo na América e sou mais influenciado pela música americana do que a música inglesa, por exemplo. Tanto gosto de folk ou Hank Williams como de R.E.M ou U2.
Como é a vida em Nashville? Em termos musicais, e sendo uma cidade conhecida pela country, o que mais tem para oferecer?
É uma cidade boa para viver. Vivo aqui há sete anos e conheço muita gente. Tem um milhão de habitantes, não é muito grande. Há muita música por aqui, com muitas bandas em actividade. É uma cidade muito musical. Nashville é um bom local para mim porque sou songwriter e há muitos por aqui da minha idade. Às vezes saímos para beber um copo, falamos sobre música, gravar, andar em digressão. Mas cada um tem a sua identidade musical e a sua própria maneira de gravar. A cidade tem muitos estúdios de gravação. Toco ao vivo uma ou duas vezes por ano em Nashville, às vezes com os Lambchop e outros artistas. Existem também por aqui muitas bandas de indie rock.
Gosta de viver no sul da América portanto. Já pensou viver no norte, em Nova Iorque por exemplo?
O norte tem uma vibração diferente. Vive-se mais depressa do que no sul. No sul, o clima é melhor, há mais sol, mas também gosto do nordeste. Eu passo tanto tempo na estrada que tenho amigos e fãs em Nova Iorque, Los Angeles, Suécia, Reino Unido, Nashville... Talvez no futuro decida viver em Nova Iorque durante um ou dois anos.
Qual é o seu lugar no cenário musical dominado por uma indústria corporativa que trata os artistas como mera mercadoria?
Tento estar o mais longe possível desse jogo. Gravo os discos, entrego-os à editora e eles editam e distribuem pelo mundo fora. De resto, faço o que me compete: digressões, entrevistas... Concentro-me a criar a minha música. Eu sei o que se passa na indústria. Aqui em Nashville, há um grande negócio musical, mas tento traçar uma linha entre o que quero e o que não quero fazer.
Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 17)
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